Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Antes de votar amanhã, pense. Você acha que está tudo fora do lugar, mas onde está escrito que o Brasil tinha de dar certo? No livro de Stefan Zweig, “Brasil, País do Futuro”? Ali não foi registrada previsão, mas mera possibilidade.
O Brasil trata mal seu povo desde 1500. O conceito de nação e de povo nunca existiu de fato e, mesmo depois da Independência, demorou a aparecer. Enquanto o Peru inaugurou a Universidade de San Marcos em 1551, a Faculdade de Direito do Recife é de 1827 e a Universidade do Paraná, a primeira do Brasil, nasceu em 1912.
Leia maisStefan Zweig, escritor austríaco refugiado do nazismo, encontrou no Brasil de Getúlio Vargas o que chamou de país do futuro, porque o presente do Estado Novo era duro de digerir. Ficou encantado com o Rio e com brasileiro cordial, ironia de Sérgio Buarque de Holanda, e terminou seus dias em Petrópolis, no verão de 1942.
O Brasil está prestes a virar um país de velhos. Pior: de velhos pobres e ignorantes, totalmente dependentes do Estado e sem nunca terem experimentado riqueza. Eleitores com 60 anos ou mais já são 23%. Em 2030, serão 30% e poderão decidir a eleição. Qual será a escolha deles? Seguiremos assim, nas nossas lendas, nesse nosso estilo de nunca perder a oportunidade de perder uma oportunidade?
Se em pouco tempo poderão decidir as eleições, temem a ousadia, justamente por serem velhos. Mas não avançaremos sem ousadia. Diferentemente disso, retrocederemos. Pense nisso quando for votar amanhã.
Qual nosso projeto de nação? Para onde vamos? Quem tem projeto de Brasil para apresentar ao respeitável público? Meu amigo Aldo Rebelo? Ou ele se inspira no projeto de José Bonifácio, patriarca da Independência, esquecido, cancelado, escondido nalguma gaveta da História?
O Brasil nasceu como território a ser ocupado e explorado. Até o nome veio de mercadoria: a madeira, matéria-prima da tinta vermelha para tingir tecidos. Depois vieram o açúcar, o ouro e os diamantes de Minas. A borracha ergueu palácios e o teatro de ópera em Manaus para logo decair. Café, minério de ferro, soja e petróleo abundante. Sem refinarias para transformar este último em diesel e gasolina, é vendido e volta como combustível.
Agora, são as terras-raras. O Brasil tem a segunda maior reserva do planeta. Mas sua produção não é nada diante do total mundial. O filme é conhecido: extrair minério, embarcá-lo e depois importar componentes, equipamentos e produtos de alto valor agregado fabricados a partir da matéria-prima por nós vendida.
Mudam os produtos, os compradores, os contratos e as tecnologias. Permanece a imensa incapacidade, bem brasileira, de transformar abundância de recursos naturais em conhecimento, produtividade e prosperidade.
Seria fake news dizer que nada mudou desde 1500. Mudou e muito. O Brasil fez agricultura de alta tecnologia, indústria complexa, sistema financeiro de primeira, universidades, centros de pesquisa e empresas capazes de competir internacionalmente. O difícil tem sido converter riqueza, escala econômica e capacidade produtiva em capital humano, mobilidade social e qualidade de vida para a maioria.
A Amazônia talvez seja o pior retrato dessa contradição. Mais de 75% da população não tem saneamento básico. Durante décadas, nos vendemos ao mundo como guardiães da maior floresta tropical do planeta. Tudo espuma.
Hoje, quem manda na Amazônia é o crime. Dos narcos aos contrabandistas de tudo o que possa valer dinheiro. Desde gente até pedras preciosas, animais, plantas e madeira. E, pasmem, há locais onde nem o Exército entra; só as ONGs. Soberania é presença, discurso some no vento.
É possível o país dar certo se a maioria da população é incapaz de fazer corretamente as quatro operações ou passar num simples teste de ditado? Enquanto isso, o debate sobre a qualidade do ensino é diluído por disputas ideológicas, salários medíocres, greves, modelos pedagógicos e outras bobagens incapazes de tirar a educação do atoleiro. Pense nisso quando for votar amanhã.
País sem educação está condenado a viver na escuridão. A produtividade, pilar da prosperidade, cresce muito pouco por falta de capacitação dos trabalhadores. E não existe minério capaz de compensar indefinidamente população mal-educada. Não há terra-rara que substitua capital humano. No século 21, o conhecimento é a maior riqueza. E a ignorância, a maior das misérias.
O custo da ignorância é o Estado capturado por corporações improdutivas, incapazes de criar emprego e renda, mas muito bem sustentadas pelos impostos. Sem um voto sequer, mandam e desmandam em tudo e todos.
No Brasil, há sempre umas forças ocultas para levar a culpa. O colonizador, o imperialismo, o mercado, as elites, o Congresso, o Supremo, o governo anterior, os Estados Unidos, a China e a conjuntura internacional. O político culpa o antecessor. O empresário culpa o governo. O governo culpa o mercado. O mercado culpa a insegurança jurídica. O eleitor culpa o político que ele próprio ajudou a eleger. São muitos e criativos álibis. Enquanto isso, a burocracia mata o empreendedor com tributos escorchantes e faz o país arrecadar como Europa e entregar como África. É o pior dos mundos.
Mas, afinal, o que significa dar certo? Dar certo não é ser a oitava, nona ou décima economia do planeta. Dar certo é quando não há criança sem escola nem escola sem criança, quando a lei funciona para o poderoso e para o motoboy, quando o pagador de impostos pode andar na rua sem medo, a qualquer hora, com ou sem celular e quando o Estado devolve em serviços, eficiência e obras de qualidade o que arrecadou. E, principalmente, quando os governantes entendem que seu papel principal é não roubar, não deixar roubar e pôr na cadeia quem rouba.
O mundo está cheio de países ricos em recursos naturais e pobres em instituições. Esses são os eternos fracassados. Os que deram certo fizeram o dever de casa.
Zweig, tão grato pela acolhida, morreu no seu país do futuro encharcado de barbitúrico, numa noite de verão, abraçado a Lotta, amor da sua vida, companheira na viagem para a eternidade. E o Brasil do futuro virou devedor de si mesmo.
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