A máquina só moeu em favor de Raquel
João Campos (PSB) perdeu a eleição pela onda bolsonarista, a mesma que arrastou o presidente Lula (PT) para um segundo turno mais favorável ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Aos 81 anos, ir ao segundo turno num cenário incerto, não estava no radar do petista. João foi vítima também do extremo desgaste do Governo Lula. Perdeu também pela baixa performance no Recife e Região Metropolitana. O Recife não traiu João. O que houve foi uma avalanche de votos à direita, fenômeno que ocorre na América do Sul.
João foi vítima principalmente do uso abusivo e ostensivo da máquina do Estado pela governadora, que teve 150 prefeitos moendo suas estruturas em favor dela. A máquina é um peso em qualquer eleição. João tinha consciência disso e apostou na estratégia de vincular seu nome ao prestígio de Lula no Estado.
Leia maisMas não deu certo. João fez a campanha mais brilhante. Venceu todos os debates, fez os maiores e mais vibrantes atos de campanha. Moveu e mexeu com corações, mas havia uma máquina moendo em prol de Raquel, que só usou em seu favor, desprezando os seus candidatos ao Senado.
Raquel cometeu erros primários na campanha e incitou a ira das mulheres ao sugerir num vídeo uma laqueadura sem consentimento de uma pobre mulher, já com sete filhos. Ao ser reeleita e não eleger um único senador, provou também que só usou a máquina apenas em seu favor, ou seja, ela só coça do seu umbigo para baixo.
Em Pernambuco, nunca um governador se elegeu sem puxar um único senador. Traduzindo: os pernambucanos não aprovaram Raquel. João foi derrotado pela onda anti-Lula, pelo avanço da direita e do conservadorismo na América do Sul.
A eleição estadual, além do peso da máquina, foi fortemente atrelada a corrida presidencial, fortemente vinculada ao Congresso. O PL sai das urnas com o maior número de senadores e a maior bancada na Câmara dos Deputados.
Senado sem surpresas – Na disputa para o Senado em Pernambuco, as pesquisas se confirmaram. Ao longo da campanha, em nenhum momento a candidata do PDT, Marília Arraes, perdeu a liderança. Abertas as urnas, a única surpresa foi Humberto bater Marília, mas isso tem lá suas explicações que faço na nota abaixo.

Estrutura de Raquel bombou Humberto – Humberto chegou ao primeiro lugar na disputa para o Senado por dois motivos: seu nome está muito mais vinculado ao presidente Lula do que Marília. O segundo e mais importante motivo: Humberto conseguiu o apoio da mesma máquina nos municípios que garantiu a reeleição de Raquel, 150 prefeitos. Até o prefeito de Caruaru, terra de Raquel, Rodrigo Pinheiro, apoiou Humberto ostensivamente, assim como outros prefeitos com DNA Raquelzista, como Pollyana Abreu, de Sertânia.
O Brasil se livrou desses senadores – Para o Senado, não foram reeleitos ou eleitos: o pernambucano Randolfe Rodrigues (PT-AP), Ciro Nogueira (PP-PI), Túlio Gadelha (PSD-PE), Carlos Viana (PSD-MG), Soraya Thronicke (PSB-MS), Gleisi Hoffman (PT-PR), Simone Tebet (PSB- SP), Marina Silva (Rede-SP), Esperidiao Amim (PP-SC), Paulo Pimenta (PT-RS), Manuela Dávila (Psol-RJ), Marcelo Crívela (Republicanos-RJ), Magno Malta (PL-ES), Benedita da Silva (PT-RJ) e Roseana Sarney (MDB-MA).
JHC derrota Renan e elege esposa para o Senado – O ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC, foi eleito governador de Alagoas. Renan Filho (MDB), ex-governador e ex-ministro dos Transportes de Lula (PT), terminou em segundo lugar. Lenilda Luna, da Unidade Popular (UP), ficou em terceiro, enquanto Márcio Jambo, do Democrata, somou 0,05% e acabou em quarto. Natural da capital alagoana, JHC tem 39 anos, é formado em Direito e também construiu sua carreira política entre cargos no Legislativo e no Executivo. Foi deputado estadual entre 2011 e 2014, deputado federal de 2015 a 2018 e prefeito da capital por dois mandatos, em 2021 e 2025. A vice-governadora eleita é a também tucana Célia Rocha. Além de derrotar o clã Renan, JHC elegeu a esposa Marina senadora.

Humilhado e desempregado – O neo-direitista Túlio Gadêlha (PSD), que até então era deputado federal, mas se arvorou a ser candidato a senador com o apoio da governadora Raquel Lyra (PSD), se prestou ao papel de virar o articulador da direita na campanha da governadora. Na realidade, ela usou todos, inclusive ele, um inocente que não percebeu. O resultado disso é prático: ele começou a eleição com 7% e terminou com 6%. A partir de janeiro, ou Raquel Lyra arruma um emprego para ele, ou ele estará literalmente desempregado.
CURTAS
A MAIS VOTADA – A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) se tornou a mulher mais votada da história em uma eleição para a Câmara dos Deputados, com mais de 1.5 milhão de votos. A parlamentar superou o recorde de Joice Hasselmann, que recebeu 1.078.666 votos em 2018, quando foi eleita deputada federal por São Paulo pelo PSL.
EM CIMA DO MURO – Renan Santos, candidato do Missão à Presidência, afirmou que o resultado foi pior do que esperava, tanto para sua campanha quanto para o partido. Em fala a apoiadores transmitida pelas redes sociais, o candidato disse que a quarta colocação no pleito ficou muito distante de suas expectativas. Ele ainda avaliou que Flávio Bolsonaro (PL) “deve vencer a eleição no segundo turno”. O político afirmou que não apoiará nenhum dos dois candidatos, mas que sua militância “pode fazer o que quiser”.
XANDÃO QUE SE CUIDE – O PL saiu das urnas ontem com o maior número de senadores eleitos, 19 na totalidade. O MDB veio em segundo, com sete senadores, O PP elegeu três, o União Brasil dois e o PSDB dois, todos aliados a Flávio Bolsonaro, que, se eleito, pode abrir no Senado o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Perguntar não ofende: Depois dessa avalanche direitista, Lula ainda tem chances no segundo turno?
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