Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
O imortal Odylo Costa, filho (ele assinava assim mesmo, com vírgula) publicou durante anos a fio suas crônicas numa coluna chamada Distrito da Confusão. Odylo, sujeito genial, cérebro por trás da reforma gráfica e editorial do Jornal do Brasil nos anos 1960, marco do jornalismo brasileiro. O Distrito da Confusão renasceu pelas mãos do seu filho Pedro, amigo querido, que as republica no seu site.
Odylo ia se deleitar com as eleições deste ano. Aqui temos o distritão da confusão, cada vez mais incontrolável. Como se não bastasse os rolos internos, com as investigações do Banco Master respingando a torto e a direito em todo mundo, igualzinho nos tempos da finada Lava Jato, temos também as confusões externas. Tudo embrulhado numa mistura de mentiras, meias verdades e inverdades, a ponto de fazer qualquer campanha de desinformação virar brincadeira de criança.
Leia maisO Brasil vai ficando cercado por governos de direita, conforme já havia dito faz tempo neste artigo de 2025. Previsões e interpretações da realidade normalmente não são bem recebidas no Brasil, porque as pessoas preferem acreditar na sua própria realidade do que na vida como ela é. Chile, Argentina, Peru, Bolívia e Equador já mudaram de lado. A Venezuela virou um protetorado de Trump, Cuba respira por aparelhos e a Colômbia deve eleger neste domingo (21) Abelardo de La Espriella (Movimento de Salvação Nacional, extrema direita), derrotando o candidato governista Ivan Cepeda (Pacto Histórico, esquerda), conforme indicam todas as últimas pesquisas.
Vai sobrar Nicarágua e México.
A confirmação da vitória de La Espriella será o funeral do Foro de São Paulo, movimento criado por Lula e Fidel Castro no fim do século passado, o qual atingiu seu objetivo de promover hegemonia da esquerda na América Latina, consumindo montanhas de dinheiro público, especialmente dos brasileiros pagadores de impostos com empréstimos do BNDES para metrôs, estradas, portos, hidroelétricas e “otras cositas más” aos países amigos.
Espirella, igualito ao presidente equatoriano Daniel Noboa, é uma espécie de Nayib Bukele de El Salvador. Todos afinados com o trumpismo, que pressiona Nicolás Maduro para uma delação ampla, geral e irrestrita. Mais dia menos dia ela virá. O ex-chefe do serviço secreto do chavismo, Hugo Carvajal, já está cantando faz tempo e entregou nomes, endereços, prefixos de aeronaves, valores e contas para os investigadores norte-americanos.
Lula bradou em alto e bom som alertando Trump para não se meter na eleição brasileira, embora em 2024 tenha chamado o então candidato republicano de fascista e pregado o voto na democrata Kamala Harris. Se isso não é se meter…
No encontro do G7 na França, Trump ofereceu a Lula seu mais absoluto desprezo. O presidente brasileiro se agarrou com o presidente francês Emmanuel Macron, o “muy amigo” que tentou melar o acordo Mercosul-União Europeia, ajudou no boicote à carne brasileira a partir de setembro e, apesar de tudo, deve ganhar como prêmio a compra bilionária de equipamentos militares franceses para nossas Forças Armadas. Macron, dono de charme irresistível, encanta Lula e exibe uma costa quente de peso chamada Rothschild, o banco dos bancos.
Temos uma campanha da eleição da confusão, com a Polícia Federal investigando políticos, banqueiros, gente do mercado financeiro e do mercado de combustíveis, inquéritos desenfreados, ministros se estranhando no Supremo e ainda não tivemos convenções e nem campanha no rádio e na TV. Ao mesmo tempo, o crime organizado, as facções agora consideradas terroristas, seguem mandando e desmandando Brasil afora com fuzis, metralhadoras e drogas, mas também internet, gatonets, fintechs, imobiliárias, transportadoras e muito mais. É um balaio só? Ou serão vários balaios?
Se Lula ganhar, como até aqui indicam as pesquisas, o Brasil será uma ilha esquerdista num mar de governos de direita. Mas, pensando bem, nem tanto, porque o presidente confessou nunca ter sido esquerdista e que se considera um político de centro, durante um bate papo na reunião do G7 com o chanceler alemão Friedrich Merz (União Democrata Cristã, direita) e a presidente do FMI, Kristalina Georgieva. Merz achou graça.
Os informes enviados da embaixada germânica em Brasília contradizem Lula. Mas como o homem se descobriu um moderado centrista aos 80 anos, isso pode ser evolução, muito mais do que conversa de ocasião.
Ainda teremos mais confusões pela frente. O nó de Minas Gerais, que o PT não consegue desatar. Lula não tem palanque no estado que costuma definir eleições desde a redemocratização. A Bahia está derretendo com ACM Neto crescendo nas pesquisas e a turma do senador Jaques Wagner e do ministro Rui Costa emparedada pelas investigações da Polícia Federal.
Quem imaginava que na Bahia o troféu de campeão da corrupção pertencia ao ex-deputado Geddel Vieira Lima, aquele dos R$ 50 milhões em dinheiro vivo guardados dentro de um apartamento, agora já tem dúvidas se ele continua reinando. Principalmente depois que Wagner contou que não ganhou de Augusto Lima, ex-sócio do Master, um apartamento de R$ 2,45 milhões. Ele só queria comprar o imóvel para a filha, mas antes tinha de vender outro apartamento. Para não perder o negócio, pediu que Lima fizesse a gentileza de comprar o tal apartamento. Assim que vendesse o outro, compraria do próprio Augusto Lima o apartamento dos sonhos da filha.
Depois de uma explicação destas, bateu uma saudade enorme da velhinha de Taubaté, a única brasileira que ainda acreditava no governo, personagem do genial Luiz Fernando Veríssimo.
Na crônica publicada no Diário de Notícias em 10 de setembro de 1943, Odylo fala sobre um tal Distrito da Confusão, que ficava em Minas Gerais. Ali ocorreu algo incrível: o desaparecimento das folhinhas, como antigamente chamavam os calendários. Isso gerou baita desorientação. Ao mostrar nossos tempos modernos naquela crônica de 83 anos atrás, revela estar o pecado da mentira, previsto no 8º mandamento, habitando o cerne da confusão geral, a ponto de as pessoas deixarem de acreditar nas obviedades do dia a dia, especialmente as inscritas no calendário.
“Pois diariamente vejo gente que conheço afirmar que sexta-feira é quinta, que o dia 10 de setembro de 1943 é anterior a — como direi? — a 14 de julho de 1789…” Odylo arremata com uma prece, pedindo a Deus que o guie e acompanhe para que nunca falte com a verdade. Amém.
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