Por Roberto Freire
Escrevi as reflexões a seguir, originalmente em 2005, no calor dos debates parlamentares que culminaram na aprovação da Lei de Biossegurança no Brasil.
Mais de duas décadas depois, ao reler este artigo publicado na Revista FRADE, percebo que o cerne daquela discussão permanece espantosamente atual. As tecnologias mudaram — hoje debatemos Inteligência Artificial, edição genética por CRISPR e vacinas de RNA —, mas a resistência ideológica e o risco de o país perder o bonde da história continuam os mesmos. Olhar para o passado recente nos lembra que a liberdade científica não é uma conquista estática, mas uma vigília constante.
Confira na íntegra:
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Em algum lugar do campus da Universidade de São Paulo – USP há uma inscrição com os seguintes dizeres: “venceremos pela ciência”. Mesmo podendo ter sido influenciada pela cultura do positivismo, muito presente entre nós, brasileiros, a frase, entretanto, tem alguma relação com a derrota militar dos paulistas em 1932, quando a sua revolução foi abortada. E a frase simbolizou quase uma profecia: São Paulo, já forte economicamente na época, montou uma formidável estrutura de ensino e pesquisa e venceu, realmente, pela ciência.
Alimentar preconceito contra a ciência é apostar no atraso. Um país como o Brasil, que perdeu várias ondas ao longo da história, não pode nem brincar de ficar de fora da revolução tecno-científica, que começou com força nos idos de 70 com a informática e agora, com a biotecnologia, entra em uma fase ainda mais fantástica. Quem não estiver inserido na nova onda ficará de fora do futuro ou dele participará apenas como coadjuvante menor e subordinado às grandes potências.
A ciência não tem cor nem ideologia. Porém, no nosso caso, sempre militando e atuando em vertente socialista, podemos dizer com convicção: a ciência faz parte da tradição da esquerda. Esta sempre foi iluminista e causa espécie quando algumas lideranças e parlamentares, às vezes vestindo a camisa do meio-ambiente de forma equivocada, debatem-se contra algumas conquistas como os transgênicos e a expansão da fronteira representada pelas pesquisas com células-tronco.
A Câmara dos Deputados, recentemente, e ultrapassando a conservação integrada à direita e à esquerda, ajudou o Brasil a dar um novo grito de independência, aprovando projeto que permite o avanço das pesquisas na grande área da biotecnologia. A proposta, embora contenha ainda equívocos, coloca o Brasil na vanguarda dos países interessados em aprofundar descobertas que possam, em tempo não muito distante, enfrentar doenças que matam ou tiram a qualidade de vida de milhares de brasileiros.
Sabemos: a ciência não é neutra ou boa em si. Ela sempre será uma conquista do gênio humano, que também é responsável pela política. Que façamos uma grande política, humanista e direcionada à justiça, e deixemos livre o andar da ciência.
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