Por Renato Riella*
Gilberto Amaral, último grande colunista social ainda em evidência no Brasil, dominava a República. Ele acaba de morrer em Brasília, aos 87 anos. Fui chefe dele no Correio Braziliense e no Jornal da Comunidade e, por incrível que pareça, nunca brigamos.
Mas foi um tipo marcante. Meio alto, corpulento, vozeirão, com cabeleira bonita, ocupava ambientes. Às vezes, até assustava. Conto uma história engraçada, que mostra como Gilberto era. Aconteceu em agosto de 2007.
Leia maisO famoso colunista chegou na minha casa, na hora do café da manhã, acompanhado de uma moça bonita, dona da lotérica do Lago Sul (bairro dos muito ricos de Brasília). Os dois me contaram que, no dia 31 de dezembro, haveria o Sorteio da Virada da Caixa Econômica, com premiação de R$ 200 milhões.
A proposta era fazer uma aposta coletiva de R$ 300 mil para ganhar a bolada. Disseram que um matemático havia organizado os jogos numa faixa elevada de probabilidade (na verdade, soube depois que, se a gente repetisse o jogo de R$ 300 mil por dez anos, certamente ganharia). Na conversa, Gilberto me pediu que coordenasse a ideia e fizesse o projeto de marketing. Assim foi feito.
Produzi uma marca colorida, chamando a jogada de “BOLÃO DO GIGI”. Produzi peças com essa marca e fotos risonhas do Gilberto. Ocupei todas as mídias. Levantei cerca de 500 nomes de poderosos, com e-mail e fone, para lançar a proposta.
Feito tudo isso, Gilberto Amaral conseguiu vender 300 cotas de mil reais, viabilizando o jogo. Trabalhou com poderosos, como o bilionário Luis Estevão, o ex-presidente Collor, etc, todos esses querendo ficar mais ricos.
Foram centenas (talvez milhares) de cartelas preenchidas com jogos orientados pelo matemático. Nesses meses antes do Reveillon, Gigi agitou a cidade, com a esperança de ganhar o Sorteio da Virada.
No dia fatal, 31 de dezembro de 2007, ficamos morrendo de expectativa. Mas, horas depois, a TV deu que não havia nenhum vencedor de Brasília. Restava a esperança das quinas e quadras.
Nos dias seguintes, vimos que não ganhamos nenhuma quina – mas dezenas de quadras. Feito o rateio, cada apostador ficou com R$ 400,00 – para um investimento de mil reais.
Gilberto Amaral era assim. Passou pela vida sonhando e brindando. Ele até pensava em fazer uma grande festa com os 300 apostadores – se a gente ganhasse na loteria. Mas não deu.
Na verdade, Gigi não trabalhava pelo dinheiro. Vivia do glamour. Nesses meses do Bolão do Gigi, a gente curtiu muito, vendendo ilusão em Brasília.
Assim, Gilberto Amaral chega lá em cima com esse pique total. Vai agitar nas outras esferas.
*Jornalista
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