É verdade que a investigação não começou agora. Também é verdade que Washington alega razões comerciais envolvendo comércio digital, propriedade intelectual e outras disputas regulatórias. Mas a política não vive apenas de fatos. Vive, sobretudo, de percepção.
E a percepção que rapidamente tomou conta das redes sociais e do debate público foi devastadora para o bolsonarismo.
Nasceu assim o apelido “Tariflávio”, criado inicialmente por adversários políticos e rapidamente incorporado ao debate nacional para associar Flávio Bolsonaro às medidas hostis adotadas pelo governo americano contra o Brasil.
O problema para o bolsonarismo não é apenas econômico. É simbólico.
Historicamente, a direita brasileira construiu parte importante de sua narrativa em torno do patriotismo, da soberania nacional e da defesa dos interesses do país. Quando um dos principais líderes desse campo político aparece ao lado das mais altas autoridades americanas e, poucos dias depois, o Brasil passa a ser alvo de medidas que afetam empresas, exportadores e consumidores brasileiros, a oposição encontra terreno fértil para construir uma narrativa politicamente poderosa.
Inicialmente, o desgaste estava concentrado no tarifaço. Mas a situação ganhou contornos ainda mais delicados quando o governo Trump ampliou sua ofensiva comercial e passou a questionar o PIX.
O sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central tornou-se uma das iniciativas mais bem-sucedidas da história recente da economia brasileira. Utilizado diariamente por milhões de pessoas e empresas, o PIX se consolidou como símbolo de modernização financeira, inclusão bancária e redução de custos para consumidores e comerciantes.
Por isso, qualquer movimento externo percebido como ameaça ao sistema desperta imediata reação popular.
A discussão deixou de ser apenas econômica e passou a ser também emocional. Para grande parte da população, o PIX é uma conquista brasileira. E quando um governo estrangeiro sinaliza medidas que possam dificultar sua expansão ou favorecer interesses de concorrentes internacionais, a questão rapidamente assume contornos de soberania nacional.
Nesse ambiente, Flávio Bolsonaro passou a enfrentar um problema político que vai muito além das tarifas.
Levantamento divulgado pela Folha de S.Paulo mostrou que cerca de oito em cada dez manifestações opinativas monitoradas em grupos públicos de WhatsApp e Telegram associavam diretamente Flávio Bolsonaro tanto ao tarifaço quanto às ameaças ao PIX. Embora esse tipo de monitoramento não tenha valor de pesquisa eleitoral, ele funciona como um importante termômetro da disputa narrativa travada nas redes sociais. E narrativas importam.
Importam porque eleições são disputadas não apenas em torno de fatos objetivos, mas também em torno das interpretações que os eleitores constroem desses fatos.
O próprio Flávio Bolsonaro percebeu o tamanho do desgaste e passou a afirmar publicamente que pediu a Trump para não impor tarifas ao Brasil. Também procurou demonstrar preocupação com os efeitos econômicos das medidas anunciadas por Washington.
Mas, em política, muitas vezes a “defesa” acaba reforçando o problema.
Quanto mais o senador precisa explicar que não teve participação nas decisões americanas, mais a associação entre sua viagem, suas reuniões e as medidas anunciadas pelos Estados Unidos permanece viva no debate público.
O impacto potencial também preocupa setores produtivos. Tarifas elevadas reduzem competitividade, aumentam custos, geram insegurança para investidores e afetam cadeias produtivas inteiras. A simples ameaça de novas barreiras comerciais já produz efeitos negativos sobre expectativas econômicas.
Mais do que um episódio isolado, o caso pode se transformar em um dos grandes temas da campanha presidencial de 2026.
Pela primeira vez desde o surgimento do bolsonarismo, a esquerda parece ter encontrado uma narrativa simples, popular e facilmente compreensível para atacar diretamente um dos principais herdeiros políticos do ex-presidente Jair Bolsonaro. E campanhas eleitorais costumam transformar símbolos e apelidos em armas extremamente eficazes.
Agora, todas as atenções se voltam para as próximas rodadas de pesquisas eleitorais. Analistas, partidos e estrategistas querem descobrir qual dos dois polos da disputa presidencial conseguirá tirar maior proveito político desse episódio.
Se o eleitorado enxergar as medidas americanas apenas como consequência de uma disputa comercial entre governos, o impacto poderá ser limitado. Mas, se prevalecer a percepção de que setores do bolsonarismo mantêm uma relação de alinhamento automático com interesses estrangeiros, o desgaste poderá se aprofundar. Uma coisa, porém, já parece evidente.
“Tariflávio” deixou de ser apenas um apelido criado nas redes sociais para se transformar em um fato político.
E agora não se trata apenas de tarifas.
Trata-se de tarifas, do PIX, de soberania nacional, de interesses econômicos brasileiros e da percepção crescente de que a política externa pode ter se transformado, pela primeira vez em muitos anos, em um tema decisivo da disputa presidencial.
As próximas pesquisas dirão se esse desgaste ficará restrito ao ambiente digital ou se começará a aparecer também nas intenções de voto.
Se isso acontecer, Flávio Bolsonaro poderá descobrir que, em política, algumas tarifas custam muito mais caro do que parecem.
*Jornalista e consultor de marketing político
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