Por Felipe Resk
Do Diário de Pernambuco
A investigação das ameaças contra o youtuber Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca, mira uma organização criminosa digital, chamada “Country”, que atua no Telegram e no Discord. Segundo a Polícia Civil de São Paulo, os integrantes estariam envolvidos em casos de apologia ao nazismo, pedofilia, mutilação de animais e até ataques a pessoas em situação de rua.
Essas informações constam em relatório, obtido pelo Diario de Pernambuco, do Núcleo de Observação de Análise Digital (Noad) da polícia paulista. De acordo com o documento, a “Country” já teria feito cerca de 400 vítimas no país e é monitorada desde o segundo semestre de 2024, quando foi deflagrada a Operação Nix, contra crimes cibernéticos.
Leia mais“Essa organização criminosa atua nas redes, eles ameaçam as autoridades que conduzem suas punições, praticam estupros virtuais, provocam a automutilação e o induzimento ao suicídio”, diz o relatório.
“Os alvos também invadem sites governamentais acessando e divulgando bases de dados restritas e sigilosas, além de produzir, vender e compartilhar conteúdo de pornografia infantil.”

Ameaças a Felca
Seria justamente o grupo que estaria por trás das ameaças de morte e de estupro a Felca, que foi responsável por denunciar a “adultização” de crianças e adolescentes na internet, e a uma psicóloga, especialista em infância, que participou de um vídeo do youtuber.
Uma das mensagens, enviada por WhatsApp, dizia: “Você tem até 23:00 para apagar o seu perfil do Instagram e cortar os laços com o felca. A country vai atrás de TODA a sua família. Sua vadia asquerosa. Está achando que é quem? vou te destruir, vou torcer o teu pescoço e beber teu sangue. Abraços do lucifage (sic)”.
Outro e-mail, enviado à mulher anteriormente, também era assinado pelo grupo. “Você mexeu em um ninho de abelhas, vamos matar você e a sua família se o Felipe Bressanim Pereira não apagar o vídeo”, diz um trecho do texto. Os criminosos também usaram foto da mãe da psicóloga nas ameaças.
Após investigação, a Polícia Civil concluiu que a ameaça de WhatsApp havia sido enviada por Cayo Lucas Rodrigues dos Santos, de 22 anos, que foi preso em Olinda, no Grande Recife, na segunda-feira (25). Ele nega participação no Country, mas admite que invadia sistemas governamentais e falsificava documentos, como mandados de prisão e até certidão de dívidas no Serasa.
Já o e-mail é atribuído a um adolescente, de 17 anos, morador de Arapiraca, em Alagoas, que foi apreendido e internado nesta semana. Segundo os investigadores, o jovem é apontado, ainda, como líder de uma “panela” do Telegram, que já chegou a reunir 818 membros, cujos integrantes compartilham fotos de Hitler e outras imagens associadas ao nazismo.
Exploração infantil
O adolescente seria dono de um grupo conhecido por “orquestrar atentados a moradores de rua”, de acordo com a Polícia Civil. Por causa de vídeos e fotos compartilhadas por eles, também há suspeita de que os participantes pratiquem violência contra animais, com mutilação e esquartejamentos.
A lista de crimes atribuídas pela polícia ao jovem inclui, ainda, “exploração de menores”, “estupro virtual” e “indução, instigação e auxílio à automutilação”.
No inquérito, os investigadores juntaram diversas imagens de meninas que foram obrigadas a se expor, em fotos ou chamadas de vídeo, pelo grupo. As vítimas também precisavam escrever, por meio de mutilação, o codinome do adolescente no próprio corpo.
“Morte a todos os negros”, diz outra inscrição, feita com sangue em uma folha de papel, ao lado de uma suástica, que foi incluída como prova.
Invasões
Já Cayo Lucas é apontado na investigação como especialista na “comercialização de logins governamentais”. Segundo a Polícia, ele conseguia invadir até login de juízes e chegou a disparar, no dia 13 de agosto, um mandado de prisão falso contra Felca.
Em interrogatório, o investigado confessou que invadia sistemas oficiais e afirmou já ter faturado mais de R$ 500 mil com a venda de documentos falsos. Por um alvará de soltura fraudado, por exemplo, ele cobrava R$ 15 mil. Para lavar dinheiro, usava conta de laranjas e investimentos em criptomoeda.
Segundo o inquérito, ele teria acesso ilegal aos sistemas do Judiciário, da Saúde e das polícias de ao menos três estados: Pernambuco (“Polícia Ágil”), Ceará (“Cerebrum”) e São Paulo (“Analítico”). Também seria responsável por invadir bancos de dados e acessar dados sensíveis de possíveis vítimas do grupo, de acordo com a Polícia Civil.
“Valendo-se desses recursos ilegais, o grupo COUNTRY exige de suas vítimas dinheiro ou materiais sensíveis”, diz o relatório. “Elas são, em sua maioria, meninas menores de idade cooptadas nos jogos online e nos grupos de bate-papo. Após o período de aliciamento, que é o webnamoro, elas são assediadas e chantageadas, sofrendo extrema violência física e psicológica.”
Em audiência de custódia, Cayo Lucas teve a prisão mantida pelo juiz José de Andrade Saraiva Filho, do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE). “Os relatos dos autos são extremamente graves — havendo indícios de que os autuados integrem organização criminosa para invasões de sistemas de segurança, a nível nacional”, registrou o magistrado.
A reportagem não conseguiu contato com a defesa do investigado. O espaço segue aberto para manifestação.
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