Por Marcelo Tognozzi*
O Brasil parece estar eternamente numa marcha da insensatez e os fatos às vezes parecem ficção. No meio da semana passada, o mercado assustou. A Justiça do Trabalho determinou a suspensão das demissões nas Casas Bahia, empresa que pediu recuperação judicial e tem dívida de R$ 17,3 bilhões. Para continuar operando, precisa fechar 298 lojas e demitir de 1.900 e 2.000 empregados. A Justiça aplicou o entendimento do Supremo Tribunal Federal, determinando que demissões em massa devem passar por uma negociação com os sindicatos.
O problema é muito maior do que se imagina. Se a empresa está derretendo, precisa tomar medidas duras e amargas para sobreviver. Impor o retorno dos demitidos sem que sejam obrigados a devolver as indenizações recebidas, não vai salvar o emprego de ninguém. Morrerão todos abraçados, empresa e trabalhadores.
Leia maisNão se atrapalha quem tenta sobreviver. Principalmente no cenário deste ano eleitoral, com a economia enfrentando muitos problemas, o governo gastando mais do que poderia e os impostos crescendo mais do que deveriam. De janeiro a abril deste ano, 602 empresas entraram em recuperação judicial e outras 234 faliram. No início deste segundo semestre havia 6.341 empresas em recuperação judicial no Brasil, aumento de 65,8% sobre igual período de 2023, nos primeiros meses de Lula 3.
Os trabalhadores sabem que o grosso dos empregos são criados pela iniciativa privada e que quanto menos empresas, a oferta de postos de trabalho cai e menos dinheiro circulará na economia. A crise chega em ondas, até se estabelecer de vez como foi no Dilma 2. Quem leu “Anantomia de um Desastre”, livro escrito pelos jornalistas Cláudia Safatle, João Borges e Ribamar Oliveira, sabe os detalhes e os bastidores de um dos piores momentos do Brasil.
A crise dissecada no livro foi edificada a partir de intervenção desastrosa na economia, cujas consequências todos nós conhecemos bem no bolso e no lombo. O que está acontecendo agora não é muito diferente do que vivemos no passado recente, porque a crise foi se instalando ao longo dos últimos 3 anos e trouxe para o centro do palco atores políticos que antes não coexistiam sob os mesmos holofotes, como é o caso do Poder Judiciário.
A crise do governo Dilma, ficou restrita ao Executivo e ao Legislativo, terminando em impeachment com o Supremo negociando para aliviar Dilma que, diferentemente de Fernando Collor, não perdeu os direitos políticos e se candidatou ao Senado por Minas em 2018.
Desta vez, a crise está escalando num volume jamais visto. O custo do dinheiro reduziu drasticamente a margem dos produtores rurais, que vivem um paradoxo. Colherão safra recorde de 354 milhões de toneladas, mas, ao mesmo tempo, devem muito. Há até R$ 100 bilhões em operações ligadas ao agro que podem entrar em renegociação. Parte disso, R$ 36,7 bilhões, são créditos inadimplentes, enquanto R$ 63,5 bilhões correspondem a operações prorrogadas ou renegociadas. Até 113 mil tomadores podem ser alcançados.
No agro, como no comércio, as recuperações judiciais estão explodindo. Só este ano já foram 517 pedidos de recuperação judicial, 33% a mais do que no mesmo período de 2025. Num cenário em que temos aumento dos preços dos fertilizantes provocado pela guerra no Irã e na Ucrânia, o custo para produzir alimentos tenderá a subir ainda mais em 2027.
O cenário geopolítico promete ser mais hostil em 2027, com os Estados Unidos e seus aliados latino-americanos batendo bumbo em volta do Brasil, acirramento da polarização na Europa, onde a direita está crescendo sustentada pelo discurso anti-imigração. Na Inglaterra, o conservador e garoto propaganda do Brexit Nigel Farage, do Reform UK, voltou ao Parlamento com a narrativa de independência.
Farage dificilmente será inquilino do número 10 de Downing Street, mas pode empurrar o eleitorado para a opção mais conservadora ou desequilibrar o jogo dos Trabalhistas no Parlamento. Na França, Marine Le Pen lidera as pesquisas com mais de 30% dos votos para as presidenciais de abril de 2027. Claro que tudo isso pode mudar, como mudou na última eleição, mas esta é a tendência do momento. A França, junto com a Irlanda, são os maiores adversários do acordo Mercosul-UE.
Na Espanha, as pesquisas indicam que a direita e centro-direita até agora são as preferidas do eleitorado nas eleições do ano que vem, com chances de levarem 186 cadeiras no Parlamento, ficando com 10 a mais que o necessário para a maioria. Todo este cenário exigirá do Brasil uma atenção redobrada não apenas à diplomacia formal do Itamaraty, mas especialmente à diplomacia empresarial que tem na JBS e na Embraer seus maiores expoentes.
Se temos uma economia com risco cada vez maior de repetir a crise econômica de 10 anos atrás, vamos precisar de muita negociação e muita paciência diante do quadro político-institucional que teremos pela frente. Não adianta encurralar empresas, aumentar impostos e algemá-las, porque corremos o risco de perder capital e cérebros para nossos vizinhos, como já vem acontecendo com o Paraguai. E isso não acontece só aqui.
No início de agosto, a Câmara de Comércio da Flórida lançou uma campanha de agradecimento do prefeito socialista de Nova York, Zohran Mamdani, chamando-o de maior incentivador da economia do Estado, tantas foram as empresas que saíram da cidade rumo ao Sul dos Estados Unidos. Um outdoor foi erguido na Times Square em “homenagem” ao prefeito. “Nós queremos agradecer a ele pelos postos de trabalho, as empresas, as pessoas que ele empurrou para fora de Nova York e muitas delas vieram para a Flórida”, disse Mark Wilson, CEO da Câmara de Comércio numa reportagem publicada no New York Post.
O Brasil precisa muito das empresas e empreendedores. Ninguém segura emprego na marra. Quem acorda cedo todo dia para trabalhar sabe que sem economia sadia a vida vira um inferno. Aumenta a violência e a pobreza e todos perdem. Quando você se deparar com uma medida que faz empresários e trabalhadores morrerem abraçados, lembre do professor Mário Henrique Simonsen. Ele dizia que “os pobres ficam ainda mais pobres quando têm de sustentar os burocratas nomeados para supostamente enriquecê-los”.
*Jornalista e consultor independente. Fez MBA em gerenciamento de campanhas políticas na Graduate School Of Political Management – The George Washington University e pós-graduação em inteligência econômica na Universidad de Comillas, em Madri.
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