A cantora Vannick Belchior, filha caçula de Belchior, escreveu uma emocionante carta aberta ao pai por ocasião dos 80 anos que o cantor e compositor cearense completaria se estivesse vivo. Recentemente, entrevistei Vannick no Sextou, programa musical que ancoro às sextas-feiras, no lugar do Frente a Frente. No texto, ela fala sobre a dimensão alcançada pela obra do pai, a relação com o legado artístico que recebeu e a construção da própria trajetória como cantora.
Na homenagem, Vannick também aborda a ligação de Belchior com o Nordeste, recorda músicos que fizeram parte da história do pai e hoje participam de sua carreira e conta sobre a gravação do primeiro disco. “Carrego teu legado com amor e responsabilidade, mas quero fazer dele uma ponte, não uma fronteira”, escreve.
Leia, abaixo, a carta na íntegra:
Leia maisCarta aberta ao meu pai, nos seus 80 anos
Pai,
Eu tô muito feliz por poder te dar continuidade artística e criativa justamente no ano em que você completaria 80 anos. Queria tanto que você estivesse aqui para ver as homenagens feitas em torno de você e da sua obra, hoje uma das mais importantes do Brasil, da América Latina e, quiçá, como diz esta tua filha caçula e amante incondicional do teu trabalho, do mundo.
Filósofo, pensador, poeta, compositor, artista arrebatador e de canto cortante: esse é você, meu pai. Um dos artistas mais aclamados e revisitados da música brasileira, alguém que parece crescer a cada ano, como se o tempo, em vez de nos afastar, nos aproximasse ainda mais da dimensão do que você fez.
É bonito ver você sendo conhecido pelo Brasil. Às vezes, me pergunto o que será melhor: ser descoberto pelo país ou ser redescoberto numa dimensão que talvez nem você imaginasse em vida. Sim, é possível. São blocos de carnaval, multidões, fantasias, bigodes espalhados pelas ruas, camisas listradas e sua imagem estampada em corpos de diferentes gerações.
Existe em você uma mistura de juventude, irreverência, força e inconformismo que atravessou décadas e continua encontrando novos caminhos. Você permanece jovem, pai: na inquietação, na coragem de dizer o que precisa ser dito e na capacidade de nos tirar do lugar.
O Nordeste também mudou. Hoje somos muito mais do que a ficção que tantas vezes fizeram de nós. Somos pensamento, invenção, inteligência, arte e futuro. Ainda lutamos contra o preconceito e contra as tentativas de diminuir nossa força, nosso saber e nossa maneira de enxergar o Brasil. Ainda precisamos afirmar que o Nordeste não é margem: é centro, origem, linguagem e mundo.
E tua música mudou muita coisa. Você ajudou a abrir caminhos para que nossa voz chegasse mais longe, sem pedir licença para existir.
Sou grata pela herança sanguínea de luta, pela vontade de permanecer, insistir e continuar nas estradas pelo Brasil, fazendo música e encontrando pessoas. Sou grata também por conhecer teus amigos, ouvir suas histórias e me aproximar um pouco mais de você através desses encontros.
E eu tô aqui, pai. Tua filha caçula, a única cearense, a única nordestina, seguindo a estrada que, de alguma maneira, a gente sonhou. Te dando continuidade dentro da obra, mas também na vida, na luta dos palcos e nesse ofício tão bonito e difícil que é ser cantora. Descobrindo minha própria voz, minha maneira de criar, interpretar, pensar e existir artisticamente.
E olha só: nós gravamos meu primeiro disco! Meu trabalho de maior fôlego até agora, concebido a partir das minhas ideias, da minha direção artística e da minha vontade de criar.
E sabe o que é impressionante? A própria vida se encarregou de colocar no meu caminho musical pessoas muito especiais para você, como Tarcísio Sardinha, Lu D’Sosa, Sérgio Zurawski — teu querido amigo e parceiro musical —, Rick Ferreira, Fernando Pacheco e tantos outros que fizeram parte da tua história e hoje também fazem parte da minha.
Isso é mágico, pai. É a vida mostrando sua força em cada encontro, criando continuidades que a gente nem sempre consegue explicar.
Nesse disco, um grande amigo teu canta comigo. Talvez você nunca imaginasse que isso aconteceria: eu e Renato Teixeira dividindo uma canção que, misteriosamente, fala de “Tudo Outra Vez”.
E sei que você também gostaria da ousadia que trouxe para “Meu Cordial Brasileiro”, ao lado do rapper cearense Don L, que representa um universo ligado à minha geração, às minhas inquietações e à minha maneira de olhar o mundo.
Você sempre foi inovador, aberto ao novo e disposto a aproximar mundos, gerações e linguagens. Afinal, gravar Luiz Gonzaga em rock, como você fez em “Forró no Escuro”, não é para qualquer um!
Neste ano dos teus 80 anos, celebro a possibilidade de olhar para tua obra não apenas como filha, mas como artista. De mergulhar nela com minhas próprias ideias, direção e sensibilidade. De conversar com aquilo que você deixou sem deixar de dizer o que é meu.
Porque dar continuidade não é repetir: é compreender a força de uma semente e permitir que ela floresça de outras maneiras.
Queria que você pudesse assistir a tudo isso, ver os encontros, ouvir os aplausos e conhecer as pessoas que chegam até mim porque te amam. Queria te contar das estradas, dos shows, dos medos e da força que aparece quando as luzes se acendem.
Queria dizer que sigo aprendendo e que, mesmo diante das incertezas, escolhi continuar.
A vida de artista não é feita apenas de aplausos. É feita de insistência, coragem, trabalho, tropeços e recomeços. É preciso sustentar a própria voz, inclusive quando ela treme, e aceitar o risco de ser vista, ouvida e julgada.
Nessa caminhada, descobri que honrar você também é honrar a mim mesma.
Sigo por aqui, aguerrida pela música popular brasileira, pela tua obra e pelo meu próprio processo de descoberta. Descobrindo-me mulher, cantora e artista. Ainda há muito a revelar dentro da minha voz, da minha sensibilidade e da artista que continuo me tornando.
Sou sua filha, mas também uma artista em construção, com desejos, perguntas, inquietações e canções próprias, nascidas das minhas experiências de vida.
Carrego teu legado com amor e responsabilidade, mas quero fazer dele uma ponte, não uma fronteira. Quero que as pessoas cheguem até você através de mim e que também cheguem até mim através do que sou capaz de criar.
E sei que você teria orgulho disso.
Obrigada, pai, por representar tanto, por traduzir um país com suas contradições, dores, desejos e esperanças. Por cantar o povo brasileiro com honestidade e transformar tua experiência em palavras nas quais tantas pessoas se reconhecem.
Obrigada por dar voz ao que tantas vezes não conseguia ser dito e por olhar para o Brasil e para o Nordeste sem esconder suas feridas nem sua grandeza.
Aos 80 anos, você segue encontrando o futuro. E eu sigo encontrando meu lugar no mundo, levando comigo tua palavra, nossa terra e a certeza de que a arte não termina quando termina uma vida. Ela se transforma, encontra outras vozes e atravessa gerações.
Feliz aniversário, pai. Feliz 80 anos.
Que tua obra continue provocando, emocionando e abrindo caminhos. E que eu siga caminhando ao lado dela, honrando o que recebi de você e descobrindo tudo aquilo que também posso oferecer.
Com todo o meu amor,
Tua filha caçula,
Vannick Belchior















