Por Antonio Magalhães*
Os Pais da Pátria têm servido para simbolizar o papel preponderante de determinadas personalidades na formação da unidade nacional ou de sua independência. Uma visão masculina da História do Brasil. Porém, de onde eles extrairiam opiniões sensatas para tocar seus projetos e a vida em comum? Por isso quis aqui lembrar essas figuras indispensáveis, as Mães da Pátria, que deram apoio às ideias e ideais desses homens notáveis sem exercer cargos oficiais.
Longe de querer dividir este texto com feministas radicais, destaco aqui o papel importante das mulheres, não heroínas oficiais, que compartilharam com eles suas vidas com amor e companheirismo. Esposas fiéis ao casamento, às vezes numa relação com maridos infiéis, bem formadas intelectualmente, deram grande contribuição em forma de conselhos, críticas, sugestões, cuidando da administração doméstica, para que esses vultos brasileiros, hoje registrados no Panteão da Pátria, pudessem ser o que foram.
Leia maisMe vem à cabeça a lembrança da Arquiduquesa da Áustria, Dona Leopoldina, primeira esposa de Pedro I e Imperatriz do Brasil. Hoje há consenso entre os historiadores do seu fundamental papel desempenhado na independência do País. Foi também conselheira de bastidores de Pedro I em importantes decisões políticas que refletiram no futuro da nação, como o Dia do Fico e a posterior oposição e desobediência às cortes portuguesas quanto ao retorno do casal a Portugal.
Preparada na sua formação para reinar, Dona Leopoldina, não via mistério em governar. Foi regente do reino nas viagens de Pedro I pelas províncias brasileiras. É considerada a primeira mulher a se tornar Chefe de Estado de um país americano. Essa performance da jovem imperatriz, falecida aos 29 anos, só é registrada em livros especializados. Para a massa, principalmente no Rio de Janeiro, é o nome de um bairro carioca e de escola de samba.
Já Joaquim Nabuco, o abolicionista, por sua vez, não foi influenciado apenas por uma mulher. Mas por três. Na infância, a madrinha Ana Rosa cuidou dele no engenho Massangana, em Pernambuco, enquanto os pais viviam no Rio, onde o pai era deputado. Na juventude viveu um romance durante 16 anos com a ricaça Eufrásia Teixeira Leite, que terminou deixando-o para viver em Paris. Curiosamente, Nabuco veio a se casar depois com uma parisiense de nacionalidade brasileira, Evelina Torres Soares Ribeiro. Dezesseis anos mais nova, ela acompanhou as andanças políticas e diplomáticas do marido. Deu-lhe cinco filhos. E tem poucos registros de sua vida com Nabuco.
No exemplo seguinte, Mariana Cecília de Souza Meirelles aos 34 anos ainda era solteira, um atestado de incompetência relacional para a época. Mas o militar Deodoro da Fonseca a livrou da solteirice. Muito apaixonados um pelo outro, eles se casaram poucas semanas depois, em 16 de abril de 1860. Ela tinha 34 anos de idade e ele, 33. Não tiveram filhos e os apelidos do casal eram Maneco e Marianinha.
Nas muitas voltas da vida, Deodoro fez brilhante carreira militar, tornou-se Marechal e líder do grupo que proclamou a República. Mariana Fonseca passou a ser a primeira-dama do Brasil republicano.
Foi uma primeira-dama discreta, não fazendo só o papel de dona de casa no Palácio do Itamaraty, residência presidencial à época no Rio. Ela teve uma grande influência sobre o marido, fato conhecido por toda a sociedade. Considerada uma mulher de personalidade forte e opinião própria, a primeira-dama apoiou a iniciativa de criação de uma escola doméstica que, em sua prática, dava instrução primária e ensinava tipos de prendas do lar a meninas pobres e órfãs. Tal escola permaneceu em atividade até o início do século XX.
Já o presidente, o ditador, o líder de massas, o pai dos pobres Getúlio Vargas casou-se em São Borja (RS), em 4 de março de 1911, com Darcy Lima Sarmanho, de 15 anos de idade. O matrimônio foi um acerto político, um ato de conciliação entre famílias rivais. Darci Vargas teve cinco filhos, o que nunca a impediu de exercer suas atividades de primeira-dama militante.
Os momentos de infidelidade conjugal de Getúlio foram superados por Darci internamente, não alimentando o ninho de cobras da política. Ela representou o Brasil, com a filha Alzira, personagem maior da era Vargas, numa visita ao presidente Roosevelt, dos Estados Unidos.
Antecipou o papel social da Primeira-Dama, criando instituições, escolas e a Legião Brasileira de Assistência (LBA) para ajudar a família dos combatentes brasileiros na Segunda Guerra Mundial. Durante a grande seca no início da década de 1950, Darci visitou os Estados do Nordeste que foram os mais atingidos, com o objetivo de viagem de conhecer as necessidades que se sucederam e procurar ajudar os flagelados. Darci era os olhos e ouvidos de Getúlio. Mesmo depois da morte do presidente continuou a trabalhar na assistência social. Morreu em 1968 aos 72 anos.
Tancredo Neves, político da velha escola mineira, quando chegou ao máximo de sua carreira ao ser eleito presidente da República, não conseguiu tomar posse, acometido por uma diverticulite que o levou à morte em 21 de abril de 1985. Foram naqueles momentos tensos da sua demorada agonia de mais de um mês que o Brasil conheceu Risoleta Neves.
Considerada o alicerce de sua família, Risoleta sempre foi uma mulher discreta, embora atuante na construção da política democrática. Esteve sempre ao lado do marido, acompanhando-o em sua trajetória política. Era avessa a entrevistas, preferindo colher as perguntas na forma escrita e respondendo posteriormente.
Um encontro em Paris mudou a vida de Miguel Arraes de Alencar e de Maria Magdalena Fiúza, então uma estudante na capital francesa. Hospedada na casa de uma irmã de Miguel Arraes, que estava viúvo, em missão naquela cidade, ela começou um namoro que logo se transformou em casamento. Do marido, herdou oito filhos, que foram incorporados a mais dois que tiveram juntos. “Eles eram meninos muito bem-educados e logo formamos uma grande família”, se recorda em entrevista ao Diário de Pernambuco.
Ao lado do marido, Magdalena viveu momentos felizes e tristes ao longo do governo, mas encarados de frente. Durante a ocupação do Palácio do Campo das Princesas, em março de 1964 por forças militares, fez questão que todos os filhos fossem à escola normalmente. Já no exílio na Argélia, trabalhou como professora de português numa universidade e aguardava, com um certo receio, voltar ao país por conta da Lei da Anistia em 1979. Sempre se mostrou como uma mulher política com quem Arraes confidenciava episódios, a consultava em momentos de incerteza e antecipava decisões.
Pelos poucos exemplos que vimos acima foi possível avaliar a influência dessas mulheres na vida dos notáveis nacionais. Identificamos o que foi agregado à consciência desses homens durante a vida em comum. Por isso, não se pode pensar nos Pais da Pátria sem as Mães da Pátria. É isso.
*Jornalista
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