Por Muciolo Ferreira*
Se alguém me perguntar quem é o santo padroeiro do Brasil, eu direi São Jorge ou São Pedro, nessa ordem. Lógico que a resposta é baseada nos milhões de devotos e seguidores espalhados por esse Brasil que os dois possuem. Isso sem falar das igrejas e monumentos dedicados a eles e os nomes de batismo nos cartórios.
ERREI. Na verdade, o padroeiro oficial do Brasil é São Pedro de Alcântara, cuja data é celebrada no dia 19 de outubro. O santo foi nomeado pelo Papa Leão XII, em 1826, atendendo a um pedido do Imperador Dom Pedro I. Até hoje é reconhecido pela CNBB, mas sem muita divulgação pela Igreja. Todavia, é São Jorge o padroeiro popular e afetivo dos brasileiros, pois, hoje, em todos os recantos do nosso país, especialmente no Rio de Janeiro, o 23 de abril é feriado estadual.
Leia maisO santo guerreiro, defensor e protetor dos seguidores de Jesus Cristo, é festejado e celebrado com júbilo e de várias formas e tradições: alvoradas com foguetório, cânticos e missas seguidas das procissões dos seguidores do Cristianismo e das religiões de matrizes africanas, que incluem muitas rodas de samba. Tendo a feijoada de São Jorge como o prato principal.
À noite, as tendas e os terreiros da Umbanda e do Candomblé saúdam o homenageado no sincretismo religioso pelo nome de Ogum. Confesso que o nome Jorge sempre me encantou e me fascinou desde criança. Não sei o motivo. Talvez pelo fato de ser um nome carregado de simbolismo religioso e, na cultura popular brasileira, representar força.
Na raiz, na etimologia da palavra, o nome vem do grego Georgius, associado ao agricultor, ao homem da terra. Mas, em nosso país, Jorge é sinônimo de força, garra, proteção e de muita sedução. Sedução e masculinidade ligados à energia, ao poder e à resiliência. Além de ser um nome charmoso, clássico e personalíssimo, que combina com qualquer sobrenome. É só observar ao seu redor quantos conhecidos, parentes, colegas de trabalho e pessoas amigas foram batizados e registrados. A lista é imensa: Ricardo Jorge, José Jorge, Jorge Fernando, Pedro Jorge, Jorge José, só para citar esses. Difícil encontrar uma família que não tenha um parente Jorge. Ou não conhecer uma jovem que não teve um namorado Jorge.
São muitas as histórias. Por exemplo, o primeiro namorado da minha eterna, saudosa e única irmã que tive, Madalena, chamava-se Jorge. Ela casou com um Antônio, mas costumava dizer ter sido Jorge sua grande paixão. O nome também é atrelado ao poder de sedução, associado à influência de fatores culturais e simbólicos.
Jorge transcende, vai muito além da sua raiz literária, que o coloca apenas como um simples “agricultor”, “trabalhador da terra”. É sinônimo de coragem, garra, proteção e valentia, características essas de atração e sedução. Esse nome, no Rio de Janeiro, é tão próximo e íntimo das pessoas como é o próprio São Jorge. Raríssima uma casa que não tenha a imagem do santo num cantinho do cômodo reservado a ele. Em terras cariocas, é comum os Jorges serem saudados e cumprimentados nas ruas por “compadre Jorge”.
E eu não poderia deixar de incluir na homenagem ao dia do mais popular santo brasileiro os versos iniciais do samba-enredo da Escola de Samba Estácio de Sá, no Carnaval de 2016, quando do desfile do Grupo Especial do Rio de Janeiro.
“Sou teu fiel seguidor, meu cavaleiro / Por dia mato um dragão / Sou brasileiro / Estácio veste o manto carregado de axé / Salve Jorge, o guerreiro na fé…”
E viva hoje os Jorges nossos de todo dia!
*Jornalista
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