Dos perdedores, a quem Raquel vai estender a mão?
Quando a governadora Raquel Lyra (PSD) voltar do seu passeio pela Europa encontrará um ambiente de muita ansiedade entre seus aliados que não lograram êxito nas urnas e que sonham acordados com um lugar ao sol para sobrevivência política. Pela primeira vez no Estado uma gestora é reeleita sem puxar um só senador da sua chapa.
Enquanto João Campos (PSB), derrotado por ela, comemora com Lula em Brasília a eleição dos seus dois senadores – Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT) – a governadora se vê diante de um cenário desafiador para abrigar em sua gestão políticos da dimensão de Eduardo da Fonte (PP), não eleito senador, e Túlio Gadelha (PSD), que trocou uma reeleição de federal certa por uma aventura ao Senado.
Leia maisAventura, diga-se de passagem, criada, estimulada e fomentada pela própria governadora, na tentativa inútil de dar uma conotação mais à esquerda na sua chapa, pela ligação de Túlio com o presidente Lula e segmentos da base de apoio do presidente no Congresso.
Há também Miguel Coelho (UB), que não conseguiu chegar à Câmara dos Deputados. Isso sem falar de “aliados” que complicaram a chapa majoritária governista, como é o caso de Mendonça (PL), às turras com o deputado Lula da Fonte (PP), filho de Eduardo. Raquel não apoiou oficialmente Mendonça, mas nada fez para convencê-lo a retirar a candidatura ao Senado, para não prejudicar, como assim o fez, o projeto de Eduardo da Fonte rumo à Casa Alta.
Essas lideranças e também deputados federais e estaduais não reeleitos aguardam uma palavra de Raquel para entender a equação que ela vai armar na acomodação dos aliados derrotados em sua gestão.
Muitos políticos e ex-integrantes do governo que apostaram na continuidade do seu projeto político estão desempregados. A comemoração de uma vitória pessoal de Raquel contrasta com o insucesso nas urnas de tanta gente próxima. No seu primeiro mandato, ela concentrou as decisões, com pouca disposição para compartilhar responsabilidades. Na reta final da campanha, porém, precisou abrir espaços e assumir compromissos para garantir o apoio necessário à reeleição.
Agora, todos querem saber se essas concessões serão mantidas ou se, passada a eleição, tudo voltará a ser como antes. Conhecendo o histórico da governadora, há motivos para desconfiar. Raquel nunca demonstrou grande disposição para dividir o protagonismo. O desafio, agora, é transformar os compromissos eleitorais em participação efetiva no governo, com espaço para os aliados nas decisões e na gestão.
Enquanto isso, a vitória de Lula abre novas perspectivas para lideranças pernambucanas que poderão ocupar espaços relevantes na estrutura federal, fortalecendo uma oposição que saiu da eleição com motivos para se reorganizar.
Raquel volta do exterior com uma conta política para administrar. Muitos dos que trabalharam por sua vitória estão sem mandato e dependem de suas decisões para continuar na vida pública. A pergunta é se a governadora mudou ou se continuará governando como antes. Afinal, ela pode até não gostar de encostos, mas não faltam políticos encostados à espera de uma decisão sua.
Por enquanto, todos aguardam. E o milagre que esperam é simples: que Raquel finalmente compreenda que vencer uma eleição não significa ter o direito de governar sozinha.
TIMING NO PASSEIO – Raquel deu, ontem, um timing nos passeios pela Europa e se reuniu com diretores da Agência Francesa de Desenvolvimento, em Paris, para tratar de propostas relacionadas à modernização da frota de ônibus da RMR. Conheceu também alternativas de descarbonização dos veículos, para reduzir a emissão de gases do efeito estufa, além de possibilidades para a ampliação do abastecimento de água em todo o estado. “Quero agradecer muito pela recepção para tratar de temas tão relevantes, que irão assegurar maior desenvolvimento para nossa região. Vamos ter um encontro em Recife também para continuar avançando e garantir um Pernambuco cada vez mais forte”, disse Raquel, ao final do encontro.

Silvio Filho na Articulação – Depois de servir ao Governo 3 de Lula na pasta de Portos e Aeroportos, o deputado pernambucano Sílvio Costa Filho (Republicanos) está cotadíssimo para uma outra missão na era 4 do petista: tentar desatar o nó da articulação política do Governo, no Ministério das Relações Institucionais. Silvinho, como é tratado, é muito habilidoso, tem um estilo muito parecido com o de Marco Maciel e com certeza terá êxito na nova função.
João cotado para Cidades – Já o presidente nacional do PSB, João Campos, também será convocado pelo presidente Lula. Fala-se que pode ocupar o Ministério das Cidades ou o de Ciência e Tecnologia. Como se revelou excelente gestor de uma cidade complexa de se administrar como a capital pernambucana, João pode ser muito mais útil a Lula e ao País na condução de políticas públicas direcionadas aos grandes centros urbanos e também às pequenas cidades.
Sombra e água fresca – Já o ministro José Múcio Monteiro, também pernambucano, há muito tempo tem pensado em encerrar a sua missão no Ministério da Defesa, pasta que ocupa na cota pessoal do presidente Lula, que não quer perdê-lo. O petista tem lá suas razões: extremamente hábil, Múcio pacificou as Forças Armadas, que viveram momentos de muita tensão, divisão e conflitos na gestão Bolsonaro. Múcio, entretanto, alega que já deu a sua contribuição e quer, a partir de agora, sombra e água fresca.

Lula insiste em Jorge para o STF – Na semana em que venceu as eleições numa virada histórica, Lula mandou um recado para ministros do Supremo Tribunal Federal: vai insistir na indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga que está em aberto na corte. Apesar do lobby feito por ministros do tribunal, entre eles Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Gilmar Mendes, para a indicação de Rodrigo Pacheco para o lugar de Luís Roberto Barroso, o presidente deixou claro que tem outros planos, como informou o colunista Lauro Jardim, de O Globo.
CURTAS
ESCLARECIMENTOS – O Ministério das Relações Exteriores convocou a encarregada de negócios da embaixada da Argentina no Brasil, María Emilia Cortés, para pedir esclarecimentos sobre a passagem do senador Flávio Bolsonaro pelo país vizinho durante sua fuga para os Estados Unidos.
INFORMAÇÕES – A diplomata compareceu ao Itamaraty na quinta-feira e foi recebida pelo responsável por assuntos relacionados à América do Sul. Durante o encontro, foram solicitadas informações e esclarecimentos sobre a recente passagem do candidato derrotado pelo território argentino e seus desdobramentos.
INCÔMODO – Segundo interlocutores da diplomacia brasileira, a convocação tem, por si só, o significado de demonstrar um incômodo do governo Lula com o episódio. Apesar disso, a reunião transcorreu normalmente, seguindo as práticas diplomáticas habituais para esse tipo de contato. Ainda não há informações sobre como o governo argentino responderá ao pedido de esclarecimentos.
Perguntar não ofende: Onde Raquel vai abrigar tanta gente desempregada?
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