Por Luiz Queiroz – Capital Digital
Enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirma que o Brasil não pretende continuar como simples vendedor de matéria-prima e quer se tornar exportador de conhecimento, tecnologia e produtos industrializados, uma corrida silenciosa já está redesenhando o controle empresarial das terras raras brasileiras.
Entre os oito empreendimentos mais maduros identificados pelo Capital Digital, apenas um está em produção comercial. Todos são conduzidos, controlados ou estão em processo de integração com grupos estrangeiros, principalmente australianos, canadenses e norte-americanos. Ao redor deles, pelo menos outras 20 frentes de exploração e projetos ainda iniciais revelam a disputa para assegurar, desde agora, direitos sobre áreas consideradas estratégicas.
Leia maisO Brasil preserva formalmente a soberania sobre seu subsolo, uma vez que os recursos minerais pertencem à União e sua pesquisa e exploração dependem de autorização pública. O que ainda não está assegurado, entretanto, é o controle nacional sobre a cadeia econômica e tecnológica construída a partir desses recursos.
O contraste ganhou força depois de Lula reunir ministros e representantes do setor na sexta-feira (10) e declarar que o Brasil não quer ser apenas vendedor de minerais. Segundo o presidente, a estratégia será transformar o país em exportador de conhecimento e estabelecer parcerias que assegurem pesquisa, processamento e agregação de valor em território nacional.
O diagnóstico preparado para subsidiar a Estratégia Nacional de Terras Raras reconhece exatamente esse risco. O estudo apresentado pelo Ministério de Minas e Energia estima que o Brasil concentra 21 milhões de toneladas em reservas, equivalentes a 23,1% dos recursos globais considerados no documento, mas lembra que o país já extraiu e exportou terras raras no passado sem capturar o valor das etapas industriais posteriores. A repetição do modelo de exportação de recursos pouco processados é apontada como o risco estratégico central.
Corrida regulatória
A pressão sobre as áreas brasileiras aparece com clareza nos dados da Agência Nacional de Mineração. Em 2025, foram protocolados 655 requerimentos relacionados à pesquisa de terras raras. Apenas entre janeiro e 8 de junho de 2026, outros 401 pedidos deram entrada na agência. Os números não representam necessariamente 1.056 empresas diferentes nem o mesmo número de futuras minas, porque uma única companhia pode apresentar dezenas de requerimentos para áreas distintas. Ainda assim, demonstram que a disputa por direitos de pesquisa se intensificou.
O requerimento é apenas o início do processo. O interessado pede à ANM o direito de pesquisar determinada substância em uma área delimitada. Caso obtenha a autorização, deverá realizar trabalhos geológicos, comprovar a existência do depósito, apresentar relatório de pesquisa, demonstrar viabilidade econômica, obter licenciamento ambiental e requerer a lavra. Grande parte dos pedidos nunca chega à produção.
A explosão de protocolos, portanto, não permite afirmar que o Brasil terá centenas de minas de terras raras. Ela mostra outra coisa: companhias estão tentando conquistar prioridade sobre áreas promissoras antes que o governo conclua sua política nacional e antes que a concorrência internacional aumente ainda mais.
O Capital Digital identificou oito projetos com estágio mais avançado, recursos divulgados ou atividade regulatória relevante. Ao redor deles, pelo menos outras 20 iniciativas, depósitos ou frentes exploratórias aparecem em apresentações empresariais, registros minerários e programas de pesquisa. Nem todas possuem recurso mineral formal, estudo econômico ou autonomia suficiente para serem classificadas como grandes empreendimentos. Juntas, porém, demonstram que a ocupação das novas fronteiras minerais já se estende por Goiás, Minas Gerais, Bahia, Amazonas, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.
Nos projetos mais avançados, a extração poderá ocorrer em território brasileiro, mas parte das etapas que concentram maior valor, como separação química, purificação, fabricação de metais, ligas e ímãs permanentes, já está sendo projetada para os Estados Unidos ou para outras instalações no exterior.
Fica a indagação, neste caso: como o governo brasileiro tratará esses empreendimentos levando em conta as informações acima e o desejo de atrair investimentos estrangeiros para o país, na cadeia de maior valor comercial (separação química, purificação, fabricação de metais, ligas e ímãs permanentes)? Clique aqui e confira a matéria completa.
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