Por Zé Américo Silva*
A escalada de tensão envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel mergulhou o mundo em mais um capítulo de instabilidade geopolítica, com impactos diretos sobre o preço do petróleo e seus derivados. Trata-se de um conflito cujas motivações seguem nebulosas para a maioria da população global, mas cujas consequências são imediatas e concretas: inflação energética, insegurança econômica e pressão sobre governos nacionais.
No Brasil, como em qualquer economia dependente de combustíveis fósseis, os reflexos são inevitáveis. No entanto, há um componente adicional que agrava a situação: o comportamento de setores do empresariado, especialmente na cadeia de distribuição e revenda de combustíveis. O que se observa não é apenas repasse de custos, mas uma antecipação agressiva de aumentos, muitas vezes dissociada da realidade imediata do mercado internacional.
Leia maisEm estados como a Bahia, relatos de reajustes que chegam a 80 centavos por litro expõem um padrão preocupante. Não há, em curto prazo, justificativa técnica consistente para variações tão abruptas. O que emerge, portanto, é a percepção de um movimento especulativo, que se aproveita do ambiente de incerteza global para maximizar margens de lucro.
Mais grave ainda é a suspeita de práticas coordenadas, como retenção de estoques e restrição de oferta, criando artificialmente cenários de escassez. Trata-se de uma estratégia conhecida: tensionar preços, impactar diretamente o bolso da população e, ao mesmo tempo, produzir desgaste político, sobretudo em regiões historicamente alinhadas ao governo federal, como Norte e Nordeste.
Esse comportamento revela um problema estrutural: a ausência de compromisso social de parte significativa do empresariado brasileiro. Em momentos de crise, espera-se responsabilidade, equilíbrio e senso coletivo. O que se vê, no entanto, é a priorização do lucro imediato em detrimento da estabilidade econômica e do bem-estar da população.
É preciso separar o impacto real da guerra no mercado internacional do uso oportunista desse contexto dentro do país. O Brasil dispõe de mecanismos regulatórios, capacidade de refino e instrumentos de fiscalização que podem — e devem — ser acionados para coibir abusos.
A crise externa é real. Mas a forma como ela é explorada internamente também precisa ser exposta. Quando a ganância se sobrepõe ao interesse público, não se trata apenas de mercado — trata-se de responsabilidade social. E, nesse quesito, parte do empresariado brasileiro segue se comportando como verdadeiros bandidos.
*Jornalista e consultor de Marketing Político
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