BRASIL 247
Um funcionário e uma ex-funcionária da fiscalização do transporte intermunicipal de Pernambuco afirmam que foram impedidos de fiscalizar os ônibus da Viação Logo Caruaruense, empresa pertencente à família da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD). Os depoimentos reforçam as suspeitas de tratamento privilegiado à transportadora, que atualmente é investigada pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), vinculada ao Ministério da Justiça, por supostas irregularidades na prestação do serviço.
As declarações surgem após a abertura de investigação pela Senacon, noticiada anteriormente pelo Brasil 247, com base em informações publicadas pelo Metrópoles, que revelou que a empresa da família Lyra operava, segundo relatórios técnicos, com uma frota de aproximadamente 50 ônibus sem as vistorias obrigatórias em dia e sem documentação considerada essencial para a prestação do serviço de transporte intermunicipal.
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Segundo um dos depoimentos, a orientação para não fiscalizar a empresa teria sido estabelecida logo no início da atual gestão estadual. “Desde que a governadora Raquel Lyra assumiu o governo do estado, a ordem foi bem clara: não fiscalizar a rota da Logo Caruaruense. Essa determinação, ela foi exposta desde o início do governo da governadora Raquel Lyra”, afirmou.
Relatos apontam suposta blindagem da empresa
O funcionário explicou que os procedimentos de fiscalização exigiam a realização de vistorias para verificar se os veículos apresentavam condições de segurança para transportar passageiros. Segundo ele, esse protocolo não era aplicado à empresa da família da governadora.
“Tem que ser feita uma vistoria no veículo para que esse veículo esteja apto a rodar nas ruas para passar segurança para a população. Era o que de fato não acontecia com a Lotaroense”, declarou.
Ele acrescentou que a situação já era conhecida internamente por meio de documentos produzidos pelos próprios órgãos responsáveis pela fiscalização. “Inclusive era uma situação que era evidenciada por relatórios existentes, que mostravam tanto débitos na parte cadastral da Lotaroense como na parte operacional.”
Condições da frota e tratamento diferenciado
Ainda de acordo com o depoimento, havia conhecimento sobre o estado de conservação dos veículos, mas os fiscais deixariam de atuar por receio de consequências administrativas.
“A gente sabia das condições dos veículos, que estavam em péssimas condições, mas por medo de retaliação por parte da governadora, a gente não fiscalizava.”
O servidor afirmou ainda que a postura adotada em relação à Logo Caruaruense contrastava com o tratamento dispensado às demais empresas do setor.
“Com relação às outras empresas, a fiscalização era feita de forma correta. Todas as empresas pagavam suas taxas, eram fiscalizadas nas estradas. Havia um privilégio.”
Depoimento cita familiares da governadora
No relato, o funcionário também menciona a existência de vínculos familiares entre integrantes da administração estadual e pessoas ligadas à empresa de transportes.
Segundo ele, “o secretário da pasta de transporte na época, André Teixeira, primo da governadora Raquel Lyra. A mãe dele, inclusive, trabalhou muitos anos na Lotaroense como gerente da empresa”. O depoente também cita a procuradora-geral do Estado: “Bianca Teixeira, também prima da governadora”, além de mencionar que “os pais e a irmã” da governadora seriam os proprietários da empresa.
Ao final do depoimento, o funcionário critica a forma como se deu o encerramento das atividades da transportadora. “E a empresa fecha sem ter tomado nenhuma responsabilidade para si, né? Não pagou os débitos que deveriam ter sido pagos e continua da mesma forma, como se a governadora fosse blindada. É como se ela estivesse acima da lei e acima do bem e do mal”.
Investigação da Senacon continua
As declarações se somam às informações que motivaram a investigação da Secretaria Nacional do Consumidor. Conforme revelou o Brasil 247, com base em reportagem do Metrópoles, relatórios da Empresa Pernambucana de Transporte Coletivo Intermunicipal (EPTI) indicaram que a Viação Logo Caruaruense operava havia cerca de três anos com todas as vistorias obrigatórias vencidas, muitas delas expiradas desde 2022, além de atuar sem o Certificado de Registro Cadastral exigido para a prestação do serviço.
Os levantamentos também apontaram que a empresa raramente era alvo de autuações ou abordagens em blitze rodoviárias, apesar das supostas irregularidades, enquanto imagens obtidas durante a fiscalização mostravam veículos em condições consideradas precárias.
Empresa anunciou encerramento das atividades
Após a repercussão do caso, que provocou forte desgaste político e levou à apresentação de um pedido de impeachment contra Raquel Lyra na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), a governadora anunciou o encerramento das atividades da empresa da família. Na ocasião, declarou: “A Caruaruense vai encerrar as operações e entregar as linhas à EPTI”.
Apesar da interrupção das atividades da transportadora, a investigação da Senacon permanece em andamento. O objetivo é apurar a extensão das possíveis irregularidades, os danos eventualmente causados aos consumidores e as responsabilidades decorrentes da operação da empresa durante o período em que prestou o serviço de transporte intermunicipal.
Outro lado
O Brasil 247 entrou em contato com o governo de Pernambuco para ouvi-lo sobre as denúncias apresentadas, mas não recebeu um posicionamento até o fechamento da reportagem. O espaço seguirá aberto para manifestação.
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