Por Ivanildo Sampaio*
Do Jornal do Commercio
Foi numa sexta-feira, 13, que um enfarte fulminante e traiçoeiro levou de forma cruel e inesperada a pernambucana, de sangue espanhol, Leda Maria Rivas Cervino — ou simplesmente Leda Rivas, que como jornalista foi, por muitos anos, uma estrela brilhante na imprensa de Pernambuco — e como educadora, a mestra que encantava seus alunos, na Universidade Federal de Pernambuco. Querida e admirada, pelo conhecimento, pela fidalguia, pela compreensão. Foi também uma escritora precoce, editando o livro “Às margens do Capibaribe”, que escreveu quando mal tinha completado 20 anos.
Minha admiração por Leda Rivas vem de longe, vem há mais de meio século. Nós fomos colegas de turma, ingressamos juntos na Universidade Católica de Pernambuco naquele ano funesto de 1964, quando veio o golpe que implantou a ditadura e colocou o país na escuridão. Integramos a terceira turma do Curso Superior de Jornalismo. Um curso criado pelo pesquisador Luiz Beltrão — que no ano seguinte deixaria o Recife para fundar, em Brasília, um curso semelhante, num conglomerado de ensino privado que se tornaria um dos maiores da capital federal.
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Nossa turma era composta por 50 alunos, aprovados no vestibular realizado no mês de novembro do ano anterior, como acontecia com o protocolo de então. O Curso Superior de Jornalismo era ligado, provisoriamente, à Faculdade de Filosofia da UCP, à espera de seu reconhecimento pelo MEC. O diretor dessa Faculdade era um jesuíta reacionário e rancoroso — e via no Curso de Jornalismo um perigoso ajuntamento de jovens “comunistas”, que não deviam estar ali, numa universidade católica, mas provavelmente na cadeia, especialmente depois do Golpe de 1964, que ele apoiou e aplaudiu.
Mas, estávamos lá. Nossa turma era composta de 50 alunos, a maior parte do sexo feminino, muitos dos integrantes desse universo sem uma maior vocação para o jornalismo, visto como “uma carreira menor” pelos elitistas e conservadores. Até porque o próprio Luis Beltrão alertava, o mercado ainda remunerava mal os profissionais da Imprensa, muitos deles se obrigando a um segundo emprego para sobreviver. Como se vê, não era estimulante, na época, ingressar numa Universidade para estudar jornalismo.
Mas, lá estamos nós, 50 calouros, sendo que as mulheres eram maioria. Entre os homens, eu, funcionário de uma agência bancária, era o mais jovem da turma. E estavam lá, lado a lado comigo, um capitão da Marinha, também formado em medicina e extremamente reacionário; um despachante aduaneiro; um proprietário de uma emissora de rádio na cidade de Paulista; um cirurgião dentista; um juiz de futebol; um policial da defesa civil, alguns filhos de pais abastados que não trabalhavam e já possuíam carro, além de muitas mulheres, solteiras, casadas, desquitadas — mas compondo a grande maioria de nossa classe.
Entre essas mulheres, além de Leda Rivas, estavam também Maria Helena Beltrão e Ariadne Quintella, as três, que, anos depois, em ocasiões diferentes e empresas diferentes, seriam minhas colegas de trabalho. Helena Beltrão, na Editora Bloch, que além da Revista Manchete, tinha cerca de 15 outras publicações; Ariadne Quintella, no Sistema Jornal do Commercio; e Leda Rivas, no Diario de Pernambuco, em duas oportunidades diferentes.
Pois bem, muito tempo depois de concluído nosso curso — e ausente do Recife por alguns anos —, retorno a Pernambuco e mal chegado fui trabalhar no Diario de Pernambuco, levado pelas mãos do meu querido e saudoso amigo Lucio Costa. E reencontro Lêda Rivas. Chefiava o arquivo e o Departamento de Pesquisa do histórico jornal, além de editar, com competência e esmero, o Caderno Viver, um Suplemento que, como a maioria dos jornais brasileiros, copiava o modelo e a proposta do Caderno B, do Jornal do Brasil.
Lembramos os tempos antigos da Universidade, companheiros que cresceram ou que sumiram, os professores que admirávamos, uns mais e outros nem tanto, mas reconhecendo o talento e a competência de todos eles. Afinal, fomos alunos de nomes como Luis Beltrão, José Brasileiro Vilanova, Mauro Almeida, Manuel Correia de Andrade, Amaro Quintas, Potiguar Matos, Abdias Moura, Padre Aloisio Mosca de Carvalho e outros mestres que se tornaram lenda na história da Educação em Pernambuco.
Nesse reencontro, lembramos que estávamos próximos de comemorar os 50 anos de nossa formatura, que alguns colegas já haviam partido e professores também, inclusive o querido Padre Aloísio Mosca de Carvalho, o paraninfo de nossa turma. Dos colegas, a maioria havia dispersado, trabalhava noutras ocupações, cursara uma segunda Faculdade e se dedicara a essa outra opção, etc.
Posteriormente, noutro reencontro, comentamos que um nosso ex-colega daquela turma, natural do Rio Grande do Norte, caladão e retraído, chamado Gaudêncio Torquato, que depois de formado migrou para São Paulo, talvez fosse, de todos nós, o que mais cresceu na nossa atividade: Torquato era Ministro da Comunicação do presidente Michel Temer.
Encontrei outras vezes Leda Rivas, já afastada das redações e guardando uma mágoa da injustiça da qual foi vítima, no jornal a quem tanto se dedicou: nas mudanças que os Diarios Associados frequentemente realizavam, o jornal trouxe de fora um novo Diretor para a Redação. As intervenções por ele propostas não foram aceitas pela profissional consciente e responsável. Leda preferiu perder o emprego a perder sua dignidade.
Descanse em paz, minha amiga! Daqueles 50 estudantes sonhadores, uns jovens e outros nem tanto, restam poucos mourejando aqui na Terra.
*Jornalista
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