Da Opera Mundi
Moradores de Itacaré, no litoral sul da Bahia, impediram que um grupo de turistas israelenses destruísse um mural de solidariedade ao povo palestino, produzido coletivamente por artistas, estudantes e integrantes da comunidade local.
A tentativa de vandalismo ocorreu na última sexta-feira (30), poucas horas depois da conclusão da intervenção artística, realizada em um casarão histórico da cidade. O episódio reacendeu denúncias de racismo, discriminação e comportamentos considerados abusivos por parte de visitantes estrangeiros.
Leia maisSegundo reportagem de Afonso Bezerra, publicada pelo Brasil de Fato, o mural foi organizado pela Frente Palestina do Sul da Bahia como parte de uma mobilização em defesa do chamado “turismo ético”. A iniciativa reuniu pinturas, cartazes e mensagens de apoio à população palestina, além de críticas ao colonialismo e às violações de direitos humanos. O imóvel escolhido para receber a intervenção havia sido alugado recentemente por um grupo de israelenses, conforme relatos dos organizadores.
A professora Mariá Veiga, moradora de Itacaré e coordenadora da Frente Palestina do Sul da Bahia, explicou que a manifestação ganhou uma dimensão maior do que a inicialmente planejada, com a participação espontânea de artistas e pessoas que circulavam pela região.
“No dia do ato, estava tendo também um evento cultural, muita gente passando na praça, estava tendo a Flicaré, que é uma feira de livros que a gente tem aqui em Itacaré, com muitas pessoas interessantes, arte para tudo que é lado. E aí vários artistas começaram a chegar, cada um querendo expressar um pouco da sua indignação, e ficou um painel bem maior daquilo que eu combinei”, relatou.
Moradores impediram destruição do mural
De acordo com Mariá, a tentativa de vandalismo ocorreu depois que os responsáveis pela mobilização já haviam deixado o local. Um grupo de aproximadamente sete turistas israelenses se dirigiu ao casarão com a intenção de danificar as mensagens pintadas nas paredes.
A movimentação foi percebida por moradores que estavam na praça, que intervieram para impedir a destruição da obra. Segundo a ativista, não havia integrantes da organização pró-Palestina no momento da abordagem.
“Um grupo, que devia ter umas sete pessoas vestidas com as vestimentas tradicionais, foi caminhando até o casarão com a proposta de danificar o mural feito pelos moradores, pelos artistas, pelos estudantes, pela comunidade. Eles foram com essa intenção. E aí os próprios nativos, não estávamos nós, ativistas, nada disso. As próprias pessoas que estavam na praça protegeram o mural, porque as pessoas ficaram felizes com aquele mural ali”, afirmou.
Após o episódio, a Frente Palestina do Sul da Bahia divulgou imagens e relatos nas redes sociais, denunciando a tentativa de destruição da intervenção artística. “Podem tentar calar a parede, mas a nossa história não será apagada”, declarou a organização em uma das publicações.
Casarão histórico se torna centro de disputa
O imóvel onde o mural foi produzido possui importância cultural para Itacaré. Segundo a Frente Palestina do Sul da Bahia, o casarão já abrigou uma escola de música e integra a memória cultural do município.
Nos meses anteriores à manifestação, o espaço estava alugado a um grupo de israelenses. Ativistas afirmam que o imóvel vinha sendo utilizado de maneira irregular e para atividades que, segundo eles, promoviam ideias racistas, supremacistas e sionistas. Essas acusações foram apresentadas pela organização e não tiveram comprovação independente na reportagem original.
O proprietário do casarão havia autorizado inicialmente a realização da intervenção artística. Entretanto, depois da repercussão, solicitou aos organizadores que retirassem as mensagens das paredes.
De acordo com a Frente Palestina do Sul da Bahia, a mudança de posicionamento ocorreu após pressões de empresários locais contrários à manifestação.
A organização interpreta o episódio como parte de um conflito mais amplo entre moradores que defendem limites à atuação dos visitantes e setores econômicos interessados na manutenção do fluxo turístico internacional.
Ativistas denunciam racismo e desrespeito a trabalhadores
Itacaré é um dos destinos turísticos mais conhecidos do litoral baiano e recebe visitantes de diferentes países, incluindo um contingente significativo de israelenses.
A presença desses turistas, entretanto, tem sido acompanhada por denúncias de moradores e movimentos sociais sobre episódios de discriminação, desrespeito a trabalhadores e comportamentos considerados intimidatórios.
Mariá Veiga afirma que parte dos visitantes possui experiência anterior nas Forças Armadas de Israel e, segundo sua avaliação, reproduz atitudes autoritárias durante a permanência no município.
“Depois de servir ao exército, eles têm um ano sabático. Eles têm que se desestressar. E, no lugar deles voltarem para Israel, o governo israelense manda eles para fora, para outros lugares, para que eles se desestressem e voltem preparados para viver em sociedade. Então, quando eles chegam a Itacaré, eles continuam achando que estão dentro de um campo de guerra”, declarou.
A afirmação sobre um suposto envio de ex-militares ao exterior pelo governo israelense corresponde à interpretação apresentada pela ativista, sem confirmação independente nas informações divulgadas.
A coordenadora também relatou episódios em que trabalhadores locais teriam sido submetidos a ofensas racistas e humilhações por visitantes. “Eles tratam muito mal as pessoas. Eles são racistas, misóginos e supremacistas. Eles fazem coisas, assim, que são inaceitáveis. E muitas vezes tentam disfarçar. Dizer que não estão fazendo, mas fazem. Às vezes eles ficam falando no idioma deles e xingam a pessoa, estão chamando a pessoa de macaco ou de escravo. A pessoa não entende, continua trabalhando, fazendo trabalho para eles”, afirmou.
As denúncias se referem a comportamentos atribuídos a determinados visitantes e não representam uma caracterização da população israelense em geral.
Manifestação anterior terminou em confronto e prisões
As tensões entre movimentos sociais e grupos favoráveis à presença de turistas israelenses em Itacaré já haviam provocado episódios de confronto.
Em março de 2026, a Frente Palestina do Sul da Bahia promoveu uma manifestação no centro da cidade para denunciar supostas violações de direitos e defender relações mais respeitosas entre visitantes e a população local. O ato contou com a participação do ativista Thiago Ávila, conhecido por sua atuação em defesa da causa palestina.
Na mesma ocasião, comerciantes e empresários organizaram uma mobilização simultânea em apoio aos turistas israelenses, em meio a preocupações sobre possíveis impactos econômicos das manifestações.
Os grupos se encontraram na mesma região, e a situação terminou em confronto. Três jovens, com idades entre 22 e 23 anos, foram detidos por desacato e posteriormente liberados pela polícia.
Segundo os organizadores da manifestação pró-Palestina, a mobilização tinha como objetivo questionar a presença de pessoas vinculadas às Forças Armadas israelenses no município e cobrar respeito à população e à cultura local.
Turismo e economia local estão no centro do debate
A controvérsia ocorre em uma cidade cuja economia depende significativamente da circulação de visitantes e das atividades relacionadas à hospedagem, alimentação e comércio.
Para setores empresariais, a presença de turistas estrangeiros representa uma fonte importante de receitas, especialmente durante a alta temporada. Movimentos sociais, por outro lado, defendem que a atividade turística deve respeitar os direitos da população local e não pode servir de justificativa para episódios de discriminação ou intimidação.
A Frente Palestina do Sul da Bahia afirma que as manifestações não têm como objetivo impedir a presença de visitantes estrangeiros, mas estabelecer limites de convivência e denunciar comportamentos considerados abusivos.
Na avaliação dos organizadores, a produção do mural também buscou tornar visível a solidariedade de parte da população de Itacaré aos palestinos, em meio à continuidade do conflito no Oriente Médio.
Movimento defende respeito à cultura e à população de Itacaré
Após a tentativa de vandalismo, a organização reafirmou nas redes sociais que a cidade deve continuar recebendo turistas, desde que sejam respeitados os moradores, a história e as manifestações culturais locais.
“Um recado para todos que escolhem Itacaré como destino: sejam bem-vindos, mas venham com respeito. Respeitem nosso povo, nossa cultura, nossa história e nossa território”, afirmou a Frente Palestina do Sul da Bahia em uma publicação. “Itacaré acolhe, mas não se curva”, acrescentou o movimento.
A tentativa de destruição do mural e a reação dos moradores evidenciaram a disputa em torno do uso dos espaços públicos e da presença de manifestações políticas em um dos principais destinos turísticos do litoral sul da Bahia.
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