Por Fernando Rêgo Barros *
Vai começar mais uma Copa do Mundo. Desde criança, sou apaixonado pelos Mundiais de futebol. Assisto a todos os jogos que posso. Não só aos do Brasil. Sempre liguei a TV até mesmo para ver em campo seleções mais fracas. Só para dar um exemplo, na Copa de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, tínhamos jogos às 3 da manhã. Eu colocava o despertador para tocar às 2h50 para não perder nada. Mas, nesta Copa de 2026, amigos, a Fifa resolveu testar a minha paixão com essa história de fazer “a maior Copa de todos os tempos”.
Ampliar de 32 para 48 os países classificados para a competição foi, a meu ver, um desatino. Claro que a entidade máxima do futebol há muito só pensa no lucro e não no espetáculo. E daí que estamos para dar início a uma Copa do Mundo com seleções do nível de Haiti, Curaçao, Panamá, Catar, Cabo Verde e Uzbequistão. Nada contra esses países. Mas que eles tivessem conseguido a vaga por merecimento e não porque a Fifa resolveu alargar tanto o Mundial.
Leia maisPara se ter uma ideia da queda da qualidade da Copa, basta lembrar que a América do Sul, com apenas dez países filiados à Fifa, teve 6 vagas diretas e ainda podia ter mais um país classificado na repescagem. Isso só não aconteceu porque a Bolívia conseguiu perder, pasmem, para a fortíssima seleção do Iraque.
Com a ampliação, o Mundial terá 40 jogos a mais (eram 64 e agora serão 104 partidas). É jogo demais até para os loucos por Copa do Mundo, como eu. Acho que, com essa quantidade de jogos, a Fifa vai acabar por conseguir fazer com que muita gente só se interesse mesmo em seguir os jogos da Copa a partir da segunda fase, com a exceção de algumas poucas partidas da fase de grupos que ainda valem a pena. É o que já ocorre, por exemplo, com a Liga dos Campeões da Europa, em que muitos só passam a acompanhar a partir das oitavas de final.
A FIFA NÃO DIZ NADA – Além do excesso de jogos, também quero pontuar o modo condescendente da Fifa com o governo dos Estados Unidos na organização desta Copa. Em 2014, quando o Brasil sediou o Mundial, os dirigentes da Fifa faziam mil exigências e todas tinham de ser atendidas à risca. Até a venda de bebidas alcoólicas, que já era proibida nos estádios brasileiros, voltou a ser permitida. Agora, temos visto as autoridades americanas impondo uma série de restrições aos atletas de outros países, notadamente à delegação do Irã, não por acaso o país que tem um conflito em andamento com os Estados Unidos.
O Irã, que na fase de grupos fará dois jogos em Los Angeles e um em Seattle, foi obrigado a se hospedar no México e só teve autorização para entrar nos Estados Unidos 36 horas antes das partidas. Outra situação absurda ocorreu com o árbitro Omar Artan, da Somália, considerado um dos melhores árbitros africanos. No último sábado, depois de interrogado por quase onze horas, ele teve a entrada negada pela imigração dos Estados Unidos. O que a Fifa fez diante dessas situações? Absolutamente nada. Nem sequer uma nota de repúdio.
O presidente da Fifa, Gianni Infantino, tem adotado um comportamento de quase submissão ao governo do presidente Donald Trump. E nunca iremos esquecer que, cúmulo da bajulação, Infantino fez a Fifa criar um prêmio da Paz para ser concedido a Trump na cerimônia do sorteio dos grupos da Copa, em dezembro do ano passado. A gentileza serviu quase como um prêmio de consolação para quem queria e não conseguiu ganhar o Nobel da Paz.
É isso. Apesar de todos os absurdos, ainda torço para que o bom futebol se imponha e supere esses despropósitos a que temos assistido. Vou torcer pelo Brasil e quero ver esta Copa pelas boas seleções que estarão presentes, pelos craques que estão se despedindo dos gramados e porque acredito que a Copa do Mundo ainda pode oferecer o melhor do futebol mundial. Ainda espero ver boas exibições individuais ou coletivas. Daquelas que nos fazem amar o futebol e nos maravilharmos com dribles, passes e gols de um Messi, um Cristiano Ronaldo, um Mbappé, um Vini Júnior (ou até um Neymar, vai!). Que venha a Copa!
*Jornalista
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