Por Silvino Teles Filho*
Imagine acordar todos os dias como se você não tivesse descansado nem por uma hora. Levantar da cama já exige esforço. O corpo inteiro dói, os músculos parecem pesados, as articulações estão rígidas e até um simples toque pode causar desconforto. Ao longo do dia, a fadiga aumenta, a concentração diminui e a sensação é de que seu próprio corpo trabalha contra você.
Essa é a realidade de milhares de pessoas que convivem com a fibromialgia.
Engana-se quem acredita que a fibromialgia causa apenas dores musculares. Ela é uma síndrome complexa que pode comprometer praticamente todos os aspectos da vida. A dor é difusa, persistente e pode migrar de um local para outro. Em muitos momentos, ela é acompanhada por uma sensação intensa de queimação, peso, pressão ou pontadas, tornando até as atividades mais simples um verdadeiro desafio.
Leia maisMas talvez o sintoma mais incapacitante seja a fadiga extrema. Não é um cansaço comum. É uma exaustão profunda que não melhora com o descanso e faz com que pequenas tarefas, como trabalhar, cuidar da casa ou brincar com os filhos, pareçam enormes obstáculos.
As noites também costumam ser difíceis. Mesmo dormindo várias horas, o sono frequentemente não é reparador. O paciente desperta cansado, sem energia e com a sensação de que o corpo não conseguiu se recuperar. Com o passar do tempo, esse ciclo de dor, insônia e fadiga torna-se cada vez mais intenso.
Além disso, muitos pacientes apresentam a chamada “névoa mental”: dificuldade para manter a atenção, lapsos de memória, lentidão de raciocínio e dificuldade para encontrar palavras durante uma conversa. Esses sintomas podem gerar insegurança, reduzir o desempenho profissional e afetar a autoestima.
Dores de cabeça frequentes, sensibilidade exagerada ao toque, ao frio, ao calor, aos ruídos ou às luzes, alterações intestinais, ansiedade, sintomas depressivos e crises de estresse também são comuns. É como se o organismo permanecesse em estado constante de alerta, amplificando os estímulos dolorosos.
Infelizmente, além do sofrimento físico, muitos pacientes ainda enfrentam outro tipo de dor: a incompreensão. Como os exames geralmente não mostram alterações importantes, é comum ouvirem frases como “isso é psicológico”, “você precisa reagir” ou “é exagero”. Essa falta de reconhecimento faz com que muitos se sintam sozinhos e desacreditados.
A fibromialgia é uma doença real. Ela merece atenção, acolhimento e tratamento adequado. O diagnóstico precoce e uma abordagem individualizada podem transformar a qualidade de vida. O tratamento pode envolver medicamentos, atividade física orientada, mudanças no estilo de vida, estratégias para melhorar o sono e o acompanhamento multiprofissional, sempre respeitando as necessidades de cada paciente.
Conviver com a dor não deve ser encarado como algo normal. O objetivo do tratamento não é apenas aliviar os sintomas, mas devolver autonomia, disposição e qualidade de vida para que o paciente volte a fazer aquilo que a dor o impediu de viver.
*Médico pós-graduado em Psiquiatria e Neurologia Clínica | Instagram: @drsilvinoteles
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