Por Anthony Santana e Maysa Sena
Do Blog da Folha
A eleição brasileira realizada no último domingo desmontou o roteiro desenhado pelo primeiro turno e transformou o Brasil em assunto nos países de todo o mundo. A disputa culminou na vitória do presidente Lula (PT), com 51,79% dos votos válidos, o equivalente a mais de 64 milhões de votos, contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), que teve 48,21%, cerca de 59 milhões de votos.
Um quadro bastante distinto do primeiro turno do pleito, realizado no dia 4 de outubro, o senador havia terminado na frente, com 47,03% contra 45,16%. Foi a primeira virada em um segundo turno presidencial na história do Brasil.
Leia maisA reação internacional veio em poucas horas. Os chefes de estado Emmanuel Macron (França), Pedro Sánchez (Espanha), Narendra Modi (Índia), Cyril Ramaphosa (África do Sul) e Claudia Sheinbaum (México) estiveram entre os líderes que saudaram o resultado.
Por outro lado, os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, que haviam declarado apoio a Flávio, ficaram em silêncio. Derrotado, Flávio Bolsonaro disse que não reconhecia o resultado e que pediria a anulação da eleição.
O resultado da eleição brasileira representou um freio ao avanço da direita na América Latina acendendo um alerta para líderes políticos de direita. Enquanto movimentos de esquerda de outros países sinalizam intenção de replicar estratégias adotadas pela campanha de Lula. Além disso, a estratégia de questionamento do resultado das urnas pode embasar movimentos semelhantes em outros países como os Estados Unidos e Israel.
Mobilização
O reconhecimento de líderes da esquerda no mundo não se restringiu à vitória nas urnas. A experiência brasileira de mobilização política nas redes sociais tem despertado interesse no exterior. Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez convidou o deputado federal André Janones (Rede-MG) para contribuir com a campanha política, em uma tentativa de absorver a estratégia de comunicação digital que o parlamentar capitaneou no Brasil.
Inspirados no chamado “Exército de Lula”, grupo de WhatsApp da campanha petista, canais criados por movimentos de esquerda na Espanha, França e Argentina registraram crescimento expressivo de integrantes, replicando a lógica adotada no Brasil.
Análise
Especialistas ouvidos pela Folha de Pernambuco leem o episódio por ângulos distintos: há quem veja na vitória um freio à onda conservadora que vem ocupando países da América do Sul; e há quem enxergue a conquista petista como um caso de eficiência na conversão de apoio em votos, sustentada pela máquina de governo e por uma campanha de medo e de retenção do eleitorado.
O professor e colunista da Folha de Pernambuco Luiz Otavio Cavalcanti apresenta duas principais leituras. A primeira é de que a direita avançou na Europa, nos Estados Unidos e na América Latina, e havia a expectativa de que o Brasil, país mais importante sul-americano, entrasse nessa roda. Segundo ele, a vitória da esquerda frustrou a estratégia de Donald Trump, que busca fazer o Brasil virar à direita.
“Imagine se Flávio Bolsonaro tivesse ganhado e o Brasil se inscrevesse na roda da direita: teria sido um fator de desequilíbrio continental. Com a vitória de Lula, estabeleceu-se uma simetria de poder. A geopolítica continental e a mundial reconhecem que o Brasil encarou o modismo da direita e se saiu muito bem, porque estabeleceu essa simetria na América Latina e enfrentou o poder dos Estados Unidos”, afirma.
Outro ponto levantado pelo especialista é sobre Lula. Cerca de 90 países teriam enviado mensagens ao petista, segundo Luiz Otávio, que vê nisso uma “chuva de rosas”. “É uma coisa muito expressiva no mundo de hoje, um mundo tão dividido e tão complexo”, avaliou, ao lembrar que Lula, aos 80 anos, é eleito pela quarta vez presidente.
Direita
Entre os que saudaram o resultado houve também governos de direita, como o do Equador, de Daniel Noboa, aliado de Trump. O silêncio de Trump e de Milei, que até agora não reconheceram a vitória de Lula, foi a exceção que mais chamou a atenção para Cavalcanti. Trump foi além: na segunda-feira (26), disse que a eleição “pareceu mais uma eleição fraudada”, embora a declaração não represente uma decisão formal dos Estados Unidos de não reconhecer o resultado proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em outro movimento, o senador Flávio Bolsonaro recebeu autorização do governo americano para permanecer por 1 ano nos Estados Unidos. A iniciativa incomodou aliados do presidente reeleito, que vem mantendo uma relação de desencontros com o governo Trump.
Luiz Otávio interpreta a postura de Milei como “extravagância” política. Sobre Trump vê “no fundo, um pouco de ciúme” de Lula, que, de idade semelhante ao republicano, conquista novo mandato. O professor resume as lições entre a vitória da democracia e a vitória da qualidade política. “Que lição o Brasil está dando ao mundo: num momento em que o mundo está conflagrado, açoitado pelos autoritarismos, o Brasil exibe uma democracia forte, de vigor democrático”, analisou.
Repercussão
Para a cientista política Priscila Lapa, a repercussão internacional está ligada à força da agenda em defesa da democracia e à capacidade de mobilização política vista no Brasil. O momento de questionamento sobre o quão estáveis são as instituições democráticas ao redor do mundo fizeram o resultado da eleição brasileira ganhar destaque, segundo ela.
“A eleição brasileira foi um indicativo de que é possível resistir a essa onda e fortalecer a democracia pela representação de um sentimento de esperança”, pontuou.
Embora o movimento provocado pela esquerda no Brasil esteja relacionado a questões políticas e históricas particulares ao país, a especialista acredita que a experiência pode ser levada como referência por outros países.
“Existe uma conjuntura no Brasil de resistência democrática que pode ser espelhada para o mundo. Mas essas questões também estão, de alguma forma, presentes em outros países e continentes, de modo que podem ganhar força, a partir da experiência brasileira, outros movimentos semelhantes ao redor do mundo”, frisou.
Peso
Já para o cientista político e professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Elton Gomes, o resultado surpreende porque contraria o que os instrumentos de aferição da opinião pública indicavam. Segundo ele, a maior parte das pesquisas públicas apontavam Flávio à frente na disputa.
“Foi surpreendente porque quebrou uma tendência que se verificou no primeiro turno e que não se manteve no segundo”, avalia. Gomes chama atenção para a posição do Brasil no mapa político latino-americano. Para o cientista político, o tamanho da economia e a influência do país na região impedem que o resultado seja analisado nos mesmos moldes aplicados aos vizinhos. Ele observa que Brasil e México permanecem sob governos de esquerda, enquanto outras nações registraram vitórias de candidatos de direita, de espectro populista ou moderado.
O professor pondera, no entanto, que a permanência de Lula no Planalto não representa uma virada completa do eleitorado brasileiro. O desempenho da oposição nas eleições para o Congresso e as assembleias legislativas, segundo o especialista, demonstra que essas correntes também têm força no país. A diferença aparece na escolha para o comando do Executivo, cargo que concentra a identificação mais direta da população com o governo.
Elton Gomes afirma que essa combinação faz do Brasil um caso particular na região, sem que seja possível classificá-lo simplesmente como contrário à tendência dos países vizinhos. Ainda segundo ele, a comparação precisa considerar as nuances próprias de cada país.
“Mesmo os países mais comparáveis com o Brasil na região, que são essencialmente três, Argentina, Chile e México, são países com características muito próprias. A escala da economia, da política, da importância do Brasil supera esses todos”, avalia.
Redes sociais
Ao analisar a estratégia das campanhas nas redes sociais que vem ganhando destaque no mundo, Elton Gomes compara a organização digital do bolsonarismo com a do petismo, destacando que, diferentemente da estrutura descentralizada e pulverizada da direita, o petismo conseguiu transferir para as redes sociais práticas de comunicação consolidadas nas mídias tradicionais. Segundo ele, essa estratégia foi fundamental para reter eleitores e reduzir deserções durante a disputa eleitoral.
“A força de uma candidatura não pode ser medida apenas pela intensidade da sua militância, nem pela popularidade nas redes sociais, ou somente pela rejeição adversária. Os dois (candidatos) eram muito rejeitados. O que importa é a capacidade de transformar apoio político em votos efetivos, especialmente entre os eleitores menos ideologizados”, definiu o especialista.
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