Em entrevista à Folha de Pernambuco, a jornalista Kátia Cubel, da Engenho Comunicação, de Brasília, responsável pela promoção do primeiro Festival Nacional de Jornalismo no Recife, afirmou que o bom jornalismo é o melhor remédio para evitar a propagação de fake news.
Por que o Recife foi escolhido para sediar a primeira edição do festival fora de Brasília?
Recife é uma cidade de ponta, onde se trabalha com inovação, educação e transformações da nossa sociedade. Por isso, a primeira cidade escolhida para o Festival de Jornalismo sair de Brasília e ganhar o país foi o Recife.
Leia maisPernambuco sempre exportou grandes jornalistas para Brasília. Quando cheguei por lá, já tinha Antônio Martins, já tinha Noblat, já tinha muita gente boa atuando…
Com certeza, até hoje tem. Você (Magno) é um exemplo, um dos jornalistas mais prestigiados do Brasil, com maior credibilidade. E hoje tivemos aqui outro pernambucano que está em destaque, o jornalista Breno Pires.
O Breno é um dos repórteres investigativos mais premiados do Brasil. Hoje, ele atua na revista Piauí e descobriu, por exemplo, as emendas Pix, as emendas secretas no orçamento. Enfim, é um jornalista formado pela Universidade Federal de Pernambuco, que também esteve conosco. É importante ressaltar que esse encontro tem sua relevância porque traz para os futuros jornalistas toda a experiência, toda a bagagem de profissionais que já estão no mercado e que podem acelerar a formação e aprimorar a capacitação dos futuros jornalistas para dar sequência ao jornalismo brasileiro.
Seu objetivo é despertar os estudantes de jornalismo?
Esse é um dos objetivos do encontro. O jornalismo é e continuará sendo a profissão que constrói, no dia a dia, a história que ficará para a posteridade. Então, todos os dias se escrevem capítulos do que acontece, dos fatos mais importantes em todas as áreas, e quem vai continuar a exercer esse ofício é o jornalista. Então, cabe a nós, que já estamos no mercado, que enfrentamos todas as dificuldades de um principiante, que saímos dos bancos das faculdades para batalhar por emprego, pelo mercado de trabalho e pela nossa subsistência através do jornalismo, compartilhar essas experiências já adquiridas e reforçar a formação acadêmica com experiências práticas, éticas e comportamentais que só o dia a dia da profissão agrega. Neste evento, conseguimos reunir aqui quase duas dezenas de profissionais em Pernambuco, no Recife, para transmitir todo esse legado, toda essa experiência e fazer esse encontro lindo com universidades de Pernambuco. Veio também a Universidade Federal da Paraíba. Enfim, um encontro muito bonito, pela primeira vez aqui no Recife, que queremos repetir em 2027.
Como é que você avalia a qualidade das faculdades brasileiras de jornalismo?
A educação é um desafio no Brasil. É o que as pessoas mais apontam como um motor para desenvolver o país de vez, e eu acredito que todos nós temos que contribuir. É um problema sistêmico; não é a faculdade que tem um gargalo maior ou menos desafios. O desafio está em todas as fases da formação de um estudante, de um profissional brasileiro. A gente tem um país imenso, com 215 milhões de pessoas, enormes desigualdades sociais por todo o país, e os desafios, segundo a neurociência, começam com a alimentação.
Eu sei das suas preocupações com o futuro do jornalismo no País e do seu poder de sedução. Sei que os jornalistas vieram ao evento sem nenhum cachê.
Ao contribuir, fazermos ações como essa, em que 15 profissionais consagrados, entre eles você, se unem gratuitamente, sem que ninguém receba cachê ou seja remunerado pela tarde que passou aqui trabalhando nesse compartilhamento, estamos também nos responsabilizando por esse quesito da educação dos futuros profissionais e contribuindo para a evolução da educação no Brasil. Todos nós temos essa responsabilidade, e o que promove uma transformação social, que leva o brasileiro a pedir mudanças, avanços e novos parâmetros no nosso dia a dia, é cada um de nós se responsabilizar e fazer o que pode de melhor para que tudo avance e para que a cidadania e a democracia continuem a andar adiante aqui no Brasil.
O que mudou no jornalismo brasileiro com o advento da era digital?
A gente vive hoje um sistema de transformação constante. Nem o jornalista que está no mercado nem o futuro jornalista, aquele que está nos bancos das universidades, sabe exatamente quais serão os meios de comunicação com que vamos alcançar a população de forma mais efetiva. Então, a sociedade está em transformação permanente e a gente, para se encaixar, continuar e seguir adiante nesse ambiente constante de mudanças, tem que estar atento e sempre fazer essa troca. Do que a gente fazia no jornalismo, devem subsistir os parâmetros da equidade, da isenção, do direito de todos se manifestarem e, principalmente do compromisso com a veracidade da informação.
Como o bom jornalismo é o remédio para as fakes?
Hoje, a gente vive num ambiente permeado de fake news, em que o jornalismo é um dos remédios. A expressão que a própria Unesco e a ONU usam é “jornalismo íntegro”: aquele jornalismo realizado por jornalistas que têm metodologia, compromisso com a sociedade e que serve para o desenvolvimento do pensamento crítico, para impulsionar o que a cidadania deve promover por meio de uma profissão tão honrosa, tão necessária e tão estratégica numa sociedade democrática, como é a profissão do jornalista. O jornalismo íntegro é exercido também como remédio no combate às fake news.
A questão da inteligência artificial. O quanto ela ajuda e o quanto prejudica no exercício da profissão?
Todas as ferramentas tecnológicas são, mais ou menos, como uma biruta lá do aeroporto. A biruta é aquela peça que parece um coador gigante, que fica nos aeroportos para indicar a direção do vento.
As ferramentas estão aí; o vento somos nós. Somos nós que sopramos. Há tendências porque todas essas ferramentas são colocadas no mercado por empresas chamadas big techs.
E o nosso cuidado é, principalmente, supervisionar o uso da inteligência artificial. No jornalismo, elas já estão sendo usadas, mas não como geradoras de matéria-prima, e sim como um serviço adicional para dar celeridade ao que o jornalista produz.
Qual a IA que os grandes jornais usam?
Nós conhecemos, neste semestre, toda a inteligência artificial que a Folha de S.Paulo, por exemplo, está usando. E o melhor caminho para o jornalismo e para todas as atividades é entender que a inteligência artificial é uma ferramenta que está a serviço da humanidade, mas tem que estar sob a supervisão, o cuidado e a atenção do profissional que a utiliza.
E não só para fazer fake news, né?
Olha, esse problema das fake news é muito grave no Brasil. É um problema que assola idosos, crianças e outras pessoas, e a OMS até indica que muitos dos problemas de saúde mental que estamos enfrentando no Brasil são causados por fake news. São problemas causados por fake news. A gente aqui no Brasil vive nesse país que tem tantas maravilhas.
O Brasil é campeão em notícias falsas?
O Brasil é campeão mundial em produção de fake news. Pior ainda, é campeão em número de pessoas que acreditam nas fake news. E isso requer o quê? Educação midiática. Requer o esforço de políticas públicas e o esforço da gente que está na seara do jornalismo para educar a população, levando o que se chama de educação midiática. Nós recebemos no Festival de Jornalismo uma das maiores autoridades brasileiras no combate às fake news, que é Patrícia Blanco.
Patrícia Blanco é presidente do Instituto Palavra Aberta. Patrícia Blanco é presidente do Conselho de Comunicação Social do Congresso Nacional e é a protagonista, no Brasil, da inserção desse debate no cotidiano da população há mais de uma década, nos anos de 2012, 2013 e 2014. Foi ela que bateu à porta do Tribunal Superior Eleitoral lá atrás, em 2013, para alertar sobre o perigo das fake news na interferência nas eleições.
O bom jornalismo exige então muita atenção para não cair em fakes…
Então, todo esse ambiente em que há muita possibilidade de a mentira prosperar é um ambiente em que nós temos que trabalhar com mais efetividade no jornalismo, na elaboração de políticas públicas, na regulação e responsabilização das redes sociais e no uso moderado das redes sociais pelos pais, que devem cuidar dos seus filhos na hora de colocar um celular em suas mãos. Por quê? Porque temos inúmeros estudos hoje que mostram que as fake news e as redes sociais, por meio de muitas ações de pessoas mal-intencionadas, criminosos digitais e bandidos, inclusive matam, além de causar danos horrorosos. O Brasil também ostenta a triste estatística de ser campeão mundial em golpes digitais. Isso tudo chama a atenção para a necessidade de programas de educação midiática que precisam ser implementados tanto na rede pública de ensino como nas escolas particulares, para que professores sejam capacitados para também orientar as famílias brasileiras e pessoas de todas as faixas etárias.
O escândalo do INSS é uma consequência de uma fake?
Sim, o golpe do INSS, que prejudicou tantos aposentados, nasce de uma hipossuficiência digital. E essa hipossuficiência digital acaba permeando o ambiente de várias brechas que levam às fake news. E o jornalismo é mundialmente reconhecido como remédio contra essas mentiras que circulam no ambiente digital, nos grupos de WhatsApp, e que causam tantos danos econômicos, sociais, de saúde e pessoais, além de levarem e provocarem suicídios e doenças mentais. Ou seja, é uma epidemia no combate à qual todos nós temos que nos unir para ajudar.
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