Por Renato Fonseca*
O debate público brasileiro vive um momento perigoso, em que o preconceito virou moeda de troca e o ataque às religiões de matriz afro-indígena se transformou em estratégia calculada de engajamento digital.
O que assistimos no plenário da Câmara Municipal do Recife durante a votação do Projeto de Lei nº 147/2026 — proposta de minha autoria levada ao parlamento pela vereadora Jô Cavalcanti — não foi um simples debate parlamentar. Foi uma demonstração explícita do duplo padrão institucional que rege a política pernambucana.
Leia maisO Recife é uma cidade de fé, diversidade e resistência. Nosso calendário oficial celebra com inteira justiça as festividades de Nossa Senhora do Carmo, Nossa Senhora da Conceição, o Dia da Bíblia e tantas outras datas que traduzem a religiosidade cristã do nosso povo. O Estado reconhece a relevância sociocultural dessas celebrações.
No entanto, quando a pauta é a salvaguarda da Jurema Sagrada, a ciência dos terreiros e a ancestralidade dos povos tradicionais, o peso da régua institucional muda drasticamente.
Para figuras da extrema-direita que há tempos fazem da nossa fé o seu palanque — como a deputada Clarissa Tércio e, mais recentemente, o vereador Thiago Medina —, agredir o sagrado alheio virou método político. Chamar a ciência da Jurema de “porcaria” e ridicularizar a memória da Mestra Ritinha não é postura de quem fiscaliza o município; é a busca desesperada por cortes de internet, likes e validação entre alas radicalizadas.
Trata-se de um racismo religioso institucionalizado que precisa ser combatido com rigor e responsabilização legal.
Mas a incoerência do plenário ganha contornos ainda mais graves quando vem de dentro. O resultado de 12 votos contra e 7 a favor expôs uma ferida dolorosa. O voto do vereador Douglas Brito — parlamentar que frequenta terreiros e conhece de perto a nossa caminhada — chamou atenção pela contradição ao classificar o projeto como “lacração”.
Render-se à pressão fundamentalista e trair a própria casa espiritual em troca de conveniência eleitoral é uma escolha que o povo de axé saberá julgar no tempo certo.
Se a Constituição estabelece que o Brasil é um Estado laico e assegura a inviolabilidade da liberdade de consciência e de crença, o poder público não pode agir como tribunal inquisitorial.
Garantir o Dia da Mestra Ritinha não seria concessão de privilégio; seria a reparação histórica de uma manifestação cultural e religiosa genuinamente nordestina, acolhedora e patrimonial.
A rejeição da matéria na Casa José Mariano assinou um lamentável atestado de intolerância, mas abriu os olhos de Pernambuco. Ficou nítida a urgência de levar essa trincheira para o Congresso Nacional. A Jurema Sagrada e as religiões de matriz africana e indígena não aceitarão mais o papel de folclore submisso ou de alvo fácil no debate eleitoral.
Seguiremos de cabeça erguida, cobrando coerência e ocupando a política com a força e a dignidade de quem não negocia o sagrado.
*Criador da página Macumba Ordinária, ativista do povo de terreiro e candidato a deputado federal (PSOL-PE)
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