Kiliç salvou o homem que anos depois acabaria com o que definira como excessos e abusos do Judiciário. Erdoğan e Abdullah Gül eram grandes parceiros no islamismo político turco. Enquanto o primeiro desempenhava o papel de grande tribuno com sua voz rouca e o sotaque da periferia de Istambul, populista e carismático, Gül era o oposto. Sofisticado, calculista, poliglota, um sujeito cosmopolita. Ambos começaram na política pelo Partido do Bem-Estar Islâmico, fechado pela Justiça em 1988. Fundaram outro partido, também cassado, e acabaram por criar o AKP.
E por que tanta dificuldade? Mustafá Kermal Ataturk, fundador da Turquia moderna, disseminou o secularismo, apartando Estado e religião, e os políticos islamitas foram durante décadas vistos como símbolo do atraso, porque teimavam em misturar política com religião.
Nas eleições de novembro de 2002, o AKP venceu com 34% dos votos, mas Erdoğan foi impedido de assumir, porque, em 1998, fora condenado por incitamento ao ódio religioso. Seu crime: recitar um poema no palanque. Gül assumiu como primeiro-ministro interino. Em março de 2003, a inelegibilidade de Erdoğan acabou derrubada pelo Parlamento. No dia em que tomou posse como premier, Gül foi nomeado ministro das Relações Exteriores.
Em 2007, chegou a hora de eleger um novo presidente da República. Na Turquia parlamentarista de então, o chefe de Estado era escolhido pelo Congresso, indicado pelo líder do partido vencedor. Erdoğan escolheu Abdullah Gül, seu parceiro de décadas.
A oposição entrou em pânico. Gül era muçulmano, sua mulher usava hijab, o tradicional véu islâmico, e seria a primeira-dama. Para os herdeiros de Ataturk, era inaceitável aquele símbolo do Islã ocupar o Palácio Presidencial.
O Partido Republicano do Povo, CHP, decidiu radicalizar: boicotou a votação e levou o caso à Suprema Corte, alegando ser a sessão inválida por falta de quórum. O AKP entendia que bastava 1/3 dos deputados presentes, mas o CHP insistia serem necessários ⅔, ou 367 dos 550 parlamentares, para abrir a votação e não só para eleger.
Na primeira rodada, compareceram 361 deputados. Gül obteve 357 votos. O Tribunal anulou tudo. Ficou evidente que a decisão era política e que a elite jurídica da Turquia não aceitava o resultado das urnas. Erdoğan usou seus poderes de primeiro-ministro e convocou eleições antecipadas. Ganhou com 46% dos votos e voltou ao Parlamento com mandato renovado. Gül foi eleito presidente em agosto de 2007.
Em março de 2008, o procurador-geral Abdurrahman Yalçınkaya apresentou ao Tribunal Constitucional um pedido de fechamento do AKP por “atividades antissecularistas”. A acusação citava 61 discursos de Erdoğan e 10 de Gül de quando ainda era ministro, além de outros. Os 71 líderes do partido foram encurralados e enfrentavam o risco de banimento da política por 5 anos.
Até que, naquela fatídica 4ª feira, 30 de julho, a Corte decidiu, por 1 voto, manter vivos o AKP e Erdoğan. Mas a sentença veio envenenada: 10 dos 11 juízes concordaram ter o partido se transformado “num centro de atividades antissecularistas”. Ou seja: numa trincheira política do Islã. Com isso, o AKP perdeu metade do financiamento público, coisa de US$ 20 milhões. Erdoğan, quieto, fez seu recuo estratégico.
Passados 8 anos, na noite de 15 de julho de 2016, tanques bloquearam pontes em Istambul. Helicópteros militares sobrevoaram Ancara. Uma facção das Forças Armadas tentou derrubar Erdoğan. Ele apareceu na televisão pelo celular, via FaceTime, convocando os cidadãos às ruas. A tentativa de golpe de Estado foi sufocada em horas. Era o momento de dar o troco.
Na madrugada seguinte, 2.745 juízes e promotores foram presos ou suspensos. Nas semanas e meses seguintes, cerca de 4.000 integrantes do Judiciário foram demitidos por decreto de emergência, sem processo individual, sem direito de defesa, com o simples argumento de serem simpatizantes do golpe. No total, mais de 130 mil funcionários públicos foram afastados em todos os setores do poder público.
Em 2025, a imprensa descobriu que muitas das demissões foram baseadas não em provas, mas num algoritmo batizado de Fetômetro, programado para cruzar dados de comportamento e identificar supostos simpatizantes do golpe. O sistema mirava críticos do governo indiscriminadamente.
A crise no Judiciário turco provocou um estrago insolúvel, causado pela militância que contaminou a magistratura. Juízes usaram e abusaram do texto constitucional para barrar governos eleitos, anulando a eleição presidencial, quase fecharam o partido vencedor de 3 eleições consecutivas, além de derrubarem emendas aprovadas por larga maioria permitindo o véu islâmico nas universidades. O Judiciário abraçou a ideologia derrotada nas urnas e pagou caro.
Erdoğan impôs a reforma do Judiciário, agora vassalo do Executivo. Ele nomeia, promove e pune os juízes, controlando o que eles decidem. A lição da guerra entre Erdoğan e os juízes pode ser traduzida na simplicidade terrivelmente realista do ex-deputado mineiro Fabinho Liderança explicando o impeachment de Dilma: “Eles levaram a vaca e não deram nem um dedal de leite pra nós. Agora nós fomos lá e tomamos a vaca deles, uai”.
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