Por Flávio Chaves*
Algumas ausências não fazem barulho, não derrubam portas, não acendem sirenes. Ainda assim, atravessam a casa como um vento que ninguém vê, mas que move, com delicadeza cruel, as cortinas daquilo que se acreditava estar arrumado. Não é a falta gritante de quem partiu ontem, com as malas ainda quentes de pressa. É outra espécie de desaparecimento: mais antigo, mais lento, uma retirada que já se instalou no cotidiano como uma lei invisível. Mesmo assim, continua doendo. Porque quando o coração aprende um corpo, uma voz, um modo de olhar o mundo, não desaprende com facilidade. Apenas se adapta, como quem passa a andar com um peso no bolso e um sorriso ensaiado no rosto.
Certas memórias preferem o abrigo do indizível. Como residência, caminham no mistério. Nomear seria dissolver a bruma que as protege. Há amores que não cabem em palavras porque nasceram para ser respirados em silêncio. Quando a lembrança é funda, o que a sustenta não é a fala, mas a permanência.
Leia maisA saudade, porém, não é um incêndio. E talvez por isso seja mais perigosa. O fogo ao menos consome e termina. Vira cinza, deixa escombros, dá lugar a uma paz provisória. Já essa febre é constante. Uma temperatura que não explode, mas também não cede. Uma chama morna, que simula cura, mas só ensina a conviver.
Em certas manhãs, tudo parece ordenado. A luz entra, os pássaros repetem seu ofício, a rua oferece sua pressa. O corpo se levanta, cumpre o ritual do café, da água, do espelho. Mas basta um detalhe, um som de talheres, um perfume breve, um gesto visto de relance, e a febre reaparece na pele como um aviso sem voz. Não é dor que sangra. É presença na ausência. Um convívio com aquilo que permanece sem estar.
A saudade tem uma inteligência sutil. Sabe a hora exata em que a casa silencia, em que os ruídos se dissolvem, em que ninguém chama. Entra sem pedir, com passos limpos. Senta-se ao lado do livro aberto e transforma a frase em lembrança, a lembrança em rosto, o rosto em voz. Tudo silencioso, tudo intacto, como se o tempo fosse uma sala onde nada desaparece, apenas muda de lugar.
Muito se aconselha: preencher a ausência com viagens, com paisagens novas, com outras presenças. Como se o coração fosse um espaço que se reorganiza trocando os móveis. Mas o que fica não é espaço, é marca. E marca não se move. Aprende-se, quando muito, a conviver com ela. Como quem perde um idioma que falava sem saber e passa os dias traduzindo o mundo com vocabulários emprestados.
Existe uma fidelidade que não depende de promessa. Que nasce do que foi inteiro. Um amor verdadeiro não precisa continuar para permanecer. Ele se transforma em estrutura. Torna-se parte invisível da ossatura da vida. Dentro de cada gesto, há um espaço que não se fecha, não se amplia. Apenas existe. É ali que mora a febre.
Talvez os grandes amores não terminem. Apenas mudem de estado. Como a água, que deixa de ser líquida e se espalha como vapor. Invisível, mas presente. O que partiu, seja por destino, silêncio ou desencontro, não se tornou menos real por ter ido. Tornou-se mais etéreo. Mais delicado. Mais profundo. Queima sem chama, aquece sem fogo. E isso é a febre. A doença branda que não mata, mas também não cura.
Não se espera retorno. Esperar seria negociar com o que já foi decidido. Resta apenas a consciência: aquilo existiu. E segue existindo, mesmo quando não se fala. Há dias em que a saudade é um lenço dobrado no bolso. Quase não pesa, mas acompanha. E há noites em que se torna um cobertor úmido, e o espaço da cama parece maior do que deveria. Ainda assim, há beleza nessa febre. Porque ela prova que houve amor o suficiente para deixar marca.
Certos amores pertencem à linguagem do indizível. Vivem num ponto onde a palavra recua, onde o silêncio se ajoelha. Quando a linguagem tenta alcançar, se dilui. Melhor deixar que permaneçam onde sempre estiveram: intocados, mas presentes. Como brisa que passa e muda tudo sem ser vista.
Talvez por isso a saudade de um grande amor nunca ceda. Porque não foi feita para passar. Foi feita para iluminar por dentro, como uma lâmpada escondida atrás da parede, acesa no coração da memória.
*Jornalista, poeta, escritor e membro da Academia Pernambucana de Letras
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