E havia razão no medo. Painho viveu décadas na estrada — entre palcos, cantorias, poeiras e noites sem fim. Entre um pé de parede no Ceará e outro na Paraíba, atravessou o tempo e o risco com a viola no peito.
Em 1997, o susto quase se concretizou. Painho estava em um acidente que levou Severino Ferreira, poeta do Rio Grande do Norte, que um ano antes havia cantado no meu batizado. Eu não guardo sua imagem — apenas o eco infinito dos versos que ficaram.
O medo ficou. Virou parte de mim. Um gatilho, uma oração automática, um pedido silencioso: que Deus não me tirasse meu pai. E, de algum modo, Ele não tirou.
Eu temia não crescer ao lado de Painho. Mas cresci. Por 25 anos, vivi um pai inteiro: presente, amoroso, intenso, vivo. Um pai de riso largo, de abraço certo, de palavra firme. Um pai que me deixou lembranças suficientes para sustentar uma vida inteira.
Mas há um dia: 22 de março de 2020. Um domingo que existe — mas não deveria. Naquele fim de tarde, falamos por vídeo por quase quarenta minutos. Lembro de tudo: de sugerir um filme, de contar meus planos, de ouvir os dele, de perceber — ainda que disfarçado — o medo do mundo que começava a se fechar.
Desligamos quase às 18h. Fui tomar banho. Quando saí, a vida já não era a mesma. Em menos de cinco minutos, sem estrada, sem madrugada, sem velocidade — Painho partiu. Descansou. Na sua terra, nos braços de Mainha, na semana de São José. Depois de ver a Serrinha chovida. Depois de pedir um copo de suco.
Há dias que o corpo vive, mas a memória recusa. Dos dias que se seguiram, quase não lembro. E talvez seja misericórdia. Porque não havia espaço para dor dentro de uma história tão cheia de amor.
Aprendi, então, que pais não se vão. Pais permanecem. Viram raiz — mesmo quando já são semente.
Hoje, seis anos depois, encontro Painho de outras formas. Na saudade que às vezes me paralisa — e às vezes me levanta mais forte. Na coragem que me sustenta. Na voz que ainda escuto quando o mundo pesa dentro de mim.
Painho segue sendo o começo de tudo que eu sou. E eu sigo tentando fazer da minha história um final digno desse início. Ele me viu crescer, estudar, sonhar. Segurou minhas mãos nos primeiros versos, acreditou nos meus escritos, me ensinou — com firmeza e afeto — a ser quem sou. Foi pai, foi amigo: e hoje é saudade.
Me ensinou que falar bonito importa. Mas viver o que se diz importa mais.
Quando penso na maternidade, dói saber que ele não estará aqui para ver. Mas escrevo. Escrevo tudo que um dia quero contar aos meus filhos sobre o avô que eles não vão conhecer — e que, ainda assim, vai viver neles.
Às vezes, recebendo pessoas em casa, me pergunto o que Painho diria. E tento acolher com o mesmo coração com que o vi abraçar o mundo inteiro. Do lado de cá, ficou uma saudade serena, profunda, agridoce e cristalina. Ficou a presença de um pai que ainda me sustenta. Mas também ficou aquela menina de cinco anos — que sempre soube que perder o pai seria a maior dor da sua vida.
Obrigada por ter sido tanto, Painho. E por continuar sendo esse combustível inesgotável na locomotiva dos meus sonhos. Tua “menina mole” segue tentando ser corajosa, firme, decente e humana. E, se conseguir, será sempre pelo trabalho bonito que o senhor fez na alma dela.
Hoje, ouvi um baião seu que ainda não conhecia, com Hipólito Moura.
E pensei: Eita nêgo cantador gigante Painho foi! Que matuto poeta, meu Deus! Obrigada por essa passagem breve e luminosa — como um cometa.
Que atravessa rápido… mas ilumina para sempre. O senhor é a eternidade que nunca será pequena, é a saudade que não será pretérita. É o verso que sustenta o meu, o mote que eu ainda não soube pagar…
Te amo desde que me entendi por gente.
Continua sendo essa presença que me sustenta e esse amor que me faz melhor. O senhor nunca será sobre os finais de domingos sombrios, mas sobre a festa das suas chegadas em cada segunda feira!
Tua “menina de Valdir”.
*Advogada e poetisa
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