Integrantes do PL, porém, afirmam que a auxiliar de Flávio se expressou mal ao tratar o assunto de forma pouco detalhada. Já o PT aproveitou o caso para acusar o adversário de querer fazer cortes na política social.
O filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tratou o embate político como uma tentativa de impulsionar “uma fake news cabeluda”.
— Quem está no Bolsa Família vai ter uma regra de transição, como teve na época do governo Bolsonaro, de dois anos, para que possa abrir o seu negócio ou aceitar emprego de carteira assinada, e retorno automático se der errado — afirmou Daniella em entrevista nesta segunda-feira à rádio CBN Salvador.
A declaração passou a ser explorada por aliados de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), levando o próprio senador a publicar um vídeo para negar que pretenda acabar com o benefício após dois anos.
— O futuro ex-presidente, o Lula, está espalhando uma fake news daquela cabeluda e eu peço que você compartilhe esse vídeo urgentemente para a gente combater essa mentira dele. E qual que é a mentira que ele está contando? Ele está dizendo por aí que eu acabaria com o Bolsa Família em até dois anos. É óbvio que isso não vai acontecer, é óbvio que isso é mentira — afirmou Flávio.
Na gravação, o candidato disse que sua proposta prevê a manutenção temporária do benefício para quem conseguir emprego ou abrir um negócio, com a possibilidade de retorno ao programa caso a nova fonte de renda não se sustente.
— O que estou fazendo de proposta que é muito melhor do que isso. É para incentivar você, caso você queira, quando você arrumar um emprego de carteira assinada, você abrir a própria empresa, você continua recebendo o seu Bolsa Família por até dois anos. E, se acontecer alguma coisa nesse meio tempo, você for demitido, por exemplo, ou a sua empresa não der certo, no mesmo dia você está recebendo o Bolsa Família — disse.
A campanha também divulgou uma nota acusando o PT de espalhar informações falsas.
Aliados de Lula
A fala de Daniella foi divulgada por aliados de Lula em grupos de apoio ao petista e nas redes sociais. Governistas também resgataram publicações antigas de Flávio criticando o benefício, chamado por ele de forma pejorativa de “bolsa-farelo”. O próprio presidente compartilhou uma postagem do PT com críticas à declaração da coordenadora econômica.
Um dos coordenadores da campanha de Lula, o senador Camilo Santana (PT-CE), criticou a declaração e associou a proposta Daniella Marques à promessa de Flávio de reduzir despesas públicas.
— Isso já mostra claramente de onde é que o Bolsonaro quer cortar os R$ 200 bilhões. A gente vem dizendo que é exatamente dos programas sociais. É exatamente das conquistas dos trabalhadores e trabalhadoras desse país — afirmou Camilo, que também acusou o candidato do PL de querer repetir medidas adotadas pelo governo de Jair Bolsonaro.
Diante da repercussão, integrantes da equipe de Flávio passaram a se mobilizar para afastar a interpretação de que um eventual governo do senador estabeleceria um prazo máximo de dois anos para a permanência das famílias no programa.
Nos bastidores, aliados avaliam que Daniella não conseguiu explicar com clareza a medida e acabou criando uma crise em um dos temas mais sensíveis da disputa, a seis dias do segundo turno.
O episódio também ampliou o desconforto de integrantes da campanha com a exposição de Daniella, que tem concedido uma série de entrevistas sobre propostas de um eventual governo. Entre interlocutores do senador, há críticas à falta de alinhamento prévio de algumas declarações com o núcleo político da candidatura.
A avaliação é que a coordenadora abriu uma frente de desgaste desnecessária em um momento em que Flávio tenta afastar o discurso de que promoveria cortes em programas sociais.
Embora a medida já estivesse prevista no plano de governo, aliados consideram que a forma como foi apresentada abriu margem para que o prazo fosse entendido como um limite geral para o recebimento do benefício.
Depois do embate tomar as redes, Daniella gravou um vídeo sobre o assunto. A economista explicou que os dois anos seriam destinados à transição de famílias que passassem a ter outra fonte de renda, e não ao desligamento de todos os beneficiários.
A equipe sustenta que a medida busca incentivar a entrada no mercado de trabalho sem deixar desassistidos aqueles que não conseguirem manter o emprego ou o negócio.
Posts antigos
Um auxiliar direto de Lula afirma que a campanha petista pretende continuar explorando o episódio e recuperar outras declarações antigas de Flávio sobre o benefício.
Em uma publicação de 2011, o senador menciona uma emenda apresentada a um projeto para “limitar em dois anos” o período de recebimento do programa. A intenção é usar esse histórico para reforçar o discurso sobre as incertezas em relação à manutenção de políticas sociais em um eventual governo Flávio.
O Bolsa Família é um dos pontos de atenção das duas campanhas na reta final. Pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira mostrou que a vantagem de Lula sobre Flávio entre os beneficiários do programa aumentou cinco pontos percentuais. Nesse segmento, 61% declararam voto no petista, ante 32% no senador. O levantamento foi realizado após o reajuste concedido pelo governo federal ao benefício às vésperas da eleição.
Desde o início do segundo turno, Lula tem questionado os efeitos do ajuste fiscal prometido pelo adversário e cobrado explicações sobre quais despesas seriam reduzidas.
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