Por José Nivaldo Junior*
“Metida tenho a mão na consciência / e não falo senão verdades puras / que m’ensinou a viva experiência”. Luís de Camões.
As denúncias reveladas pela reportagem do Domingo Espetacular, da TV Record, colocam o Governo de Raquel Lyra diante de uma contradição histórica difícil de ignorar. Vamos dar um prudente, porém desnecessário, benefício à dúvida. No tribunal da imprensa e da política, não são necessárias tantas cautelas como nos tribunais do Poder Judiciário.
Se ou quando confirmadas, as denúncias não desafiam, apenas, a legalidade e o Estado Democrático de Direito. Afrontam, também, a memória política de dois dos nomes mais emblemáticos da luta contra o autoritarismo no Brasil: o avô da governadora João Lyra Filho, e o tio, Fernando Lyra. Eles não estão mais aqui para defender o seu legado. O outro político da família, o pai de Raquel, João Lyra Neto, está aí para se manifestar, se quiser.
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Urge lembrar um pouco da trajetória de dois grandes seres humanos, animais políticos por excelência, que já não estão mais entre nós. “Seu” João Lyra Filho e Fernando Lyra. Empresário rico, atuando em diversos segmentos, inclusive o rodoviário, o velho João deixou uma lição e um exemplo que deviam inspirar e guiar.
Homem conservador, quando veio o Golpe de 1964, optou pelo difícil caminho da oposição democrática. Ex-prefeito de Caruaru, entrou no MDB, único partido consentido da oposição e, em 1966, elegeu-se deputado federal. Em dobradinha com o filho Fernando, eleito deputado estadual. Foram quatro anos difíceis para o país.
Pelo meio, parlamento fechado, cassações de mandatos, sequestros, torturas. E o AI5. Então, veio a eleição cheia de restrições, em 1970. Prestem atenção na grandeza do cidadão, queridos leitores. “Seu” João, homem de poucas letras porém profunda sabedoria, chamou Fernando e comandou: “Meu filho, você tem muito mais a dar ao país do que eu. Você vai para federal, eu fico como estadual”. Palavras proféticas.
Logo se destacou como um dos ícones nacionais da luta pela democracia. Foi um dos fundadores e líderes do grupo autêntico que confrontou a ditadura e ajudou a transformar a “oposição consentida” em oposição de verdade. Mais tarde, Fernando foi o grande idealizador e condutor do processo de transição para a democracia. O José Bonifácio da Nova República.
Escolhido por Tancredo Neves para o ministério da Justiça, acabou com a censura e iniciou a remoção do “entulho da legislação autoritária”, concluído com a sua participação na Assembleia Nacional Constituinte. João e Fernando garantiram um lugar de honra no panteão dos autênticos heróis da pátria.
Fernando Lyra foi uma das maiores vítimas da arapongagem da ditadura agonizante. Sofreu um sequestro que resultou em uma das armações mais torpes da história contemporânea. Propagada como se verdade fosse em fake-news por todos os meios. Tudo em política é tolerável. No entanto, dói ver a governadora confraternizando com os herdeiros dos métodos usados pelos algozes do tio. E pior: usando contra adversários os mesmos sistemas de perseguição deploráveis que foram utilizados contra a sua família na ditadura.
Como ministro da Justiça, Fernando Lyra defendeu com firmeza a reconstrução das instituições, o fim dos métodos de exceção e a submissão das forças de segurança à lei, à Constituição e ao controle democrático. Era um crítico contundente do uso de práticas herdadas da ditadura, como a vigilância por motivos políticos, a perseguição de opositores e o uso do aparato estatal para intimidar adversários. Coisas que S. Exa. Raquel Teixeira Lyra não tem a menor cerimônia em fazer.
Causa perplexidade o cenário descrito pela reportagem: uma assim chamada “polícia paralela”, monitoramentos sem mandado judicial, ausência de inquéritos formais, pressão interna sobre profissionais e o direcionamento de ações policiais com base em critérios eleitorais. Práticas que ressuscitam métodos típicos do regime autoritário, exatamente aquele combatidos por João Lyra Filho, Fernando Lyra e também, registre-se, João Lyra Neto, ao longo de suas trajetórias públicas.
*Publicitário e historiador. Prestou durante décadas serviços de marketing político à família Lyra, através da qual participou de alguns dos momentos mais marcantes da política do Brasil contemporâneo. Sim, Zé participou da luta contra a ditadura e até hoje tem ojeriza à arapongagem, ao arbítrio e ao desvio de instituições respeitáveis por interesses políticos de quem quer que seja.
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