Enquanto a Justiça Eleitoral se prepara para enfrentar desafios como inteligência artificial, deepfakes, fake news e o crescimento de influenciadores digitais na política, especialistas alertam para um problema antigo que continua influenciando diretamente o resultado das eleições: o uso político de investigações, operações policiais e decisões judiciais contra candidatos em plena campanha.
A discussão volta ao centro do debate em 2026, ano em que cresce a preocupação com o equilíbrio da disputa eleitoral e com o impacto que ações do Estado podem ter sobre a imagem pública de candidatos.
Leia maisPara o advogado Rafael Carneiro, especialista em Direito Público e sócio do Carneiros Advogados, o debate atual acabou concentrando atenção apenas nas novas tecnologias, enquanto outros riscos seguem pouco discutidos.
“Todo mundo está olhando para inteligência artificial, deepfakes, fake news e influenciadores digitais, o que é importante. Mas existem problemas antigos que continuam tendo enorme potencial de interferir nas eleições e sobre os quais pouco se fala”, afirma.
Segundo ele, um dos principais pontos de atenção envolve o uso indevido da estrutura estatal durante campanhas eleitorais. “Quando um governador disputa a reeleição, por exemplo, existe uma preocupação sobre o uso político de estruturas do Estado contra adversários. A Polícia Civil, a Polícia Militar e outros órgãos deveriam atuar com total neutralidade, mas há casos em que investigações e operações acabam tendo impacto direto na eleição”, diz.
O advogado cita como exemplo o caso do ex-governador do Paraná, que foi alvo de operações policiais durante a campanha de 2018. Na época, ele chegou a ser preso e sofreu buscas e apreensões em meio à disputa eleitoral. Anos depois, parte das acusações perdeu força na Justiça, mas o desgaste político já havia ocorrido.
“Esse foi um caso emblemático. Ele sofreu busca e apreensão, foi preso, e depois não havia nada contra ele. Mas acabou perdendo a eleição”, afirma Carneiro.
O advogado também relembra um caso ocorrido em Alagoas nas eleições de 2022, quando um candidato foi afastado do cargo entre o primeiro e o segundo turno por causa de uma investigação criminal que depois acabou sendo suspensa pela Justiça.
“Essas medidas geram uma exposição negativa muito forte. Mesmo que depois a investigação seja anulada ou o processo seja trancado, o dano político muitas vezes já aconteceu”, avalia.
Segundo Rafael Carneiro, esse tipo de situação levanta uma discussão importante sobre igualdade na disputa eleitoral. “A preocupação é garantir que todos os candidatos disputem em condições equilibradas, sem que investigações ou ações do Estado sejam usadas de maneira indevida para influenciar o eleitor”, explica.
O tema já chegou ao Supremo Tribunal Federal, que atualmente discute casos relacionados aos limites da atuação estatal em períodos eleitorais e ao impacto de medidas judiciais durante campanhas.
Por fim, o especialista analisa que as eleições de 2026 devem ampliar esse debate porque o país vive um momento de forte polarização política e de crescimento da influência das redes sociais sobre a opinião pública. “Os desafios modernos são reais e precisam ser enfrentados. Mas os desafios antigos também continuam vivos e ainda têm capacidade de interferir diretamente no resultado das eleições”, conclui.
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