Por Marlos Porto*
São 05h37min do dia 10/06/2026. Acordei-me por volta de 5h, de 5h15min me levantei. Fui ao hall do prédio com o notebook, o celular e um livro, mas as muriçocas não me deixaram escrever nada e a tênue luz não me permitia ler. Voltei.
Estou aqui na cama, sentado, digitando.
Daqui da minha cama consigo divisar o mar. Na verdade, o oceano. o Oceano Atlântico, o oceano do gigante que carregava o mundo em seus ombros. E às vezes sinto um pouco essa pressão, como se estivesse com o mundo nas costas. Como se tivesse que cuidar das dores do mundo todo. Como se eu tivesse de ser exemplo para o mundo inteiro. Como se nenhuma falha minha fosse escusável, em virtude desse propósito.
Leia maisMas ninguém cobra isso de mim, nem me enxergam com esse fardo. Pior, talvez zombem até, se lhes relatar esse sentimento.
Ademais, minhas obrigações mais diretas, comigo mesmo, com minha saúde, alimentação, rotinas e estudos, e também com minha família, casa e finanças, por vezes são colocadas em segundo plano. Reluto em dizer que são negligenciadas; nos aspectos mais importantes, sei que não são. Mas em certos detalhes, aqui e ali, forçoso é reconhecer que talvez o sejam.
Essa reflexão eu tenho hoje, aos 45 anos, de forma muito pungente.
Tive um sonho mais cedo, no qual uma psicóloga me aconselhava a ter uma neuropsicóloga para me acompanhar em tempo integral, como uma assistente. Ela estava no colégio do meu filho e depois desse conselho, eu saía e via uma mesa na área em que os pais buscam os filhos. Nessa mesa havia muita bagunça, muito material escolar misturado com brinquedos das outras crianças. Então eu pedia para meu filho organizar, ver se ele tinha esquecido algo dele, e eu mesmo ia tentar arrumar, meio irritado. Mas já estávamos de saída. Mesmo assim, eu voltei para fazer isso. Depois então eu acordei.
Realmente, muitas vezes na vida eu fico tentando organizar coisas que estão fora do meu alcance, preocupando-me com problemas cuja resolução não se encontra sob minha alçada. A minha esfera de atuação não engloba a punição ou reparação diante do genocídio cometido em Gaza, a solução para a crise entre EUA e Irã ou o esclarecimento dos problemas da nossa confusa e suja política interna.
Verdade que posso escrever um artigo e publicar no Instagram ou em algum blog, como o Blog do Magno, que gentilmente costuma abrir espaço para meus textos. Mas me pergunto com frequência se não é muito desgaste para pouco resultado visível. Sem falar que a minha vida, minha família e minha casa reclamam a minha presença ativa, e as ações que posso fazer nesses âmbitos, embora simples, muitas vezes são de grande relevo. Sem falar que muitas não são delegáveis, transferíveis ou dispensáveis.
Defronte ao gigante, o oceano, lembro dos “Quatro Gigantes da Alma”, descritos pelo médico e psiquiatra cubano Emilio Mira y López em seu livro. Tratadas pelo autor como forças fundamentais, são elas: o Medo, a Ira, o Amor e o Dever. Embora o autor didaticamente pontue as duas primeiras como sendo de uma polaridade negativa e as duas últimas como positivas, ressalta que qualquer uma delas, sobrepondo-se excessivamente às demais, pode ser prejudicial ao indivíduo. De fato, o amor em excesso, deslocado do senso de dever, pode se transformar em possessividade egoísta, enquanto o dever, desprovido do amor, pode se resumir à lógica mecanicista implacável de uma sociedade complexa que parece ter se desconectado de seus verdadeiros propósitos.
Após duas décadas de serviço público, tive uma crise de “burnout” – esgotamento – reconhecido pelo médico do próprio órgão, em 2023. Passados mais de dois anos de licenças médicas, fui aposentado por incapacidade permanente para o trabalho. A ironia mais gritante: meses antes, submeti-me a uma avaliação neuropsicológica que constatou superdotação intelectual, mas o órgão sequer me deu a oportunidade de readaptação. Tampouco reconheceu a natureza profissional da moléstia, o que me permitiria receber proventos integrais.
Diante da frieza da “burrocracia” estatal, tomada em sentido amplo, o Medo e a Ira ensaiaram domínio sobre mim. No entanto, ao olhar novamente para o Atlântico nesta manhã, percebo que a suposta invalidez decretada por um sistema doente pode ser, paradoxalmente, a minha libertação. Se o mundo não me deu a readaptação funcional, a vida me impõe uma readaptação existencial, na qual o Amor e o Dever, ressignificados e em equilíbrio, não sejam meras marionetes que entram ou saem de cena conforme os caprichos do destino. Uma existência na qual a escrita possa ter o seu lugar, sem pretensões ou apegos a resultados, mas como expressão genuína de um ser que não abdica da busca por um propósito maior.
*Ensaísta
Leia menos



















