Por Aldo Paes Barreto
Poeta consagrado, o pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968) só entrou no universo mais direto da poesia dos cantadores e repentistas quando ouviu e viu de perto os seus colegas em ação. Foi em 1959, quando o Jornal do Brasil patrocinou, no Rio de Janeiro, o Congresso de Cantadores e Violeiros do Nordeste. Bandeira encantou-se com a genialidade dos participantes e dias depois publicou naquele jornal um poema louvando a arte dos conterrâneos.
“Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação
Como faz Dimas Batista
E Otacílio seu irmão;
Como faz qualquer violeiro
Bom cantador do Sertão,
A todos os quais, humilde,
Mando minha saudação.”
Anos mais tarde, em uma das poucas entrevistas concedidas à televisão, Manuel Bandeira lembrava sua admiração pelos sonetos e citava dois versos alheios que gostaria de ter produzido. O primeiro é parte do poema “Eu vi minha mãe rezando”, do médico e trovador pernambucano Barreto Coutinho (Limoeiro, 30 de junho de 1893 — Curitiba, 31 de agosto de 1975) e dizia:
“Eu vi minha mãe rezando/aos pés da Virgem Maria. /Era uma santa escutando/o que outra santa dizia…”
O segundo verso citado por Bandeira era também de outro nordestino, o pernambucanizado Manoel Pinto, o Pinto do Monteiro, nascido na Paraíba, considerado com toda justiça o Rei dos Cantadores. Em cima de um mote — saudade — sugerido por alguém da plateia, Pinto versejou no calor e na genialidade do repente:
“Essa palavra saudade
Conheço desde criança
Saudade de amor ausente
Não é saudade, é lembrança
Saudade só é saudade;
Quando se perde a esperança.”
Naquela apresentação no Rio, brilharam os irmãos Dimas e Otacílio, mas faltou o principal representante da trinca conhecida como os Três Faraós da Poesia do Sertão — Lourival Batista —, o sempre lembrado Louro do Pajeú, falecido em 1992, aos 77 anos.
Incomparável no trocadilho poético, Lourival foi desafiado certa feita pelo cantador João Andorinha, que se valeu do romance de João Martins de Athayde, “O Dragão do Rio Negro”, para o autoelogio:
“Sou igualmente ao Dragão/Do Rio Negro falado…”
Lourival dizimou o adversário, impingindo-lhe uma baita desinteira na ágil resposta:
“Pra Dragão está distante
Pois Lourival já te explica
Tira letra, apaga letra
Bota letra e metrifica
Tira o “d”, apaga o “r”
Bota o “c”, vê como fica!”
Pinto do Monteiro, Severino Lourenço da Silva Pinto, o lendário poeta nordestino, nasceu no interior da Paraíba (1895-1995) e faleceu como pernambucano, graças ao governador Eraldo Gueiros, um dos mais profícuos governantes da multissecular história do nosso Estado. Foi ele, por sugestão de Marco Vilaça e deste articulista, quem assinou o decreto concedendo pensão vitalícia ao velho cantador que sequer tinha aposentadoria ou qualquer meio de subsistência. Fez mais: providenciou a ida de um soldado da PM de Pernambuco para ser uma espécie de cuidador do poeta. Quando Pinto morreu, o soldado estava lá segurando a alça do caixão, declamando o verso da “Saudade”, chorando pelo poeta.
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