Lula está desconfortável. Não é hipótese abstrata, mas leitura minuciosa dos sinais emitidos pelo próprio presidente nas últimas semanas, com intensidade que contrasta com o estilo de quem se considera imbatível.
O primeiro sinal é o tom. Lula 1 e 2 tinham a característica de uma retórica mais inteligente e eficiente, mesmo diante de dificuldades enfrentadas logo no início do primeiro mandato, como a crise do vídeo no qual o assessor do então ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, pede dinheiro ao bicheiro Carlinhos Cachoeira. Naquele momento, tínhamos Lula mais confiante, capaz de reagir com altivez no debate em que o então candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, hoje seu vice, exigiu explicações sobre escândalos de corrupção na campanha de 2006. Superou tudo e foi reeleito.
Mas o clima mudou. O Lula do silêncio calculado e o Lula jogador de poker saíram de cena. Do alto dos seus 80 anos (ele completará 81 em outubro), adota discursos cada vez mais inflamados. Sobe o tom quando desata a falar nos palanques e eventos do governo, usa linguagem de campanha em pronunciamentos institucionais e faz ataques nominais aos desafetos.
Quem está na frente não precisa gritar. Quem grita e xinga, geralmente, está tentando convencer a si mesmo. Lula costuma andar de um lado para outro quando discursa, revelando ansiedade do velho que quer parecer moço, o que inspirou o presidente Trump a defini-lo como “dinâmico”. Poucos entenderam a ironia.
O segundo sinal é mais revelador ainda: a disputa pelo Pix. O presidente sempre falou da “herança maldita” de Bolsonaro. Agora, passou a defender abertamente uma das marcas mais populares da gestão anterior: o Pix. Podem dizer que foram os técnicos do Banco Central os criadores e que desde a época de Dilma o assunto era discutido, mas quem botou de pé e fez funcionar foi Jair Bolsonaro. Essa guinada estratégica, não ideológica, tem marcado a campanha lulista.
Lasswell mostra que quando um ator político abandona posições anteriores para apropriar-se do capital simbólico do adversário, sinaliza que o adversário acumulou valor que ele não pode mais ignorar. É a política da distribuição funcionando às avessas. Em vez de distribuir benefícios para conquistar apoio, trata-se de redistribuir narrativas para não perder o que já tem.
O terceiro sinal: ele vestiu a camisa. Lula convocou a militância a usar o uniforme verde e amarelo da seleção, marca registrada da oposição bolsonarista ao longo dos últimos 10 anos. E o fez declarando que “isso não é exclusividade do genocida”, revelando as dores de uma batalha simbólica que o PT perdeu no campo e agora tenta recuperar no discurso. Mas há ironia cruel nesse movimento: ao reivindicar a camisa da seleção, Lula reconhece implicitamente que a perdeu. Ninguém briga por território que já ocupa.
O quarto sinal é o mais grave. Durante evento em Goiás, Lula comparou os filhos de Jair Bolsonaro ao delator da Inconfidência Mineira e perguntou à plateia o que mereceriam os traidores, numa referência ao enforcamento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Mas cometeu o ato falho de confundir o mártir com o delator Joaquim Silvério dos Reis, personagem deste meu artigo de 2024. Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e principal adversário eleitoral de Lula, acionou o STF, por considerar a fala do presidente uma ameaça e incitação ao crime.
A cena merece ser vista também sob o ponto de vista de Faoro. O estamento burocrático que “Os Donos do Poder” descreve não se define só por ocupar o Estado, mas por tratar o Estado como extensão de si mesmo, por confundir poder público com poder pessoal. Quando o presidente sugere em evento governamental, ainda que por metáfora histórica torta, que seu adversário merece a forca, não estamos diante de um excesso retórico qualquer.
Não é por causa do encontro entre Trump e Flávio na Casa Branca, muito menos pelas tarifas de 25% sobre certos produtos brasileiros. É um ato típico de quem sente escapar das mãos o controle da máquina. Quando um poderoso se sente ameaçado, arreganha os dentes antes de mostrar os argumentos.
Há uma diferença fundamental entre o Lula de 2002 e o Lula de 2026. Era desafiante, nada tinha a perder e tudo a ganhar. Hoje, é incumbente. E incumbente quando adota comportamento de desafiante, se tornando agressivo, territorial, disposto a jogar fora o protocolo, geralmente o faz pela simples razão de perceber que a incumbência em si não é mais a grande vantagem.
Lasswell diria que Lula luta para manter valores que acumulou, como poder, prestígio, capacidade de influenciar quem recebe o quê. Faoro seria mais ácido: é o momento em que o estamento percebe que o controle da máquina pode mudar de mãos, reagindo com os instrumentos disponíveis, legais ou não, elegantes ou não.
Aplicada ao Brasil de 2026, a síntese dos 2 pensadores indica insegurança tremenda. Lula vê nossos vizinhos trocarem a esquerda pela direita, como em Chile, Argentina, Paraguai, Peru, Equador e agora deve se repetir na Colômbia. A Venezuela está sob controle norte-americano e Cuba foi engolida pela própria decadência. E há a pressão de Trump.
Lula sabe que vivemos o fim de um ciclo. Tudo muda rápido e sem controle. As pesquisas podem mostrar empate ou vantagem. Mas não mostram o que se passa no âmago do presidente. Outro dia num evento, ele foi chamado de “velhinho barbudinho”, reagiu bem, mas aquilo desceu arranhando.
Muita coisa pode acontecer até 4 de outubro. O medo de perder poderá passar, mas ninguém duvida de que os nervos permanecerão à flor da pele.
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