Por Antonio Magalhães*
Guardar segredos de poderosos é um grande risco. O guardião de dados secretos para fins de chantagem ou ameaças pode ser preso, torturado e até perder a vida. Assim mostra a história da queima de arquivos humanos, como o assassinato de PC Farias, o sequestro e a morte do prefeito petista de Santo André (SP) Celso Daniel e o suposto suicídio do abusador sexual americano Jeffrey Epstein, promotor de encontros de poderosos dos EUA e do Reino Unido com mulheres jovens.
Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, enquadra-se bem neste risco. A distribuição de favores e dinheiro em troca de acessos e negociatas milionárias pode levar o banqueiro, hoje sem banco, ao pior dos infernos caso falhe a proteção dada a ele até agora por quem lhe é devedor. O seu assistente para assuntos de espionagem, conhecido como Sicário, um arquivo humano de informações, foi a primeira vítima fatal das falcatruas de Vorcaro: a Polícia Federal informou que o bandido se suicidou no xadrez da PF e ninguém viu como isso aconteceu.
Leia maisComo vem sendo noticiado, o que mexeu com os hipócritas corruptos foram os telefones celulares de Daniel Vorcaro: objetos de destruição ou de ocultação, que abrigam provas de ligações discretas e indiscretas, comprometendo gente influente dos Três Poderes da República. Pelo nível de negócios e articulações do ex-banqueiro enganador, é inconcebível que ele tenha se descuidado ou propositadamente orientado a se descuidar da guarda dos aparelhos, resultando na apreensão deles e na decodificação pela PF das mensagens criminosas.
Decifradas as mensagens, liberadas pelo menos parcialmente pouco a pouco, elas vêm mostrando os caminhos criminosos de chantagens, extorsões, ocultação ilegal de bens e lavagem de dinheiro manipulados pelo “laranja” Vorcaro. Só um idiota acreditaria que celulares armazenariam dados sensíveis sem uma forte proteção cibernética de tantas informações reservadas e explosivas, inclusive de orgias sexuais e catalogação das propinas com valores e nomes. Há indícios de informações muito mais graves ainda não reveladas, que estão bem guardadas longe do olho do furacão. Elas são um seguro de vida para Vorcaro contra a legião de inimigos expostos.
Não dá para esquecer que os executores de Paulo César Farias, o PC, operador financeiro de Fernando Collor na captação de propinas, foram pacientes depois do fechamento do cofre público com o impeachment do então presidente em 1992. Aproveitaram o show de ingratidão de quem estava no esquema. O PC foi abandonado. Fugiu para a Europa e terminou preso em 1993 pela PF na Tailândia. Condenado pelo STF em 1994 a sete anos de prisão, um ano depois, já estava em regime aberto só com a obrigação de recolhimento à noite em casa e nos feriados e fins de semana.
Em 23 de junho de 1996, PC foi encontrado morto na sua casa em Maceió, ao lado da namorada Suzana Marcolino. O caso gerou muita controvérsia e segue sem uma resposta definitiva, embora a versão oficial inicial tenha apontado para crime passional (Suzana matou PC e se suicidou), laudos posteriores sugeriram duplo homicídio, e um julgamento em 2013 absolveu os seguranças acusados, deixando desconhecido o verdadeiro autor do crime. PC estava com audiência marcada para alguns dias à frente no Congresso para falar sobre o caso Collor.
Outro na lista de queima de arquivo foi o então prefeito de Santo André, Celso Daniel, do PT. Ele foi encontrado morto no dia 18 de janeiro de 2002, na Região Metropolitana de São Paulo, dois dias após ser sequestrado. O político tinha 50 anos e, conforme apontou a perícia à época, foi torturado e atingido com oito tiros. A versão oficial do Ministério Público e da Polícia Civil do governo Geraldo Alckmin apontou a prática de um crime comum.
Logo no início, os irmãos de Celso Daniel contestaram a primeira versão da polícia, afirmando se tratar de um crime político. Para eles, Celso era conivente com um esquema que desviava dinheiro para o PT, que teria contado com a participação do então deputado federal e presidente da legenda José Dirceu e do então secretário de Governo de Santo André, Gilberto Carvalho. O prefeito decidiu acabar com os desvios e denunciá-los, fato que teria causado seu assassinato, segundo seus irmãos. No rastro do crime, outras seis pessoas que tiveram algum tipo de vínculo com os acontecimentos relacionados à morte de Celso Daniel foram assassinadas em dois anos. O livro do ex-delegado da Polícia Civil de SP, Romeu Tuma Júnior, Assassinato de Reputações, contou a versão não oficial que apontou o crime como queima de arquivo.
Já o norte-americano Jeffrey Epstein, financista e cafetão de mulheres jovens, algumas com menos de 15 anos, para figurões como Bill Clinton, Bill Gates, o príncipe britânico Andrew, dava festas grandiosas e orgíacas nas suas casas em Nova Iorque, Paris e na sua ilha no Caribe. O que rolava no “after” era tudo gravado por ele. Um investimento para o futuro do chantagista. Circulava bem nos meios econômicos e políticos, inclusive chegou a ser fotografado com o então empresário Donald Trump, hoje presidente dos EUA.
Em 2005, ele foi preso pela polícia da Flórida a partir da denúncia de uma mãe que relatou o abuso sexual contra sua filha de 14 anos. Autoridades federais identificaram 36 meninas menores vítimas de Epstein e seus clientes. Finalmente ele foi preso novamente em 6 de julho de 2019, sob acusações federais de tráfico sexual de menores, e morreu em sua cela na penitenciária de segurança máxima em 2019. O laudo oficial apontou o suicídio por enforcamento com o lençol amarrado a seu beliche. A versão corrente na América é que os golpes e os envolvidos com as extravagâncias estariam registrados em cadernos e vídeos. Pouco vazou desse material, mas agora não importa mais para Epstein, que está morto, importando só para os vivos assustados com o fantasma da reputação abalada.
Portanto, se Daniel Vorcaro, dileto discípulo de Jeffrey Epstein, se sente seguro hoje por conta dos segredos ainda retidos em cofres secretos do seu patrocinador, pode, mais tarde, em determinado momento, ser abandonado com o avanço das investigações. E aí o futuro é imprevisível quanto à garantia da sua vida contra a vingança de quem foi atingido pelo justo — só nesse caso — demolidor de reputações. PC tinha quatro homens armados para sua proteção. Celso Daniel se sentia protegido por seu partido. Epstein pensava ser intocável. E o Sicário confiava na proteção dada pelo chefe bem articulado com o poder. No final, todos morreram. É isso.
*Jornalista
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