Do jornal O Globo
No último dia 30 de outubro, o governador de Minas, Romeu Zema (Novo), pediu licença para se retirar mais cedo de uma reunião, no Rio, em solidariedade ao governador Cláudio Castro (PL) pela megaoperação policial que havia deixado 122 mortos na véspera. Viajou às pressas para Campinas (SP) e se juntou a um encontro de seu partido, marcado para a apresentação de pré-candidaturas em 2026, no qual recebeu tratamento de presidenciável. A chegada ao evento, que foi seu único registro na cidade naquele dia, ocorreu graças a um voo oficial custeado pelo governo de Minas, conforme levantamento do Globo no portal da transparência.
A cena representa uma situação rotineira para Zema: desde que se lançou ao Palácio do Planalto, o governador intensificou as viagens para fora do próprio estado, recorrendo a aeronaves oficiais para a maioria dos deslocamentos. Os gastos em combustível de avião atingiram seu recorde no ano passado, quando o governo de Minas liberou quase R$ 1,5 milhão com essa finalidade. O valor supera até o do ano eleitoral de 2022, quando Zema gastou R$ 1,4 milhão para abastecer os aviões à sua disposição.
Leia mais
A agenda de Zema mostra que os eventos de pré-campanha fora de Minas costumam ocorrer em datas próximas a compromissos institucionais nas mesmas cidades. Era o caso da viagem a Campinas, onde Zema havia anunciado presença em uma mesa de autoridades no “1º Encontro de Revendedores de Combustíveis do Interior Paulista (Recap)”, na tarde do dia 30.
No entanto, a reunião convocada no mesmo horário pelo governador do Rio impediu Zema de participar do chamado “Conexão Revenda”. Zema enviou um vídeo para ser exibido na mesa de abertura do seminário. Mesmo assim, manteve o uso da aeronave oficial, naquela noite, para atender ao evento do Novo, sem relação com sua atividade como governador.
A aeronave de Zema pousou em Campinas pouco antes das 22h, conforme registro do site FlightRadar, especializado em monitoramento de voos. O mineiro se dirigiu ao encontro do partido, onde discursou e posou para fotos, divulgadas nas redes sociais. No dia seguinte, às 7h40, o mesmo avião retornou para Belo Horizonte, com Zema a bordo.
Procurado, o governo de Minas alegou que Zema teria se reunido com os organizadores do Conexão Revenda às 22h do dia 30, na mesma hora em que estava no evento do Novo. Questionado sobre o conflito de horários, o governo disse que a “agenda do governador é dinâmica” e insistiu que ele “teve reunião, presencial, à noite, com representantes” do Conexão Revenda, mas não apresentou registro do encontro.
Em nota, o governo também afirmou que um decreto de 2005 permite o uso do avião pelo governador “em deslocamento de qualquer natureza, por questões de segurança”.
“O governador cumpre rigorosamente os compromissos e obrigações institucionais atinentes ao seu cargo público (…). Fora do seu expediente de trabalho, os servidores públicos estaduais, sejam eles quem forem, podem realizar compromissos pessoais, sem ônus para o Estado”, diz a nota.
O périplo de Zema pelo país desde que anunciou oficialmente sua pré-candidatura à Presidência, em agosto, inclui cidades da região Sul, como Porto Alegre e Curitiba; do Centro-Oeste, como Goiânia e Cuiabá; e uma ida a São Luís. Nessas cidades, Zema participou de eventos do Novo, nos quais é apresentado como presidenciável, ou se reuniu com políticos locais, com os quais busca alianças. A ida ao Maranhão foi a única que não envolveu aeronave oficial.
O governador também tem ido com frequência a São Paulo: foram 15 viagens ao estado nos últimos quatro meses. Zema escolheu a capital paulista para se lançar à Presidência e se reuniu mais de uma vez com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) para discutir o cenário de 2026.
Outro destino recorrente é o interior do estado, com presença em eventos como a Festa do Peão de Barretos e um festival de moda em Itu. Em Ribeirão Preto, no início de agosto, Zema aproveitou uma viagem para jantar com empresários locais, e participou no mesmo fim de semana de um encontro de sua turma de Ensino Médio na cidade.
Já em novembro, cerca de uma semana após a reunião com Castro, Zema retornou ao Rio, no dia 6, para uma conversa com Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope que vem sendo cortejado pelo Novo para concorrer nas eleições. Conforme noticiou a coluna de Lauro Jardim, do Globo, Zema sondou Pimentel para ser ministro da área de segurança em uma eventual gestão no Planalto.
Segundo o governo de Minas, o encontro ocorreu para Zema “se atualizar da situação” do Rio “no âmbito do consórcio da paz”, iniciativa anunciada por Castro e outros governadores de direita na semana anterior.
Dados do portal da transparência de Minas mostram que, no ano passado, o governo liquidou — isto é, reconheceu a despesa — R$ 1,5 milhão para a fornecedora de combustível de aviação do gabinete do governador. A contratada, Rede Sol Fuel Distribuidora, é uma empresa de Ribeirão Preto que foi alvo de busca e apreensão na Operação Carbono Oculto, em agosto. Ela nega ter qualquer relação com irregularidades no setor.
Antes disso, a maior liberação de recursos para abastecimento de aeronaves em um mesmo ano, durante o governo Zema, havia sido em 2022, com R$ 1,4 milhão distribuídos entre Vibra Distribuidora e JetFly Revendedora de Combustíveis, as fornecedoras à época. Em 2024, o gasto foi de R$ 1 milhão e, em 2023, de R$ 630 mil.
Procurado, o governo de Minas disse que “alcançou redução de 19,2% no custo médio da hora voada, em 2025, no comparativo com o ano anterior, confirmando a eficiência e economia de gastos”.
Leia menos