Raquel chega ao último dia sob o peso de uma campanha marcada por recuos e episódios negativos
A governadora Raquel Lyra (PSD) chega ao último dia da campanha tentando a reeleição tendo de administrar uma sucessão de episódios que, ao longo das últimas semanas, alteraram o ambiente da disputa. Em vez de encerrar a campanha ditando os termos do debate, a gestora chega à véspera da eleição reagindo a uma agenda que passou a ser cada vez mais imposta pelo adversário.
O movimento mais simbólico ocorreu nos últimos dias, quando sua campanha incorporou a defesa da isenção de IPVA para motocicletas de até 180 cilindradas, uma proposta que João Campos já havia apresentado durante a campanha. O episódio ganhou relevância menos pelo conteúdo da medida, que passou a ser compartilhado pelos dois candidatos, e mais pelo momento em que ocorreu.
Leia maisA poucos dias da votação, a adesão tardia a uma proposta do adversário reforçou a percepção de uma campanha que, na reta final, passou a responder aos temas colocados por João. Em uma eleição disputada voto a voto, a capacidade de estabelecer a agenda é também uma dimensão importante da disputa política.
A campanha de Raquel chega a esse desfecho depois de acumular outros episódios que produziram desgaste e desviaram o foco da discussão sobre seu governo. Debates, controvérsias e decisões de natureza política e jurídica se sucederam nas últimas semanas, obrigando a governadora e sua equipe a administrar crises em um momento em que a prioridade seria consolidar a mensagem de continuidade da gestão.
O contraste ficou particularmente evidente nos debates. João Campos transformou boa parte dos confrontos finais em uma comparação entre aquilo que foi realizado no Recife e o que, segundo ele, deixou de ser entregue pelo Governo de Pernambuco. Delegacias, escolas técnicas, UPAs e outros compromissos passaram a ocupar espaço relevante nas discussões, enquanto Raquel precisou dedicar parte considerável de seu tempo a responder às cobranças do adversário.
O resultado é uma reta final em que a campanha de Raquel parece ter perdido parte da capacidade de controlar a própria narrativa. Os episódios se acumularam, as respostas passaram a ocupar mais espaço do que as propostas e, agora, a candidatura chega ao último dia tendo também de lidar com a apropriação de uma agenda apresentada originalmente pelo adversário.
A eleição, portanto, chega às últimas horas não apenas como uma disputa entre dois projetos, mas como um confronto marcado pela capacidade de cada campanha de conduzir o debate público. E, nesse aspecto, o último movimento de Raquel, ao assumir uma proposta que já vinha sendo defendida por João, tornou-se um símbolo de uma campanha que chega ao fim precisando reagir até mesmo na escolha dos temas que pretende apresentar ao eleitor.
Miguel na mira do MP – O Ministério Público de Pernambuco abriu inquérito civil para investigar suspeitas de irregularidades na compra de livros didáticos pela Secretaria de Educação de Petrolina, em 2019, durante a gestão do então prefeito Miguel Coelho. A apuração, originada em auditoria do Tribunal de Contas do Estado, envolve indícios de direcionamento em licitações e possível superfaturamento de R$ 3,3 milhões. O procedimento também vai aprofundar a análise dos valores para avaliar eventual responsabilização dos envolvidos e ressarcimento aos cofres públicos.

“Colinha” em cima do muro – A governadora e candidata à reeleição Raquel Lyra (PSD) divulgou, ontem, uma “colinha” eleitoral sem indicar voto para presidente da República e manteve, até o fim da campanha, a posição de ficar em cima do muro na disputa nacional. O material traz o número da governadora e dos candidatos ao Senado Eduardo da Fonte (PP) e Túlio Gadêlha (PSD), mas deixa em branco também os espaços destinados a deputado federal e estadual.
“Gabinete do ódio” vai ao STJ – O presidente do STF, Edson Fachin, enviou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) a investigação da Polícia Federal sobre um suposto “gabinete do ódio” ligado ao Governo de Pernambuco e que teria sido usado para disseminar notícias falsas na disputa contra João Campos (PSB). Na decisão, Fachin cita relatório da PF segundo o qual publicações do perfil oficial de Raquel Lyra (PSD) e de dois perfis apontados como integrantes da rede foram feitas a partir de um mesmo endereço de IP pertencente a uma autarquia estadual de tecnologia. Para o ministro, os elementos apurados indicam possíveis condutas ilícitas “no âmbito do governo do estado”, com suspeita de desvio de recursos para financiar notícias falsas com finalidade política e eleitoral. Fachin concluiu que o caso não envolve ataques ao STF, mas disputas políticas em Pernambuco, razão pela qual remeteu a apuração ao STJ, responsável por processos envolvendo governadores.
TRE rejeita pedido de Raquel e mantém Quaest – O Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco (TRE-PE) rejeitou os pedidos da coligação de Raquel Lyra para suspender a pesquisa Quaest que mostrou a governadora e João Campos (PSB) empatados com 42% no primeiro turno. A campanha alegou falta de informações sobre os critérios estatísticos usados no levantamento e, depois, citou uma reportagem sobre pagamentos do PSB ao instituto. O relator Luiz Gustavo Mendonça de Araújo entendeu que a pesquisa cumpriu as regras do TSE e que não havia provas de interferência nos dados que justificassem a suspensão. No segundo turno, a Quaest também apontou empate, com 44% para cada candidato.

João ironiza Raquel por copiar propostas – João Campos (PSB) subiu o tom contra Raquel Lyra depois de a governadora anunciar, na reta final, a intenção de zerar o IPVA de motocicletas de até 180 cilindradas e aumentar o PJES das forças policiais, propostas já apresentadas pelo socialista durante a campanha. “Reconhecendo que suas propostas não saem do papel, Raquel passa a copiar as minhas”, ironizou João nas redes sociais. Em seguida, alfinetou a adversária: “Teve quatro anos para fazer e não fez”.
CURTAS
“DIAS SUJOS E SANGRENTOS” – Flávio Bolsonaro (PL) afirmou, ontem, que os 21 dias entre o primeiro e um eventual segundo turno podem ser “os mais sangrentos e sujos da história de todas as eleições no Brasil”. O candidato acusou o PT, o STF e o TSE de poderem interferir na disputa e disse esperar uma “quantidade gigantesca” de fake news no período. Flávio também voltou a criticar o cancelamento do debate da TV Globo e classificou a decisão como “um movimento muito brusco, obsceno mesmo, contra a liberdade de imprensa”.
INTERFERÊNCIA EXTERNA – A campanha de Lula (PT) pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que a suspensão dos serviços consulares presenciais dos Estados Unidos no Brasil seja incluída na investigação sobre uma possível interferência estrangeira nas eleições. Anunciada a dois dias do primeiro turno e justificada pela Embaixada norte-americana por “preocupações com a segurança”, a medida foi apontada pela defesa do petista como um gesto capaz de projetar instabilidade sobre o ambiente eleitoral. A petição também cita carta de senadores dos EUA que manifesta preocupação com eventual interferência do governo Donald Trump no pleito brasileiro.
DE OLHO NO BRASIL – Donald Trump voltou a afirmar que acompanha “muito de perto” a eleição brasileira, mas evitou declarar apoio a Flávio Bolsonaro. Questionado diretamente sobre a candidatura do filho de Jair Bolsonaro, o presidente dos Estados Unidos respondeu apenas: “Estamos de olho em tudo e vamos observar esta eleição de muito perto”. A postura contrasta com eleições recentes na América Latina em que Trump manifestou preferência pública por candidatos.
Perguntar não ofende: Raquel perdeu o controle da própria campanha na reta final?
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