Quando cheguei ao Recife para cursar Jornalismo no início dos anos 80, o Bar Savoy ainda fazia sucesso. Fui lá uma ou duas vezes, no máximo. Estudante pobre, tangido pela seca em Afogados da Ingazeira, vivi o Recife do sucesso de outros bares, como o Mustang, na Conde da Boa Vista, que servia o chope da irresistência, mas sem o caldo cultural do Savoy.
Meu amigo Carleone, dos Falcão das Alagoas, que corre comigo na Jaqueira, me presenteou com uma obra de arte, que achou num sebo: Bar Savoy, de Edilberto Coutinho, advogado, jornalista e professor universitário paraibano de coração recifense. Na verdade, coração savoyano, sustentado pelo sangue das emoções poéticas que pulsavam em cada chope no Savoy.
Leia maisNascido em Bananeiras, na região do brejo paraibano, Edilberto era advogado, jornalista, professor universitário e escritor dedicado ao folclore nordestino. Filho do Dr. Francisco Coutinho Filho e D. Otília Cirne Coutinho, passou a infância e a juventude em constantes mudanças entre os estados de Pernambuco e Paraná, acompanhando o pai que, sendo funcionário federal, estava sempre prestando serviço a qualquer Estado para o qual fosse designado.
Era formado em Direito pela Faculdade do Recife, porém nunca exerceu a profissão de advogado. Sempre teve atração pelas letras, principalmente, pelo folclore nordestino, influenciado que era pelas histórias do cotidiano desse povo que lhe eram contadas pelo pai, folclorista de renome. Era jornalista, diplomado pelo World Press Institute (Instituto Mundial de Imprensa) dos Estados Unidos, tendo escrito nos principais jornais e revistas do Brasil. Durante algum tempo, foi correspondente, na Europa, do Jornal do Brasil e da Revista Manchete e, nos Estados Unidos, dos Diários Associados (O Jornal e O Cruzeiro).
Em 1970, transferiu-se, definitivamente, para o Rio de Janeiro. O Savoy, na visão dele, não era um bar. Era uma academia da poesia, da literatura brasileira. Seus frequentadores faziam poesia em guardanapos e os declaravam para suas amadas depois que perdiam a conta dos chopes, o mais famoso da então chamada Veneza Brasileira. Carlos Pena Filho foi o maior deles.
“Nas mesas do Bar Savoy/o refrão tem sido assim/São trinta copos de chopp/são trinta homens sentados/trezentos desejos presos/trinta mil sonhos frustrados”. Esta obra de arte do poeta do Savoy saiu de improviso em 1959, num guardanapo puxado em cima da mesa. Nunca mais o Savoy foi mesmo! Ganhou o mundo, atraiu curiosos da literatura nacional.
O baiano Jorge Amado, de Gabriela, cravo e canela, saia de Salvador para beber chope e se embriagar com a poesia de Carlos Pena Filho no Bar Savoy. Pena morreu aos 31 anos em 1960, em um acidente de automóvel. No livro, li uma saudação do escritor baiano ao poeta do Savoy.
“Era o seu poeta (de Recife), o irmão mais novo de Joaquim Cardoso, o amigo do general e do pobre da esquina, da aeromoça e do folião do carnaval, do prefeito e da rainha do maracatu, do poeta Ascenso e do compositor Capiba, do pintor Brennand e do fabuloso Ariano, do ateu e do católico, do protestante e do espírita, do rico e do pobre, era a doce fantasia e a densa realidade, o ar, a chuva e o sol dessa cidade, seu cotidiano de beleza, eras o seu poeta.”
O poeta do Savoy só tinha amigos e admiradores famosos: Gilberto Freyre, Ariano Suassuna, Mauro Mota, Marcus Accioly, Murilo Costa Rêgo e João Cabral de Melo Neto. A cada página, o livro de Edilberto nos apresenta um bar que as pessoas não iam apenas degustar o melhor chope da cidade. Iam tomar literatura na veia.
O Savoy funcionou no coração da cidade boêmia do Recife, na Avenida Guararapes, número 147, nascido em 1944. O livro foi lançado em 1995, um ano depois do cinqüentenário do bar e poucos meses depois do falecimento de Edilberto.
Edilberto entregou ao Pais a memória de um bar. Nele passaram gerações de intelectuais, escritores e artistas que honram qualquer cidade do mundo. Os broncos acudiriam logo pelos nomes de Sartre e Rosselini, que um dia foram às mesas do Savoy. Sartre saiu encantado com o peso-pluma Carlos Pena Filho.
Que não era tão suave quanto parecia, a julgar por uma das anedotas saborosas do livro. Carlos Pena, o anjo, assim aconselhou ao deputado Murilo Costa Rego, que estava em apuros diante do reacionarismo dos colegas na Assembleia, porque o deputado viajara a Cuba.
“Responda-lhes: hospedei-me num hotel escaleno, defronte a uma praça isósceles”. O livro é uma viagem ao mundo encantado da boemia recifense, com histórias engraçadas. O jornalista Esmaragdo Marroquim, do JC, cliente fiel, chegou a presentear uma paquera com uma poesia num vidrinho de perfume.
Mauro Mota não perdoou e saiu-se com essa: “Esmaragdo Marroquim/ faz de otário o papel/não se dá perfume assim/dá-se perfume em motel.” O Savoy foi fundado em 1944 pelo espanhol Alvarez, passando para os irmãos Simões e, por fim, para o português Joaquim Esteves Pereira, que inaugurou o Canto do Poeta. Esteves, a quem Gilberto Freyre chamava “o bom Esteves”, abandonou o Recife.
Na sua gestão, o Savoy transformou-se em uma verdadeira entidade cultural, promovendo concursos, cursos, palestras e adquirindo um magnífico acervo de excelentes obras de arte. Carlos Pena Filho também fez músicas. A mais famosa em parceria com Capiba: “A Mesma Rosa Amarela”. Virou sucesso nacional na voz de uma das maiores estrelas da MPB nos anos 1960: Maísa Matarazzo.
Mas o poema inesquecível de Pena Filho é o Guia Prático da Cidade do Recife, no qual mostra as várias faces da capital, incluindo a da boemia, ao referir-se ao Bar Savoy.
Irmão do ex-governador Eduardo Campos, o advogado Antônio Campos é um dos principais estudiosos, curadores e difusores da vida e da obra do poeta pernambucano Carlos Pena Filho. Já promoveu a exposição “Carlos Pena Filho – 50 anos de memória”, dividida em módulos para exaltar a poesia e a sensibilidade do artista.
Campos costuma descrever Carlos Pena Filho como o “poeta do azul” ou um “pintor cujos pincéis eram as letras”, ressaltando a forte ligação do escritor com as artes visuais, a boemia recifense e nomes da lusofonia. Tudo porque uma das suas mais famosas poesias tem a ver com o azul.
“Então, pintei de azul os meus sapatos / por não poder de azul pintar as ruas, / depois, vesti meus gestos insensatos / e colori as minhas mãos e as tuas.
Para extinguir em nós o azul ausente / e aprisionar no azul as coisas gratas / enfim, nós derramamos simplesmente / azul sobre os vestidos e as gravatas.
E afogados em nós, nem nos lembramos / que no excesso que havia em nosso espaço / pudesse haver de azul também cansaço.
E perdidos de azul nos contemplamos / e vimos que entre nós nascia um sul / vertiginosamente azul. Azul.”
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