Passados 3.000 anos, a história se repete. Os oráculos do século 21 são as pesquisas qualitativas e quantitativas. Os políticos, na maioria das vezes, ouvem o que elas dizem, mas erram na interpretação. Em parte significativa das vezes, as pesquisas indicam que o caminho escolhido não sustenta o poder. Pesquisas, quando bem-feitas, não são meros relatórios ou planilhas: são sinais das ruas.
Na última rodada do PoderData, o oráculo falou ao presidente Lula e seus adversários. Os números mostram um aumento na rejeição do presidente, com 57% dos eleitores desaprovando seu trabalho, e uma quantidade cada vez maior de brasileiros considerando ser um erro sua tentativa de reeleição.
De acordo com a Paraná Pesquisas, 51% entendem que Lula não merece ser reeleito contra 45,3% que pensam o contrário.
Também aumentou muito a percepção de que a corrupção no governo Lula 3 perdeu o freio. Praticamente metade do eleitorado (49%) vê a corrupção crescendo, enquanto só 18% avaliam que ela diminuiu. Um crescimento de 10 pontos percentuais em dois anos.
Mas se o presidente é reprovado por 57%, a percepção de corrupção é crescente e 53% do eleitorado torce o nariz para seu governo, então por que Lula continua sendo um candidato competitivo aos 80 anos?
A explicação pode estar no fato de o Bolsa Família fazer a diferença. Hoje, aproximadamente 50 milhões de brasileiros ou 18,7 milhões de famílias são beneficiados pelo Bolsa Família e outros programas sociais do governo. As mulheres representam 83% desse total.
Entre o sexo feminino, mostra o PoderData, 46% aprovam o governo Lula, assim como 50% dos nordestinos, 44% dos que completaram o ensino fundamental e 43% dos que recebem até dois salários-mínimos por mês.
O oráculo das pesquisas fala sobre isso faz tempo. Lula e o PT entenderam, mas a oposição parece que não. Ou, não teve capacidade de construir um discurso e uma ação política capazes de seduzir as mulheres pobres, cuja sobrevivência depende dos benefícios sociais.
Não é só por falta de quadros que a esquerda tem apenas um candidato. É porque Lula, político mais experiente em atividade no Brasil, aprendeu como nenhum outro a vincular o voto à expectativa dos mais pobres de continuarem seguindo em frente, sem retrocessos.
Tive um professor na pós da GSPM, Chuck Cushman, que ensinava serem os pobres os mais conservadores, pelo medo de perder o pouco que têm. Uma chuva forte ou uma enchente podem levar tudo, literalmente tudo, o que uma família levou a vida toda para juntar. Ou um governo sem compromisso pode acabar com aquele dinheiro certinho todo mês. Isso pesa muito na hora de votar. E eles acabam escolhendo na base do “ruim com ele, pior sem ele”. São conservadores.
O Bolsa Família nasceu de uma costela do Bolsa Escola, criado pelo tucano Magalhães Teixeira (1937-1996), ex-prefeito de Campinas. Cristovam Buarque, então no PT, turbinou o programa durante seu governo (1995-1999) e, a partir de 2003, Lula transformou e ampliou este programa de renda mínima, agora marca dos seus governos. Os programas sociais de Lula fazem parte do cotidiano dos pobres há mais de 20 anos e hoje a maior parte deste eleitorado vê isso como uma conquista, um direito a ser preservado. Certo ou errado, é assim que funciona.
Cada vez que a oposição fala em acabar com o Bolsa Família ou reduzir programas sociais, a rejeição cresce, principalmente entre as mulheres. As pesquisas indicam que o voto em Lula é o tal voto conservador, como ensinou Chuck Cushman.
Neste aspecto, a polarização favorece mais o presidente do que a direita de Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas. A Paraná Pesquisas indica que Lula cresceu desde outubro de 2023, saindo de 37,6% para 39,8% no 1º turno.
Entre os adversários, só Flávio Bolsonaro cresceu, partindo de 19,2% em outubro de 2023 para 33,1%. A maioria encolheu, como Ratinho Junior, que chegou a ter 10,5% e agora tem 6,5%. Mesmo com parte significativa da direita e centro-direita debaixo do guarda-chuva do PSD (Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Junior), será difícil quebrar a polarização.
Para serem mais competitivas, a direita e centro-direita precisarão usar a criatividade eficiente e focar nas mulheres com baixa escolaridade, baixa renda e chefes de família. Na mão delas está uma das chaves da eleição.
A outra está em Minas Gerais, Estado onde a eleição costuma ser definida, domicílio eleitoral de 3 importantes eleitores: o governador Romeu Zema, o senador Cleitinho e o deputado federal Nikolas Ferreira.
Desde os anos 1950, os políticos teimam em ler as pesquisas conforme sua conveniência e não conforme a realidade nelas contida. O único a entender corretamente a voz dos oráculos foi Fernando Henrique Cardoso, eleito e reeleito no 1º turno. Tarcísio de Freitas é outro a dar sinais de ter entendido o recado ao anunciar que pretende ficar em São Paulo. Os demais tendem a se confundir. O candidato pergunta: “Vou ganhar?”. E o oráculo responde: “Não desse jeito”. Mas ele acha que isso é provocação e dá mais do mesmo.
Em condições normais de temperatura e pressão, Lula estaria no pior dos mundos. Mas não estamos vivendo tempos normais, porque a temperatura não para de subir e a pressão é cada vez maior. Ele é o adversário a ser batido por aqueles cuja vitória depende da capacidade de seduzir parte dos eleitores dele.
Para sair dessa sinuca, o caminho é o ensinamento simples e direto de Duda Mendonça, um dos pais do marketing político brasileiro: “Sempre digo que sou um criador do óbvio. Você não tem de estar sempre procurando o inusitado, o diferente, o original. Tem de ser eficaz, obter resultados”. Eficiência, nada mais que a eficiência. É isso ou nos vemos em 2030.
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