Por Gastão Cerquinha Neto*
O termo “emergência sanitária” ganhou destaque durante a pandemia de COVID-19, mas agora pesquisadores defendem que as mudanças climáticas também sejam reconhecidas como uma emergência sanitária mundial.
Um estudo publicado na revista científica The Lancet, elaborado por 146 pesquisadores de 30 países, alerta para a necessidade de ações coordenadas entre os governos. O objetivo é enfrentar os impactos das mudanças climáticas de maneira estruturada, com medidas de preparação, prevenção e adaptação.
Leia maisSegundo o estudo, entre 2016 e 2023, aproximadamente 3 milhões de mortes estiveram associadas ao calor intensificado pelas mudanças climáticas. Os pesquisadores alertam que esses impactos estão aumentando mais rapidamente do que a capacidade de resposta dos países.
Precisamos antecipar os riscos
Os pesquisadores defendem que reconhecer as mudanças climáticas como uma emergência sanitária mundial permitiria fortalecer a cooperação entre os países e incentivar políticas públicas de longo prazo.
Atualmente, os governos ainda enfrentam cada desastre separadamente. Entretanto, o aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos exige maior investimento em monitoramento, sistemas de alerta e preparação da população.
El Niño e os impactos do calor extremo
Um grupo de pesquisa ligado à Universidade de Chicago, desenvolveu uma ferramenta que monitora e projeta os impactos do calor extremo associado ao El Niño sobre a mortalidade humana em diferentes regiões do mundo.
Segundo as estimativas divulgadas para o episódio de Super El Niño analisado, aproximadamente 857 mil mortes poderiam estar associadas ao calor extremo em todo o mundo. Desse total, cerca de 373 mil foram projetadas para um período de seis meses, entre outubro e março.
No Brasil, as projeções indicavam aproximadamente 19 mil mortes associadas ao calor extremo nesse período, com mortalidade acima da média em todos os meses analisados.
O calor e os riscos no Brasil
O calor também preocupa no Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Para este sábado, as previsões indicam temperaturas que podem chegar aos 37 °C em diferentes localidades, enquanto grande parte dessas regiões deverá registrar temperaturas superiores a 30 °C.
As temperaturas elevadas, associadas à baixa umidade do ar e à ocorrência de ventos, também favorecem a propagação de incêndios. Condições com temperaturas acima de 30 °C, umidade relativa inferior a 30% e ventos superiores a 15 km/h podem aumentar significativamente o risco de propagação do fogo, especialmente em áreas com vegetação seca.
Para novembro, a previsão do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) indica temperaturas acima da média em grande parte do país, com algumas regiões podendo registrar anomalias de até 2 °C. Esse cenário reforça a necessidade de acompanhar as previsões e os alertas meteorológicos, considerando os impactos sobre a saúde, o meio ambiente e as atividades econômicas.
Monitorar para proteger vidas
As mudanças climáticas não representam apenas um problema ambiental. Seus impactos já alcançam diretamente a saúde da população, seja pelo aumento da exposição ao calor extremo, pela ocorrência de desastres ou pelo agravamento das condições de vida em regiões mais vulneráveis.
A identificação dos riscos permite que governos e instituições de saúde adotem medidas para reduzir os impactos, como a emissão de alertas, a ampliação do atendimento médico e a proteção de trabalhadores e populações mais expostas às altas temperaturas.

*Engenheiro civil, doutor em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente, é tecnologista do Cemaden (MCTI) em São José dos Campos (SP).
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