Antonio Magalhães*
Não é à toa que a bandeira de Pernambuco esteja presente, mesmo que informalmente, em eventos massivos, como manifestações políticas e na torcida de jogos de futebol. E muito menos é à toa que uma parte substancial dos pernambucanos saiba cantar o hino estadual, que já foi gravado em ritmos regionais variados. A proximidade da população com os seus símbolos tem uma explicação: a história do Estado desde a colonização deu origem à afamada mania de grandeza pernambucana, ao orgulho por sua ação político-revolucionária e pelo pioneirismo civilizatório.
A pesquisadora e jornalista Paula Imperiano publicou recentemente um guia histórico-cultural, numa iniciativa do Tribunal de Justiça, com o título “Pernambuco na estrada do tempo – Século XVI: o início da colonização”. É uma apuração detalhada em 27 capítulos sobre episódios do século 16 no Estado, mostrando como se deu o processo nas relações entre os que estavam aqui antes das caravelas e os estrangeiros que chegaram com a visão de criar uma infraestrutura para uma colônia, tanto sob uma visão econômica como na instalação dos primeiros serviços de educação, saúde e administração públicas.
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Segundo a pesquisadora, “o estudo deparou-se com uma constatação impactante: Pernambuco tem o maior e mais antigo conjunto do patrimônio histórico do Brasil – tesouro inexplorado na promoção do Estado e que pode se transformar em emblema”.
As informações do guia são respaldadas por mais de mil notas de referência, reunindo em torno de 400 fontes. Vão de documentos quinhentistas a estudos de séculos passados e da atualidade, brasileiros e estrangeiros, resgatando informações esquecidas no tempo ou conservadas no ambiente acadêmico, informa a apresentação do livro com mais de 400 páginas e ilustrado com fotos e pinturas que mostram a época.
Neste guia também se descobrem aspectos esquecidos do início da colonização do Estado, como a saga dos povos nativos, portugueses, judeus, árabes e africanos. E um dos capítulos é dedicado à trajetória feminina na sociedade colonial.
“Em 1541, deu-se em Pernambuco algo que permaneceu inusitado por séculos no Brasil: o governo de uma capitania por uma mulher, Brites de Albuquerque (1510-1584). Ela assumiu o comando da Capitania pela primeira vez, aos 22 anos, até o retorno do seu marido Duarte Coelho de Portugal, no ano seguinte. Em 1553, passou a responder interinamente pela segunda vez em mais uma viagem do seu marido a Portugal. Porém, ele faleceu em 1554 antes de retornar, o que fez o governo dela perdurar até a maioridade de seu filho mais velho, Duarte Coelho de Albuquerque, em 1560”, revela o estudo.
Antes dessa governança feminina, também muitos episódios marcantes e curiosos forjaram a história da Capitania de Pernambuco – um território abrangente que juntava Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e porção Oeste da Bahia (antiga “Comarca do Rio de São Francisco”) – com um grande potencial econômico. Especialmente com a troca da exploração do Pau Brasil pelo cultivo da cana-de-açúcar, que passou a produzir o doce ouro branco de muita valia na Europa. O açúcar alavancou o desenvolvimento da capitania, mas também abriu os olhos dos ambiciosos holandeses que, um século depois, invadiram Pernambuco.
O governo da Capitania e a Igreja Católica estiveram juntos no propósito colonizador de Pernambuco. O primeiro donatário Duarte Coelho construiu inicialmente três grandes templos com torres altas para o sino e vigilância de ataques de inimigos. No livro da jornalista Paula Imperiano é narrado também o episódio da instalação do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição em Olinda. “O inquisidor Heitor Furtado de Mendonça foi transportado na sua chegada num andor ricamente adornado. O cortejo mostrava a hierarquia social e a força que tinha aquela ação. Deixava clara a advertência aos que não colaborassem com o sucesso da visitação”.
Segundo o guia histórico-cultural, os áulicos, hoje seriam tidos como covardes submissos, juraram colaborar com as perseguições religiosas fantasiosas contra crimes de heresia, feitiçaria, sodomia, luterantismo, bigamia, blasfêmia e fornicação.
“Diante do espetáculo de poder, donos de engenhos de origem judia enxergaram tudo aquilo com pavor. Muitos, mesmo os que tinham prestígio, estavam vulneráveis a serem submetidos à vergonha pública, aos martírios e ao confisco de bens”. De acordo com o livro, muitos judeus tinham vindo para o Brasil, no início da colonização, temendo a Inquisição em Portugal. Agora ela chegava à porta deles.
Como se constata, a história de Pernambuco não cabe num só volume. São necessárias bibliotecas para que se conheçam os acontecimentos que forjaram as pessoas que somos. Neste sábado, 9 de maio, a pesquisadora e jornalista Paula Imperiano vai estar falando sobre as estruturas coloniais mais antigas abrigadas neste Estado. A palestra vai acontecer às 10 horas, na sede do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP), a mais antiga instituição histórica do Brasil, sediada no Recife, na rua do Hospício, 130.
A expectativa é que o Tribunal de Justiça de Pernambuco continue investindo na pesquisa histórica do Estado. O ex-presidente Ricardo Paes Barreto deu partida à coleção, e espera-se que o atual presidente do TJPE, Francisco José dos Anjos Bandeira de Melo, homenageie os pernambucanos, seu pai Bandeirinha, poeta e incentivador da nossa cultura, e seu bisavô, que ele leva no nome, José dos Anjos, professor, jornalista e ex-prefeito do Recife, que atuou na primeira metade do século passado. É isso.
*Jornalista
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