Trinta anos após sua morte ainda não esclarecida, o ex-tesoureiro Paulo César Farias, o PC, volta ao noticiário político nacional. A história dele é recontada no “O Tesoureiro: o esquema de corrupção, a fuga espetacular e a morte de PC Farias”, do jornalista Xico Sá, que será lançado em setembro. Em entrevista ao podcast Direto de Brasília, o autor revelou bastidores da sociedade entre o ex-presidente Fernando Collor e PC Farias, a fuga do ex-tesoureiro do Brasil e investigações de sua morte. “Minha suspeita é que a morte dele esteja muito associada com pessoas de fora, que administravam a maior parte do dinheiro dele e não foram devidamente investigadas”, relata Xico Sá.
O que o levou a escrever um livro sobre PC Farias, 30 anos após sua morte?
A falta de memória do nosso país. Ivan Lessa, do Pasquim, dizia que a cada 15 anos o Brasil esquece o que se passou há 15 anos. E até como jornalista, queria lembrar para as novas gerações como se fazia uma campanha política. A eleição de 1989 não foi uma campanha qualquer, era a primeira após anos de ditadura. Então é um livro muito útil para as novas gerações de jornalistas.
Leia maisQual seria a principal revelação do livro?
Falei muitas coisas novas, como a situação de que havia uma parte da Polícia Federal na mão do PC. Mas o mais aprofundado é como se deu a sociedade dele com Fernando Collor. Não era uma colaboração eventual ou dinheiro do PC que pingou na mão do Collor. Fora as coisas engraçadas, aventuras e trapalhadas, a grande história é como se deu e se montou essa sociedade entre PC e Collor.
Existiu muito folclore, como a questão do Fiat Elba, que acabou marcando o impeachment…
Muito antes, PC deu até uma Mercedes ao Collor. O Fiat Elba entrou no folclore, mas havia coisa infinitamente maior e que não entrou no radar da Polícia Federal, da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) e nem da imprensa na época. Mostramos que houve um racha medonho, que até parece com o tempo que vivemos hoje. Havia parte da Polícia procurando o PC e parte comprada pelo próprio PC. O delegado Edson Oliveira, que era chefe da Interpol no Brasil, estava na folha de pagamento do PC. Então ele fingia que estava procurando PC, dava entrevistas, mas na verdade estava na mão do PC, avisava a ele onde a Polícia Federal e a Interpol iriam passar. Então tem um bocado de coisa nova, que se soma a essa história que é fantástica da política brasileira.
A morte de PC Farias sempre gerou dúvidas. Há várias versões, de queima de arquivo a crime passional pela então namorada Suzana Marcolino. Qual a sua impressão?
A versão oficial ficou de que Suzana teria atirado e depois suicidado, mas desde então as dúvidas estão no ar. Creio que tudo leva a crer que foi uma armação entre a polícia e a política, para encobrir uma grande queima de arquivo. Antes, houve a morte da Elma Farias (esposa de PC, vítima de edema pulmonar agudo e insuficiência cardíaca, aos 44 anos, em 1994), que também é coberta por uma nevoa de suspeita. A forma como foi iniciada a investigação, com a queima do colchão em que PC e sua namorada dormiam, a cena do crime foi totalmente adulterada. Então não dá pra confiar no que foi apurado naquele momento. Parecia que estava todo mundo correndo para resolver logo uma versão de que teria sido um crime passional. Inclusive a família.
Inclusive um irmão de PC Farias foi citado à época como suspeito…
Isso, o então deputado Augusto Farias foi citado por ser o tutor dos herdeiros. A Procuradoria Geral da República (PGR) já arquivou essa linha de investigação. Eu tinha muita ligação com a família, todos eram minhas fontes nesse caso. O que me leva a crer que Augusto não tinha envolvimento era o amor dele pelo irmão, ele tinha uma admiração, era seu guru, seu grande ídolo. O vi chorando em várias ocasiões. Minha impressão de repórter é que ele não teria um envolvimento direto. O problema é que ele e toda a família foram apressados em correr com essa versão de crime passional, o que acaba sendo puxado para o meio das suspeitas.
Já que mencionou sua convicção de repórter, quais seriam as suas suspeitas?
Eu cito os sócios e procuradores que PC tinha fora do Brasil, como na Argentina. Ele tinha muito dinheiro na mão de gente de fora e sem contrato. Porque não dava para comprovar a origem desse dinheiro, então estava ali no fio do bigode, com acordos sem papel. Essa dinheirama toda estava na mão de sujeitos muito perigosos. Minha linha de suspeita no livro faz crer que a morte dele esteja muito associada com essa turma de fora, que administrava a maior parte desse dinheiro à época, e não estamos falando de pouco dinheiro. E essas pessoas não foram devidamente investigadas. Por exemplo, o Luis Felipe Ricca (advogado e doleiro argentino), que assina muita papelada e toma conta de dinheiro de PC em bancos fora do brasil, não é devidamente investigado. Meu livro traz muita suspeita em cima dessa turma de fora do Brasil que estava com poder em mexer em dinheiro do PC em bancos na Holanda, no Uruguai. Era muita grana fora, que não podia ser revelada nem pela família nem por ninguém, e que era administrada por gente da pesada. Então aposto muito em gente de fora do Brasil.
Não crê na tese de que Suzana Marcolino tenha se matado, ou mesmo sido morta por um dos seguranças de PC?
Olha, a desconfiança era tanta que teve editor mandando repórter cutucar o cadáver do PC, porque desconfiavam que podia ser armação (risos). Essa tese não é para se descartar. Ela acaba prevalecendo no julgamento oficial. Como o júri não teria como apontar um culpado, acaba dando o direito de clemência aos seguranças. Algum deles pode ter sim assassinado a Suzana, mas como não há como confirmar isso, o juiz acaba dando o voto de clemência. Há um perdão aos seguranças por não haver como culpa-los materialmente, com 100% de certeza. Se você pegar as tintas finais do julgamento, o juiz perdoa a possibilidade de um dos seguranças realmente ter assassinado a Suzana. Não é uma tese maluca.
Recentemente um irmão do PC Farias foi confirmado como suplente de senador de Arthur Lira (PP-AL), ex-presidente da Câmara dos Deputados. A família Farias sempre seguiu na política, correto?
É interessante. Um sonho do próprio PC era formar um clã forte em Alagoas, que ele não tinha. Ele era de família modesta, seu pai Gilberto Farias era um fiscal da Receita Federal, ou seja, de classe média arrediada. O sonho dele era formar um clã que disputasse inclusive com a família Collor, com a família Palmeira, com os Bulhões na época. PC não conseguiu isso por conta do fim do governo Collor, mas seus irmãos continuaram operando na política. Luiz Romero é muito articulado na política de Alagoas, sempre foi, já havia tentado ser suplente e agora foi confirmado como suplente de Arthur Lira. Esse sim, conseguiu fazer um grande clã e agora tenta avançar em outubro ao Senado.
Como começou essa sociedade entre PC e Collor?
Creio que o livro acaba explicando como um governador de um estado pequeno do Nordeste consegue, por um partido pequeno, ganhar uma eleição presidencial. Também está muito explicado como começa a sociedade de PC e Collor, a partir do famoso Acordo dos Usineiros, que envolve isenção tributária e acaba virando a primeira montagem do caixa de campanha que PC Farias fez, ainda no governo estadual.
E quando isso ruiu? Quando o governo caiu?
A queda do Collor está mais ligada à falta de articulação política no Congresso Nacional do que por atos de corrupção. Se o Collor tivesse um Congresso azeitado, se chamasse os líderes para conversar, se fizesse política de verdade, talvez não tivesse caído. Ele ficava mais na bravata, era mais um ator da política, um homem daquele discurso de impacto, do uso da imagem, antes até do bolsonarismo. Não havia rede social, mas Collor usava muito bem a imprensa no sentido de criar factoides e grandes frases. PC contava que fazia acertos, mas o Collor esquecia, não gostava de fazer política. Ele gostava acreditava que uma entrevista na Globo iria salvá-lo, e na hora H não salvou. Sem política não se segura no cargo. Todos esses bastidores estão muito bem contados ao longo da narrativa do livro.
Dá para dizer que PC Farias é a figura de uma época praticamente sem transparência no financiamento de campanhas? O que mudou de lá para cá?
Você foi no gogó da questão, que é o dinheiro, o financiamento de campanha. PC é resultado disso, ele é feito, criado e abastecido como um caixa de campanha. Ele faz toda a história dele, tem muita importância na eleição de Collor como caixa de campanha. Hoje, teve uma mudança substancial que é o fundo partidário. A essência continua a mesma, como repórter temos que ficar de olho em como se dá o mecanismo de operação dos caixas de campanha, quem toca do ponto de vista financeiro. Você não tem mais o financiamento das empresas como algo legal, não pode mais ter empreiteiras, grandes grupos de advocacia fazendo doação como pessoas jurídicas, como era permitido naquela época. Mas você tem esse mesmo financiamento por pessoas físicas. Então, o executivo, o dono da empresa podem doar em nome pessoal. Se pegar a lista de doadores da campanha de 2022, estão Daniel Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel, do Banco Master, como doadores de campanha de quase todos os partidos políticos do país. A sacanagem com o financiamento das campanhas continua, é aí onde está o grande jogo.
Você falou em trapalhadas. Qual a melhor história da PC Faria?
O capítulo que mais me diverti escrevendo é o da fuga, que é espetacular. Ele raspa o bigode, bota peruca e sai escondido de Maceió rumo ao interior de Pernambuco, contrata um grupo especializado em fugas de criminosos, de traficantes na América Latina. Ele parte do Sertão de Pernambuco em um teco-teco, passa pelo Paraguai e chega na Argentina, onde fica os primeiros dias, depois vai para Londres, na Inglaterra. É quando descubro o paradeiro dele, em outubro de 1993. Essa largada é muito interessante, consegue ser engraçada. E os esses detalhes da fuga são completamente inéditos, ninguém sabia de nada até o momento. É quando se dá a combinação com o delegado da Interpol, Édson Oliveira, que estava na mão do PC. É o grande capítulo do livro.
Inclusive atribui-se ao jornalista Roberto Cabrini a descoberta do PC Farias em Londres…
Não. Cabrini faz uma coisa importante que foi a primeira entrevista do PC Farias, exibida no Jornal Nacional no dia seguinte à minha matéria de capa na Folha de São Paulo. Nela eu revelei o destino de PC. A Globo, no dia seguinte, exibiu aquela entrevista espetacular. Mas a revelação do paradeiro do PC foi dada por esse humilde repórter do Ceará (risos).
Qual foi o paradeiro do super avião do PC, conhecido como Morcego Negro?
Aquele avião era comprado em sistema de leasing dos ‘testas de ferro’ de PC de Miami. Depois da morte dele, o avião voltou para a mão dessas pessoas, desse grupo chamado inclusive de Miami Leasing.
Depois que Fernando Collor voltou dos Estados Unidos, ele surpreendeu e disse que votaria em Lula, e anos depois estava com Jair Bolsonaro. Que mutação foi essa?
Na época, todo mundo ficou espantado. Mas o Collor faz um zigue zague medonho depois que volta dos Estados Unidos. Começa lulista, vai para o Bolsonaro em 2018. Ele ficou enrolado no Supremo Tribunal Federal (STF) por conta de uma negociata com a BR Distribuidora, no escândalo do Petrolão. Ele esteve em todos os lados possíveis da política brasileira, até na eleição dele a presidente mesmo. Ele era MDB, aí o PC Farias arruma um partido pequeno, o PRN, depois ele sai pulando em todos os lados possíveis desse trajeto.
Por que Pedro Collor entregou o irmão Fernando Collor?
O motivo inicial é que Pedro não foi agraciado com um lote de benefícios no governo Collor. Pedro queria a Chesf e alguns negócios. PC Farias até concordava em dar uma parte para ele, uma estatal, um agrado ou outro. Tanto que concordou em dar o mesmo agrado ao (outro irmão) Leopoldo Collor, que tinha todo o poder na Caixa Econômica em São Paulo, junto com o deputado Euclides Melo, primo deles. Mas Collor vetou qualquer benefício ao Pedro desde o começo do governo. Pedro era ótimo administrador da TV Gazeta, coisa que Fernando nunca conseguiu ser. E entra também a questão de uma suposta traição com a Teresa Collor, esposa de Pedro, que Collor dava em cima o tempo inteiro e fazia questão de espalhar que tinha algum relacionamento. Então tinham esses dois fatores. E depois, Collor ainda incentiva PC a montar a Tribuna de Alagoas, concorrente da Gazeta, que era cuidada por Pedro. Aí a casa caiu de vez e ele resolve ir para o ataque fatal.
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