A intervenção do PSDB no diretório de Pernambuco frustra os planos da governadora de manter a sigla na sua base aliada de olho nas eleições de 2026, mesmo após a ida para o PSD. Um dia antes de Raquel sair da legenda, a vice-governadora Priscila Krause deixou o Cidadania e se filiou ao PSDB, em manobra combinada com a governadora.
Na manhã desta quinta-feira (3), Priscila Krause anunciou a desfiliação, menos de um mês após ter entrado no partido.
“A decisão do PSDB nacional de intervenção no diretório de PE é ato que não dialoga com a democracia, que marcou a história da sigla”, escreveu a vice-governadora em redes sociais.
Além de Priscila, os 32 prefeitos do PSDB anunciaram a saída do partido nesta quinta. Entre eles está o prefeito de Caruaru, Rodrigo Pinheiro, sucessor de Raquel na função. A tendência é que eles e a vice-governadora migrem para o PSD, que já tem mais de 20 prefeitos filiados no estado.
O presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo, afirma que a debandada era esperada.
“Já era esperado. Foi calculado. O partido adotou uma posição politica ao entregar o comando a um chefe de Poder [Álvaro Porto] que está comprometido a fazer nominatas competitivas de candidatos proporcionais, especialmente à Câmara Federal, e participar com independência da discussão sobre a chapa majoritária”, diz Perillo à Folha.
O filho do presidente da Assembleia Legislativa, Gabriel Porto, deve ser candidato a deputado federal pelo PSDB. A prioridade da sigla é eleger parlamentares para a Câmara, a fim de tentar recuperar o protagonismo no cenário político nacional.
Outros dirigentes da Executiva Nacional do PSDB, que aprovou a intervenção na noite da quarta-feira (2), disseram, reservadamente, que há uma mágoa com a governadora. Segundo eles, Raquel teria sido ingrata com o partido que a abrigou em 2016, quando ela saiu do PSB após não conseguir viabilizar candidatura a prefeita de Caruaru, cargo para o qual foi eleita pelo PSDB.
Um ponto de queixa dos dirigentes do partido é a manobra articulada por Raquel ao pedir a filiação da vice-governadora ao PSDB sem combinar com a cúpula da legenda.
Novo presidente do PSDB, Álvaro Porto terá seis meses para organizar uma nova eleição para o diretório de Pernambuco do partido.
Um dos primeiros quadros a apoiar Raquel Lyra nas eleições de 2022, ele é atualmente desafeto da governadora, com quem tem relações políticas rompidas desde 2023.
Desde que assumiu a presidência do Legislativo, Álvaro Porto tem defendido a independência do Poder em relação ao Executivo, o que desagrada à governadora, já que pautas que contrariam o Palácio do Campo das Princesas foram aprovadas no período.
Por outro lado, o entorno de Raquel vê uma tentativa do deputado de enfraquecê-la e ajudar Campos, de quem o presidente da Assembleia se tornou aliado. A tendência é que Álvaro Porto leve o PSDB para apoiar a possível candidatura do prefeito do Recife no próximo ano.
Um áudio vazado durante uma sessão com participação de Álvaro e Raquel, em fevereiro de 2024, expôs críticas do deputado à governadora. Na ocasião, o PSDB Nacional classificou as falas dele como “agressivas”.
O Legislativo pode votar, nas próximas semanas, uma proposta de emenda à Constituição estadual que prevê a ampliação, de imediato, das emendas parlamentares de execução obrigatória, as chamadas emendas impositivas, de 0,8% para 2% da receita corrente líquida do estado.
A medida desagrada ao governo estadual, já que Raquel Lyra teria menos espaço para decidir onde aplicar as verbas.
Além disso, o presidente da Assembleia deve entrar na Justiça, nos próximos dias, contra o governo pelo não pagamento de emendas pendentes de 2024. Segundo os deputados, há R$ 97 milhões pendentes de pagamento de um total de R$ 188 milhões.
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