Por Cláudio Soares*
A declaração de Paulo Figueiredo é grave. Segundo ele, um aliado próximo de Flávio Bolsonaro estaria repassando ao Supremo Tribunal Federal informações sobre os passos do senador. Figueiredo afirma saber quem seria essa pessoa, mas, até agora, não apresentou publicamente o nome nem provas que permitam verificar a acusação.
E é justamente aí que começa o problema.
Se existe prova objetiva de que alguém do círculo de Flávio Bolsonaro estava fornecendo informações ao STF, que se apresente o nome, os fatos e as evidências. O que não se pode fazer é lançar uma acusação no ar e deixar dezenas de pessoas sob suspeita.
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Porque, quando não há nome, abre-se espaço para a especulação. E começam a surgir, nas redes sociais e nos bastidores, nomes de políticos como Tarcísio de Freitas, Cleitinho, Ricardo Nunes, Ronaldo Caiado e Nikolas Ferreira. Não há, até o momento, prova pública de que qualquer um deles seja o suposto informante mencionado por Figueiredo. Transformar especulação em acusação seria irresponsável.
Mas a declaração revela algo politicamente muito mais profundo. A dificuldade do bolsonarismo em conviver com aliados que desenvolvem trajetória própria é algo estarrecedor.
Há precedentes que alimentam essa crítica. Gustavo Bebianno, ex-ministro e antigo aliado de Jair Bolsonaro, rompeu com o presidente e morreu em 2020, aos 56 anos, em sua casa, em Teresópolis -, morte cuja circunstância gerou especulações, embora não exista prova de relação com o rompimento político. Joice Hasselmann, deputada federal que rompeu publicamente com Bolsonaro, quis disputar o Senado por São Paulo em 2022 e foi preterida. E, em Santa Catarina, a entrada de Carlos Bolsonaro na disputa pelo Senado, impulsionada pelo próprio Jair Bolsonaro, atropelou a articulação que envolvia o aliado histórico Esperidião Amin.
São episódios diferentes e não devem ser artificialmente colocados no mesmo saco. Mas ajudam a explicar uma percepção política que vem crescendo. No entorno do clã Bolsonaro, a lealdade parece ter prazo de validade quando entra em conflito com os interesses da família.
E agora aparece uma pergunta ainda mais incômoda. O bolsonarismo quer realmente construir uma direita ampla ou pretende manter sob controle absoluto a liderança da direita brasileira?
Uma direita democrática deveria ser capaz de produzir novas lideranças, aceitar divergências, discutir projetos e permitir que diferentes nomes disputassem legitimamente a Presidência da República.
O problema começa quando todo aliado que pensa diferente passa a ser tratado como traidor. Essa lógica destrói pontes, produz ressentimentos e transforma divergência política em guerra pessoal.
Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Nikolas Ferreira, Cleitinho e outros nomes que ganharam projeção nacional não precisam ser adversários dos Bolsonaro. Podem ser aliados, concorrentes ou simplesmente integrantes de uma direita plural.
Mas ninguém deveria precisar pedir autorização à família Bolsonaro para existir politicamente. A direita brasileira não pertence aos Bolsonaro. Nem aos seus filhos. Nem a nenhum outro grupo familiar.
Pertence aos milhões de brasileiros que se identificam com suas ideias. Se existe um “traidor” no caso denunciado por Paulo Figueiredo, que se apresente o nome. Se existem documentos, mensagens ou provas, que sejam colocados sobre a mesa.
O que não é aceitável é transformar suspeita em sentença e aliados em alvos. Porque acusação sem prova não é jornalismo. É especulação.
E há uma ironia nisso tudo. Um movimento político que reclama constantemente de perseguição não deveria reproduzir dentro da própria direita a lógica da suspeita permanente.
Se a família Bolsonaro quiser continuar sendo protagonista da direita brasileira, terá de compreender uma regra elementar da democracia, aliado não é propriedade, divergência não é traição e liderança política não é herança familiar.
Caso contrário, o maior adversário do bolsonarismo poderá continuar sendo aquilo que ele próprio criou, a incapacidade de conviver com quem um dia esteve ao seu lado, mas decidiu caminhar com as próprias pernas.
*Advogado e jornalista
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