Por Gastão Cerquinha Neto*
O Rio Grande do Sul enfrentou pelo menos quatro cheias significativas nos últimos três meses. As inundações atingiram diversos municípios, de norte a sul do estado, provocando prejuízos à população e à infraestrutura das cidades. O que mostra que é cada vez mais urgente a necessidade de reforçar as estruturas de proteção contra inundações.
Falta celeridade
De acordo com o Governo Federal, já foram destinados mais de 3,5 bilhões em recursos para a construção de 730 pontes, 118 obras de drenagem e contenção e 570 obras de estradas e pavimentação. Em setembro, o Governo Federal cobrou maior rapidez na execução dessas obras, que, segundo o governador do Rio Grande do Sul, ainda estavam em desenvolvimento.
Leia maisJá estava previsto
O que preocupa é que os sinais de alerta já estavam claros. As previsões climáticas indicavam que a intensificação do fenômeno El Niño aumentaria as chances de chuvas mais volumosas no Sul do Brasil.
Oceanos mais quentes favorecem a evaporação da água e aumentam a quantidade de água na atmosfera. Em determinadas condições, isso pode contribuir para chuvas mais intensas. Além disso, o aquecimento global acelera o derretimento de geleiras e grandes massas de gelo dos continentes, contribuindo para a elevação do nível do mar.
No Sul do Brasil, episódios fortes de El Niño costumam favorecer chuvas acima da média, aumentando o risco de cheias e inundações. E essa preocupação não se limita ao Rio Grande do Sul. Santa Catarina e Paraná também estão vulneráveis a eventos extremos, como tempestades severas, vendavais, descargas elétricas e queda de granizo.
Efeito das mudanças climáticas
Mas o aquecimento dos oceanos não se limita ao Oceano Pacífico, onde o El Niño é caracterizado. Nos últimos anos, as temperaturas dos oceanos no mundo todo também atingiram níveis muito elevados, um comportamento diretamente associado ao avanço do aquecimento global.
A grande questão é que a velocidade com que estamos nos preparando para enfrentar os eventos climáticos extremos é muito menor do que a velocidade com que seus impactos estão atingindo nossas cidades.
Enquanto os fenômenos se tornam mais preocupantes, as cidades avançam lentamente com as obras de drenagem, contenção de cheias e proteção das áreas vulneráveis, em um comportamento que menospreza os efeitos das mudanças climáticas sobre a população.
Prevenir é melhor que remediar
É importante compreender que prevenir costuma ser muito mais barato do que reconstruir. As perdas econômicas provocadas pela paralisação do comércio, dos serviços e das atividades produtivas, somadas aos custos de recuperação de estradas, pontes, moradias e equipamentos públicos, podem superar e muito os investimentos necessários em prevenção.
Precisamos deixar de tratar os desastres como acontecimentos inesperados e começar a planejar nossas cidades considerando os riscos climáticos que já conhecemos. Investir em sistemas de alerta, obras de drenagem, recuperação de áreas naturais de inundação, planejamento urbano e infraestrutura de proteção não é apenas uma questão ambiental. É uma necessidade econômica e social.
O clima está mudando, e nossas cidades precisam acompanhar essas mudanças. O custo de não agir pode ser muito maior do que o investimento necessário para proteger a população.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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