Por Larissa Rodrigues
Do Blog Efeito Político
Este é daqueles textos que nenhuma jornalista gostaria de escrever. Sendo mulher, é ainda mais pesado analisar a fala mais indefensável de todos os tempos vinda justamente da primeira mulher a comandar Pernambuco, um Estado libertário e rebelde por natureza, a terra das Heroínas de Tejucupapo.
Mas, quando se pensava que já tinha se visto todo tipo de absurdo na campanha para o Governo de Pernambuco em 2026, como gabinete do ódio liderado por servidor estadual, pix para comentários favoráveis à governadora Raquel Lyra (PSD) e panfletos apócrifos que até hoje não tiveram suas origens bem explicadas, eis que, neste domingo (20), faltando 15 dias para o primeiro turno das eleições, o eleitorado pernambucano se depara com o horror de ver uma mulher defendendo laqueadura em outra mulher “sem ela saber”.
Leia maisA mulher que defende a laqueadura em outra mulher sem consentimento, pasmem, é a própria governadora Raquel Lyra, em um vídeo de 2025, quando houve a inauguração da ala pediátrica do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns (Agreste). “Mas faz sem ela saber! Vai!”, diz Raquel, após ouvir de uma pessoa que aparenta ser funcionária da unidade o relato sobre uma paciente que estaria novamente grávida e já teria sete filhos.
São tantas camadas aqui de absurdo que é inevitável sentir repulsa com a fala, uma indignação que todos podem e devem sentir, mas sendo mulher é ainda mais doído. Como pode ser aceitável defender que uma mulher seja esterilizada sem saber, sem consentir, simplesmente acordar de uma cirurgia e ter seu corpo modificado sem sua expressa autorização? Como? Sob qual justificativa essa violência teria amparo? Ninguém, absolutamente ninguém tem direito de modificar o corpo de outra pessoa sem consentimento, nem familiares, nem médicos, e muito menos o Estado.
Quando a governadora do Estado diz algo do tipo ela está chancelando que o Estado possa se apropriar de uma decisão que só pertence à própria mulher, independentemente das condições em que essa mulher se encontre. A fala de Raquel Lyra produz o que há de pior na política: a desumanização das pessoas economicamente vulneráveis, ou você, leitor/leitora, acredita que a governadora seria capaz de sugerir a laqueadura de uma mulher “sem ela saber” que estivesse internada em hospitais particulares? Mulheres de classe média, classe média alta ou ricas jamais veriam a governadora sugerindo esterilização compulsória, porque essas são “consideradas humanas” e têm direito de tomarem as próprias decisões.
No entanto, na cabeça de uma governadora repleta de privilégios de todos os tipos e que claramente não enxerga a mulher periférica como igual em direitos é aceitável desumanizá-la ao ponto de fazer nela uma laqueadura “sem ela saber”. É estarrecedor e por mais que Raquel Lyra evite associação com a extrema direita, mesmo tendo representantes em seu palanque, sua fala é semelhante aos piores absurdos já proferidos pelos fascistas. Que diferença Raquel Lyra acha que tem das mulheres periféricas?
Como se sentiria a governadora ao acordar de uma cirurgia e tomar ciência de que nela fora feita uma laqueadura “sem ela saber”? Essa é a pergunta que a governadora e também sua vice, Priscila Krause (PSD), devem se fazer. Além disso, devem se questionar por qual razão uma laqueadura sem consentimento seria inaceitável nelas, mas é aceitável na paciente da rede pública. Raquel e Priscila devem uma explicação às mulheres de Pernambuco. Mais, devem desculpas.
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