As sucessivas ondas de calor registradas em diferentes regiões do planeta, especialmente no Hemisfério Norte, acompanhadas pelo aumento das internações, da mortalidade e dos prejuízos econômicos, consolidaram a climatização como um tema estratégico de saúde pública.
Diante desse cenário, governos, universidades, centros de pesquisa e o setor produtivo intensificaram o debate sobre a ampliação do acesso aos sistemas de climatização, ao mesmo tempo em que aceleram o desenvolvimento de tecnologias voltadas à eficiência energética e à redução dos impactos ambientais.
Leia maisEmbora o consenso sobre a gravidade do problema seja crescente, ainda existem divergências quanto ao papel do ar-condicionado diante das mudanças climáticas. De um lado, especialistas defendem políticas públicas que ampliem o acesso à climatização em residências, escolas, hospitais e ambientes de trabalho, especialmente para proteger idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas. De outro, críticos alertam para o aumento da demanda por energia e impactos ambientais decorrentes desses aparelhos.
Pesquisadores destacam, entretanto, que a discussão não deve ser limitada ao consumo de energia. A prioridade deve ser preservar vidas por meio da adoção de soluções cada vez mais eficientes, sustentáveis e tecnologicamente avançadas.
Qualidade do ar passa a ocupar posição central
Para a Sociedade Brasileira de Meio Ambiente e Controle da Qualidade do Ar de Interiores (Brasindoor) — sociedade científica sem fins lucrativos cujo objetivo é promover estudos, pesquisas e o desenvolvimento de políticas públicas e normas técnicas relacionadas à qualidade do ar em ambientes fechados — os desafios impostos pelo calor extremo vão além do conforto térmico. A qualidade do ar interior tornou-se um fator determinante para a saúde coletiva, sobretudo porque a população permanece aproximadamente 90% do tempo em ambientes fechados.
Considerando que um adulto respira mais de 10 mil litros de ar diariamente, a renovação adequada do ar e a correta filtragem de contaminantes deixam de representar apenas requisitos de conforto para se transformarem em medidas essenciais de prevenção de doenças respiratórias, aumento da produtividade e promoção do bem-estar.
Segundo a entidade, sistemas de climatização projetados conforme as normas técnicas vigentes, associados à renovação mecânica do ar, à filtragem eficiente e à manutenção periódica dos equipamentos, contribuem significativamente para reduzir a concentração de partículas, microrganismos e poluentes presentes nos ambientes internos.
A Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (ABRAVA) também ressalta que, durante períodos de baixa umidade relativa do ar, a utilização criteriosa de umidificadores pode contribuir para o conforto respiratório, desde que os equipamentos sejam higienizados regularmente e utilizados conforme as orientações dos fabricantes.
Evolução tecnológica mudou o conceito de eficiência energética
Para o presidente do Departamento Nacional de Ar-Condicionado (DNAC) da ABRAVA, o engenheiro João Manuel Aureliano, especialista em engenharia de climatização, a percepção de que o ar-condicionado representa necessariamente um grande consumidor de energia já não corresponde à realidade tecnológica do setor.
Segundo ele, a ampla adoção da tecnologia inverter marcou uma transformação significativa na eficiência dos equipamentos. “Os modernos sistemas de climatização utilizam compressores e motores acionados por inversores de frequência, que ajustam continuamente sua capacidade conforme a carga térmica do ambiente. Isso elimina ciclos constantes de liga e desliga, reduz expressivamente o consumo de energia elétrica e proporciona maior estabilidade operacional”, explicou.
Aureliano destacou que essa evolução foi acompanhada por avanços importantes na engenharia dos equipamentos. “Compressores de alta precisão, novas geometrias de trocadores de calor, ventiladores mais eficientes, controles eletrônicos sofisticados e fluidos refrigerantes com menor impacto ambiental elevaram significativamente o desempenho energético dos sistemas atuais”.
Complementando, ele acentuou que a inteligência artificial representa a mais recente etapa dessa transformação tecnológica. “Sensores inteligentes monitoram continuamente temperatura, umidade, qualidade do ar, ocupação dos ambientes e padrões de utilização. Essas informações permitem ajustes automáticos capazes de maximizar o conforto térmico, reduzir o consumo energético e aumentar a vida útil dos equipamentos.”
O diretor acrescentou que os sistemas de climatização deixaram de operar de forma isolada. “A climatização passou a integrar o ecossistema energético das edificações. Hoje, os equipamentos se comunicam com sistemas prediais inteligentes, redes elétricas e plataformas de automação, contribuindo para uma gestão energética mais eficiente e sustentável.”
Para o especialista, o antigo estigma de que o ar-condicionado é um dos grandes vilões da conta de energia vem sendo progressivamente superado pela inovação tecnológica e pela evolução dos critérios de eficiência energética.
Calor extremo exige respostas imediatas
O aumento da frequência e da intensidade das ondas de calor levou diversos países a tratarem a climatização como infraestrutura essencial para a proteção da saúde pública. Na França, autoridades sanitárias vêm alertando para o crescimento das mortes registradas durante episódios de calor extremo, sobretudo entre idosos e pessoas em situação de maior vulnerabilidade que permanecem em residências sem climatização adequada.
Situação semelhante também vem sendo observada na Itália, na Alemanha, no Reino Unido e em outros países europeus, que discutem medidas para ampliar o acesso à climatização em escolas, hospitais, instituições de longa permanência e moradias populares.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que os eventos climáticos extremos tendem a se tornar cada vez mais frequentes, reforçando a necessidade de políticas públicas voltadas à adaptação das cidades, à proteção das populações vulneráveis e à melhoria da infraestrutura urbana.
Brasil também acelera ações
No Brasil, o Ministério da Saúde anunciou a elaboração de um plano nacional para fortalecer a capacidade de resposta do Sistema Único de Saúde (SUS) diante dos impactos provocados pelas mudanças climáticas, incluindo investimentos previstos de R$ 9,8 bilhões. Entre as medidas estudadas estão protocolos específicos para enfrentamento das ondas de calor, ampliação das ações preventivas e fortalecimento das orientações destinadas à população.
A preocupação é justificada pelos resultados de estudo conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pela Universidade Federal da Bahia, que estimou que mais de 120 mil mortes ocorridas entre 2000 e 2019 estiveram associadas às ondas de calor no país. Segundo a pesquisadora Beatriz Oliveira, da Fiocruz, o trabalho inovou ao integrar, em escala nacional, a frequência, a intensidade e a duração das ondas de calor com análises detalhadas sobre seus impactos nas internações hospitalares e na mortalidade.
Os resultados reforçam evidências científicas já consolidadas e demonstram que o calor extremo deixou de representar apenas um desafio climático para se tornar uma das principais questões de saúde pública deste século.
Nesse contexto, investir em climatização eficiente, qualidade do ar interior, inovação tecnológica e infraestrutura resiliente significa, acima de tudo, investir na preservação da vida. Motivo pelo qual o Brasil também tem seu Plano Nacional de Qualidade do Ar Interior – o PNQAI.
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