Por Marcelo Tognozzi
Do Poder360
Insensatez, define Antônio Houaiss, é imprudência, loucura, falta de juízo mesmo. A eleição virou vale tudo. A insensatez é mãe da ruína. O Brasil e a insensatez convivem faz tempo. Talvez a última coisa sensata feita no país nas décadas recentes tenha sido o Plano Real. Depois dele, o festival de insensatez foi retomado com a PEC da reeleição. E não parou mais.
O Congresso deu aos brasileiros um cavalo de Troia novinho em folha ao votar, com maioria esmagadora de 75 a 1, o fim da escala 6 X 1. O presidente candidato jogou gasolina na fogueira da insensatez ao anunciar o perdão para dívidas dos MEI e um Pix de R$ 5.000 na conta de cada microempreendedor. Total da fatura: R$ 5 bilhões.
Leia maisA gastança e a mobilização da militância deram a Lula a virada registrada na última pesquisa PoderData/Aya, na qual aparece empatado com Flávio, ambos com 50%. O importante nesta pesquisa é a curva descendente de Flávio cruzando com a curva ascendente de Lula. Se o filho de Bolsonaro conseguirá revirar, ou não, é outra história. Mas é fato que ele perdeu tração.

Governo é igual cobra. Mete medo até quando está morto, diz um velho ditado nordestino. Lula soube usar a máquina a seu favor como ela nunca foi usada por ninguém. Inaugurou a era da compra de votos por atacado e se deu bem. Já foram torrados mais de R$ 350 bilhões. As consequências, dizia o conselheiro Acácio, vêm depois.
Lula tirou o urso para dançar e a Justiça entrou no baile. O presidente aumentou o Bolsa Família por decreto em 17 de setembro. O Supremo validou. Em 2024, a Corte declarou inconstitucional a PEC do ex-presidente Bolsonaro que reajustou o benefício em 2022. Agora, considera que o decreto de Lula nada tem de errado, dando um nó na cabeça do eleitor incapaz de entender como a emenda constitucional pode ser defenestrada pelo Supremo e valer menos que um simples decreto.
A falta de bom senso, aliada à uma pitada de soberba, mencionada por jornalistas e analistas críticos da gastança de Lula, está debulhada no livro da historiadora norte-americana Barbara Tuchman, lançado em 1984: “A Marcha da Insensatez“.
O livro mostra a ambição do poder como a maior das forças da insensatez política. O governo é sempre seu alvo favorito, porque só sua conquista satisfaz essa ambição. Thomas Jefferson, doutor em poder, concluiu de que pelo simples fato de alguém querer muito o cargo, sua conduta começa a se deteriorar. Não do ponto de vista da competência, mas da moral.
Mas quem sou eu para falar de moral no Brasil de 2026? A moralidade virou dinossauro, peça daquele museu de grandes novidades da música de Cazuza. Assistimos ao presente ser pior que o passado, seguimos sobrevivendo da caridade de quem nos detesta e alguns ainda têm o desplante de sonhar com uma praia chamada futuro.
O que teremos pela frente depois da eleição? A terra arrasada. Se Lula vencer, fica o governo engolidor voraz de impostos. Se Flávio ganhar, as dificuldades serão gigantes e o remédio amargo. O cenário internacional conturbado, somado à possibilidade de a guerra se alastrar no Oriente Médio, vai piorar ainda mais a situação.
Já falta dinheiro para o básico. O Brasil quebrou no cheque especial, no cartão de crédito, no consignado e no plano de saúde. O governo Lula contingenciou R$ 23,7 bilhões do Orçamento deste ano, atingindo em cheio os ministérios de Educação, Saúde, Transportes, Cidades, Defesa e Fazenda. Falta dinheiro para o custeio da máquina. Há o risco de não sobrar nada para investir no ano que vem, muito menos pagar emendas parlamentares. Vai ser um deus-nos-acuda. E haja Deus e haja acuda.
Existem 6.341 empresas em recuperação judicial, uma alta de 66% nos últimos três anos. São quase 9 milhões de empresas inadimplentes, todas na beira do precipício e grande parte delas irá cair, empurradas pelo arrocho que vem por aí.

Teremos crédito caro, a dívida pública disparada, mais custos com o fim da escala 6 X 1 e as novidades da reforma tributária, como o tal do split payment que engole o imposto antes do dinheiro chegar na mão do empresário. Quem prometeu prosperidade entregará menos do mesmo. Nem o mais do mesmo será possível.
Não será só o próximo presidente a cair numa sinuca de bico. Os congressistas que chegarão ao Congresso em fevereiro, ávidos por cortar a cabeça de ministros do Supremo, também cairão na real. Verão que o caminho é tortuoso demais. Se a via-Crúcis tem 14 estações, a via de cassação de ministro do Supremo terá muito mais. Será jogo para profissionais e, no fim, restará para ambos os lados a única possibilidade de acordo para evitar o pior. Os prazos e os ritos legais dificilmente impedirão o ministro Alexandre de Moraes de presidir a Corte em setembro de 2027.
A eleição deste ano mostrou muitas coisas importantes. A primeira delas é que na briga pelo poder vale tudo, especialmente se o incumbente tem a caneta e está sentado na cadeira. Se a renovação política trouxe sangue novo para o Congresso, precisa chegar aos líderes empresariais. Eles continuam fazendo política como há 20, 30 anos atrás. Foram engolidos pela própria ineficiência analógica. Não conseguiram traduzir para a sociedade as consequências práticas da redução da jornada de trabalho, pela inação nas redes sociais e falta de debate. Precisam urgentemente rever seus conceitos.
Feia, suja e insossa, a eleição inaugurou a era da compra de votos no atacado, às claras, com Pix. O ex-governador da Bahia Antônio Carlos Magalhães dizia que “eleição se ganha com o saco de dinheiro numa mão e o chicote na outra”. Lula, aperfeiçoou. Numa mão segura o exército digital da militância e, na outra, o microfone para perguntar em alto e bom som ao eleitor: quem quer dinheiro?
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