Por Rinaldo Remígio
Num país de dimensões continentais, múltiplas realidades e uma história marcada por lutas democráticas, torna-se cada vez mais inquietante observar que, em períodos eleitorais, o debate político frequentemente cede espaço à hostilidade, à radicalização e ao medo.
Não é preciso ser cientista político, analista ou estudioso das estruturas de poder para perceber o cenário: basta ao cidadão comum abrir os olhos, ouvir os discursos, acompanhar as redes sociais ou observar o comportamento de determinadas lideranças. O que se vê, muitas vezes, não é a defesa equilibrada de projetos para o futuro, mas uma retórica alimentada por antagonismos, acusações mútuas e narrativas que insistem em tratar adversários como inimigos irreconciliáveis.
Os extremos, sejam de qualquer vertente ideológica, parecem encontrar força não necessariamente na construção de soluções, mas na exploração do receio popular. De um lado, sustenta-se a ideia de que a volta de determinado grupo representaria retrocesso absoluto; de outro, propaga-se o temor de que a permanência do oponente consolidaria fracassos irreversíveis. O eleitor, então, muitas vezes, é conduzido não pela esperança, mas pelo medo.
Leia maisEssa lógica é perigosa.
A democracia não se fortalece quando a alternância de poder é tratada como tragédia, nem quando o processo eleitoral é transformado em campo de guerra emocional. Pelo contrário: o regime democrático se sustenta justamente na convivência entre diferenças, na liberdade de escolha e na capacidade institucional de garantir que governos passem, ideias sejam debatidas e a nação permaneça.
Quando líderes elevam constantemente o tom, reforçando divisões e estimulando paixões extremadas, o país perde. Perde estabilidade, perde maturidade institucional e, sobretudo, perde a capacidade de unir esforços em torno de problemas reais que afligem a população — fome, desigualdade, segurança, educação, saúde e geração de oportunidades.
A verdadeira grandeza política não reside em aprofundar rachaduras sociais, mas em construir pontes.
O Brasil precisa, urgentemente, reencontrar o equilíbrio. Precisa compreender que discordar faz parte da democracia, mas demonizar o outro corrói suas bases. Precisa recordar que governantes são transitórios, mas a nação é permanente.
Às vésperas de novas eleições, o maior desafio talvez não seja apenas escolher representantes, mas preservar a serenidade coletiva diante de discursos inflamados. O país necessita de líderes que inspirem confiança, responsabilidade e pacificação — não de figuras que prosperem na divisão.
A democracia brasileira continuará sendo testada. E sua força não dependerá apenas de urnas ou pesquisas, mas da capacidade de seu povo compreender que nenhuma ideologia, quando tomada pelo extremismo, serve plenamente ao interesse nacional.
No fim, uma nação verdadeiramente forte não é aquela em que todos pensam igual, mas aquela onde diferentes pensamentos coexistem sem destruir o sentimento de pertencimento comum.
O Brasil precisa menos de guerra política e mais de compromisso com sua própria reconstrução institucional, moral e social.
Porque nenhum projeto de poder pode ser maior que o próprio país.
*Professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em economia
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