Por Rudolfo Lago – Correio da Manhã
Três dias antes do primeiro turno, o Correio Político ouviu o diretor do Instituto Indexa, Arilton Freres, que, na ocasião, disse: “A eleição será decidida por um detalhe”. Nem Arilton nem o Correio Político têm bola de cristal, nem se arvoram nesse sentido. Mas, de fato, a eleição foi decidida por “um detalhe”. Flávio Bolsonaro (PL) saiu à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com uma vantagem de apenas 1,8 ponto percentual. Em 2022, Lula saiu à frente de Jair Bolsonaro no primeiro turno com 5,23 pontos.
Ao final, venceu com uma diferença de menos de dois pontos percentuais. Assim, Arilton repetiu à coluna o que dissera três dias antes do primeiro turno: “De novo, esse segundo turno será decidido por um detalhe”. Na ocasião, embora sua última pesquisa indicasse vantagem de Lula, o diretor do Indexa já observava – e a coluna registrou – um movimento de voto útil em favor de Flávio.
Leia maisContingente muito pequeno em disputa
“Esse movimento tendia a acontecer mais no segundo turno. Mas se acelerou e fez Flávio ultrapassar Lula”, observa Arilton Freres. Para o diretor do Indexa, esse é o primeiro ponto a ser observado. A essa altura, há ainda margem de migração dos eleitores desses outros candidatos à Presidência para Flávio? Até onde esse fenômeno já se esgotou no primeiro turno? O que marcava a escolha desses eleitores em outros candidatos? Que resistências têm a Flávio? Que resistências têm a Lula?
Lula terá de acenar ao centro
“O grande desafio de ambos é agora buscar esse contingente, que é muito pequeno”, diz Arilton. No caso de Lula, Arilton Freres observa a possibilidade de dois movimentos obrigatórios. “Lula precisará agora ir mais para o centro”, começa ele. É um movimento complicado, porque os principais líderes do centro a essa altura estão aderindo a Flávio. Mas isso não significa necessariamente os eleitores. O outro movimento, que Arilton Freres observa que Lula já iniciou, é alimentar o “medo” de um retorno do bolsonarismo.
O “medo” será explorado por ambos
“Há aí, porém, um ponto: o ‘medo’ da manutenção de Lula também é o sentimento explorado por Flávio”, continua o diretor do Instituto Indexa. No caso de Lula, seria principalmente a exploração do trauma da covid-19. Não há quem não tenha perdido amigo ou parente na pandemia. No caso de Flávio, colar em Lula o medo com a repetição de escândalos não evitados, ainda que nem todos se relacionem a ele.
Classe média
Há outro grande problema para Lula enfrentar: encontrar um discurso para a classe média. Especialmente para a classe média que passou a viver de forma autônoma: os pequenos empresários, os motoristas de aplicativo e outros que ascenderam nos últimos anos sem um emprego formal. Lula perdeu muitos votos nesse segmento.
Dificuldade
“O PT sempre teve muita dificuldade de compreender esse movimento na classe média”, considera Arilton Freres. Ele lembra a primeira proposta feita pelo governo Lula para regulamentar motoristas de aplicativo, aproximando-os das regras da CLT. Era tudo o que esses motoristas menos queriam. Estava estabelecida a desconfiança.
Médias e pequenas
Essa dificuldade com a nova classe média acentuou-se especialmente nas pequenas e médias cidades. E aí, há de novo um problema observado: nessas localidades, a militância petista é menor e menos organizada do que acontece nos grandes centros. Atingir, portanto, os eleitores dessas cidades e construir um discurso é o desafio.
Desânimo
Outro desafio grande de Lula é contornar o desânimo inicial diante de um resultado que ninguém no seu campo previa. Os primeiros dias na campanha do PT têm sido de bateção de cabeça, avaliação de erros, dedos apontados para responsáveis, possibilidade de troca de comandos e reorganização de rumos e de estratégias.
Salto alto
Do outro lado, porém, o risco observado é o “salto alto”. Arilton observa: “É curioso como se percebia há algumas semanas certo desânimo da campanha de Flávio, algo que não se justificava porque ele sempre foi competitivo”. Isso explica talvez certa soberba de Lula em avaliar, com isso, que poderia até vencer no primeiro turno.
Soberba
Agora, o risco da soberba muda de lado. No início da semana, grupos de Flávio já discutiam ministérios. “Precisam da mesma forma ter cuidado para não cair do salto”, conclui Arilton Freres. A constatação dos novos movimentos só virá com as primeiras pesquisas. O Indexa deve começar a recolher dados no fim da semana ou no início da outra.
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