Por Rinaldo Remígio*
Há pessoas cuja trajetória acompanhamos pelos registros da história. Outras, temos o privilégio de conhecer de perto, compartilhando momentos que se tornam parte de nossas próprias lembranças. Ao escrever sobre Gonzaga Patriota, reúno essas duas perspectivas: o reconhecimento ao homem público e o carinho pelo amigo que conheci antes de sua caminhada parlamentar.
Minha amizade com Gonzaga antecede seus mandatos eletivos. Nosso contato começou por volta de 1980, quando ele exercia a advocacia em Petrolina. Minha consideração por ele tem, portanto, raízes anteriores às tribunas e às campanhas eleitorais. Nasceu da convivência e do respeito construído ao longo dos anos.
Leia maisEssa amizade também se estendeu à sua família. Conheço seus irmãos e mantenho excelente relacionamento com quase todos eles. Recordo, com carinho, Geralvinho, Fátima e Alvinho, este último de saudosa memória, entre outros. Nas pessoas com quem convivi, sempre encontrei humildade, acolhimento e fino trato. São qualidades que dão valor às relações e fazem uma amizade atravessar décadas.
Guardo uma lembrança particularmente especial. Em 1987, por ocasião de minha iniciação na maçonaria, Gonzaga prometeu que estaria presente. E cumpriu a palavra: saiu diretamente do aeroporto para comparecer à cerimônia. Sua presença naquele momento tão significativo para mim ficou guardada entre minhas boas recordações. O tempo passou, mas continuo lembrando, com gratidão, daquele gesto de amizade e consideração.
Outra passagem que faço questão de registrar aconteceu em Brasília. Estive em seu gabinete em busca de recursos para a Facape e fui recebido com a atenção e a cordialidade de sempre. Naquela ocasião, Gonzaga não pôde atender ao nosso pleito. Registro isso com a mesma sinceridade com que reconheço seu acolhimento: ouviu nossa demanda e nos recebeu com respeito. A amizade também se revela nesses momentos, quando a impossibilidade de atender a um pedido não diminui a consideração entre as pessoas.
Natural de Sertânia, filho de Sebastião Alves Freire e Elisa Alves Patriota, Gonzaga construiu uma trajetória que aproximou suas raízes sertanejas dos grandes debates nacionais. A família ocupa lugar importante em suas manifestações públicas. Ao se despedir da Câmara dos Deputados, em 2022, agradeceu à esposa, Rocksana Patriota, aos filhos, netos e bisnetos, além de expressar seu reconhecimento aos pernambucanos.
Antes dos mandatos, conheceu diferentes ambientes de trabalho. Foi telegrafista da Rede Ferroviária Federal, professor e contador em Salgueiro, advogado em Petrolina e empresário. Sua formação abrange Contabilidade, Direito, Administração e Comunicação. Entre seus vínculos acadêmicos está a Facape, onde estudou Administração, instituição que também ocupa um lugar central em minha vida.
Essa experiência profissional diversificada merece reconhecimento. O contato com trabalhadores, estudantes, clientes e empreendedores oferece oportunidades de compreender as dificuldades cotidianas da população. Na trajetória de Gonzaga, trabalho e estudo acompanharam a construção de sua presença pública.
Sua participação partidária começou no MDB, em 1968. Foi deputado estadual entre 1983 e 1987 e exerceu oito mandatos de deputado federal: o primeiro entre 1987 e 1991, seguido de outros sete, consecutivos, entre 1995 e 2023. Passou pelo PMDB e pelo PDT e ingressou no PSB em 1991, conforme os registros da Câmara.
Entre os marcos dessa caminhada está sua participação na Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela Constituição de 1988. Gonzaga integrou uma geração de parlamentares que tomou parte na reconstrução institucional da democracia brasileira. Também exerceu a função de secretário nacional de Trânsito, entre 1993 e 1994.
Para Pernambuco, especialmente para o interior, sua atuação teve entre os temas relevantes a água, a agricultura e o desenvolvimento regional. Os registros da Câmara apontam sua participação na coordenação da Frente Parlamentar da Fruticultura e em grupos de trabalho voltados à transposição do São Francisco e ao Nordeste. São assuntos que dizem respeito ao sustento das famílias, à produção e às possibilidades de crescimento de nossa região.
Gonzaga também defendeu a proposta de interligação das bacias do Tocantins e do São Francisco, associando-a à segurança hídrica e ao transporte hidroviário. Essa bandeira parlamentar expressa a atenção que dedicou à questão da água e à busca de alternativas para o desenvolvimento nordestino.
Suas preocupações ganharam espaço também na escrita. Obras como O Nordeste é Viável, Ferrovia Transnordestina, Petrolina: História Política e Água: Um bem finito registram seu interesse pelos desafios econômicos, sociais e históricos da região. Essa produção permite conhecer suas ideias para além dos discursos e dos períodos eleitorais.
Como pernambucano, reconheço o significado de sua contribuição para manter as necessidades do Sertão presentes no debate nacional. Seu legado reúne a participação na Constituinte, a longa experiência parlamentar e a dedicação a temas essenciais à vida de nosso povo.
Como amigo, acrescento a esse reconhecimento as lembranças que os registros oficiais não conseguem guardar: a convivência desde os tempos da advocacia, o carinho por seus irmãos, o acolhimento no gabinete em Brasília e a palavra cumprida naquela noite de minha iniciação.
Ao homenagear Gonzaga Patriota, celebro uma trajetória que faz parte da história política de Pernambuco e uma amizade que permanece viva em minha memória. Entre tantos acontecimentos de sua vida pública, guardo aquele gesto simples e precioso de 1987: o amigo chegou, como havia prometido.
E há presenças que o coração nunca esquece.
Gonzaga tem história e está deixando um grande legado para o povo pernambucano!
*Professor universitário aposentado, administrador, contador, historiador e mestre em economia
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