Por Claudemir Gomes
E o 5 de julho jamais será esquecido. Agora tenho certeza de que o raio cai no mesmo lugar mais de uma vez. Há 44 anos, junto com o saudoso jornalista, Fernando Menezes, ficamos perdidos na noite de Barcelona após testemunhar a “Tragédia do Sarriá”, quando a favoritíssima seleção comandada por Telê Santana encantou o mundo e parecia insustentável na busca do tetracampeonato, foi derrotada (3×2) pela Itália, sob a regência do verdugo Paulo Rossi. Ontem, foi a vez do viking que atende pelo nome de Haaland comandar a incontestável vitória (2×1) da Noruega, que foi superior ao time do Mister Ancelotti durante todo o jogo.
Apesar da notícia de que havia a ameaça de uma tempestade em Nova Jersey, local do jogo, não dei bola pro azar. Vesti a camisa amarela e saí por aí. Mesmo ressabiado com o 5 de julho, cheguei a entrar na onda da maioria dos torcedores. Lembrei do samba do João Nogueira e cantei: “Esse mar é meu, leva seu barco pra lá desse mar…”. Era a forma de mandar um recado para a torcida norueguesa que encanta o mundo da bola com suas remadas.
Leia maisMinutos antes de começar o jogo alguém pergunta qual o palpite para o “bolo”. Não sei por que, mas lembrei da triste história que vivenciei em Barcelona, no dia 5 de julho. Meu palpite escandalizou a todos na sala: Noruega 1×0. Não estava torcendo contra, mas faltava confiança nos comandados de Ancelotti, embora reconheça que houve uma evolução no trabalho realizado pelo Mister.
A Noruega tinha o domínio do jogo, mas num contra-ataque, pênalti a favor do Brasil. Ora, se nós tínhamos o Vini Jr. na briga pela artilharia da Copa, o mais sensato seria ele ir bater o pênalti. O goleiro Nyland fez uma defesa espetacular num aviso de que seria um dos destaques da memorável vitória que começava a ser escrita a partir daquela sua façanha.
Ricardo Medeiros, com sua memória de elefante, faz uma triste observação: “Foi igual ao pênalti que Zico perdeu naquele jogo com a França, em 86”. Verdade. Pior é que também testemunhei, no estádio Jalisco, em Guadalajara, aquela eliminação para a França, nas quartas-de-final. No tempo normal, empate de 1×1 com a França levando a melhor na decisão por pênaltis.
No intervalo do jogo, o experiente narrador Galvão Bueno convocou a Banda Olodum como se fosse um amuleto da sorte. Pensei cá com meus botões: agora vai! E a Noruega retornou para a etapa complementar ocupando melhor os espaços, com mais acerto de passes. O goleiro Nyland brilhava com defesas espetaculares. Alisson respondia a altura. Cheguei a pensar numa prorrogação, mas os nórdicos tinham Haaland, o grandalhão que a defesa brasileira não conseguiu parar. Neymar, com um viés de molecagem, marcou o gol brasileiro numa cobrança de pênalti.
A noite foi dolorosa, tal como aquela em Barcelona, há 44 anos. A diferença é que, dessa vez, fiquei perdido apenas nos pensamentos.
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