Uma longa reportagem exibida pela TV Record, no programa Domingo Espetacular de hoje (25), trouxe à tona um conjunto de denúncias de extrema gravidade envolvendo a atuação da Polícia Civil de Pernambuco durante a gestão da governadora Raquel Lyra. O material apresentado reúne documentos internos, trocas de mensagens entre policiais, além de depoimentos públicos e sob sigilo que apontam para o provável uso político da estrutura policial, perseguição a servidores que se recusaram a cumprir ordens consideradas ilegais e práticas de arapongagem, consolidando a presença de uma “polícia paralela” contra adversários políticos do governo estadual, em um contexto diretamente relacionado à disputa eleitoral.
A reportagem destaca que entre os principais alvos das ações denunciadas está o prefeito do Recife e presidente nacional do PSB, João Campos, líder com ampla vantagem em todas as pesquisas de intenção de voto sobre a corrida eleitoral em Pernambuco. O fato de o prefeito aparecer indiretamente em duas das denúncias, segundo a TV Record, reforça a suspeita de que investigações e operações teriam sido direcionadas não por critérios técnicos ou jurídicos, mas por interesses políticos, especialmente em um cenário pré-eleitoral.
Entre os episódios mais sensíveis revelados está a divulgação de trocas de ofícios internos da Polícia Civil. Em um dos documentos exibidos na reportagem, um delegado determina a continuidade de uma investigação mesmo após o arquivamento formal do caso por outro delegado responsável pelas investigações — por ausência de provas e vestígios de crime, no episódio envolvendo creches do Recife. De acordo com a emissora, o texto do ofício menciona a relevância eleitoral da apuração, o que levanta fortes suspeitas de desvio de finalidade e de violação dos princípios da legalidade, da impessoalidade e da imparcialidade que regem a atuação policial.
Na esteira de uma provável atuação policial ilegal contra o prefeito João Campos, a reportagem envolve a divulgação de prints de conversas em um grupo de WhatsApp formado por policiais civis, caracterizado como “Nova Missão”. Segundo a TV Record, as mensagens indicam a organização de ações de monitoramento contra o secretário de Articulação Política e Social da Prefeitura do Recife, Gustavo Monteiro. Em um dos prints exibidos, os policiais se referem ao secretário como “o alvo”, acompanhando a mensagem com uma fotografia dele, o que, segundo a reportagem, evidencia o caráter direcionado da ação. Em outra troca de mensagens, os participantes afirmam que era utilizado o clearview, sistema de reconhecimento facial de uso restrito da alta cúpula da polícia.
As conversas também apontam indícios de vigilância e possível rastreamento ilegal de Eduardo Monteiro, servidor da Prefeitura do Recife e irmão do secretário. De acordo com a reportagem, ele teria sido seguido por policiais civis e teve um rastreador instalado no carro oficial que utilizava. Em nenhum momento das mensagens aparece referência à existência de crime investigado, decisão judicial, autorização legal ou abertura formal de inquérito que justificasse a ação, o que levanta suspeitas de abuso de autoridade e prática de vigilância estatal à margem da lei. A própria Polícia Civil de Pernambuco confirma que não foi aberto um procedimento formal, o que contraria a legislação.
Diretoria de Inteligência – A gravidade das denúncias é ampliada pelo depoimento, mantido sob sigilo, de um agente da Polícia Civil que confirmou à reportagem as ações de monitoramento descritas. O policial relatou que as atividades eram realizadas sem respaldo formal e que havia um clima de pressão interna para o cumprimento das ordens, o que reforça a suspeita de que não se trataria de episódios isolados. Entre os delegados presentes neste grupo, liderando o processo ilegal de investigação, aparecem Izaias Gonçalves, à frente da Diretoria de Inteligência (Dintel), junto com o delegado Wagner Domingues, coordenador do serviço de inteligência que teria comprado pessoalmente o rastreador, como apontam as mensagens.
O Domingo Espetacular também apresentou o depoimento do presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol), Áureo Cisneiros, que denunciou a existência de perseguição institucional dentro da corporação. Segundo ele, policiais civis que não concordaram em realizar ações contra adversários do governo Raquel Lyra teriam sido pressionados, isolados ou retaliados.
Caso as denúncias sejam confirmadas, os fatos podem caracterizar uso indevido da máquina pública, desvio da função investigativa, perseguição a servidores públicos e violação de garantias fundamentais, com impactos diretos sobre o processo democrático e eleitoral no estado. A reportagem da TV Record procurou o Governo de Pernambuco, a Secretaria de Defesa Social (SDS) e a Polícia Civil para responder sobre as denúncias. Apenas a última instituição respondeu, tratando apenas de uma das acusações, confirmando a inexistência de inquérito formal, além da ausência de qualquer prova contra os servidores.
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