Meu voo 1793, da Gol, atrasou seu pouso em Brasília por 45 minutos, devido a um forte temporal que desabou sobre o Distrito Federal, que estava sem chuva há mais de 150 dias. A aeronave ficou sobrevoando a cidade aguardando a melhora do tempo.
Meu voo 1793, da Gol, atrasou seu pouso em Brasília por 45 minutos, devido a um forte temporal que desabou sobre o Distrito Federal, que estava sem chuva há mais de 150 dias. A aeronave ficou sobrevoando a cidade aguardando a melhora do tempo.
O que a fala de Raquel revela sobre o poder de decidir pelo corpo de uma mulher pobre
Há frases que podem ser classificadas como infelizes. E outras que obrigam a sociedade a discutir algo muito maior do que o constrangimento de quem as pronunciou, como esta: “Mas faz sem ela saber! Vai!” Saiu, pasmem, da boca da governadora Raquel Lyra (PSD) em meio a uma visita ao Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, em maio de 2025.
O vídeo, com a lamentável frase, veio a público, ontem, e mostra a governadora conversando com pessoas que aparentam integrar a equipe da unidade sobre uma paciente grávida que, segundo o relato ouvido por ela, já teria sete filhos. Na sequência, Raquel fala em colocá-la na fila para uma laqueadura e, depois de uma resposta inaudível, afirma que o procedimento deveria ser feito sem que a mulher soubesse.
Leia maisO primeiro problema é objetivo: uma esterilização cirúrgica não pode ser decidida por terceiros. A legislação brasileira estabelece que a esterilização voluntária exige manifestação expressa da vontade da própria pessoa, registrada em documento escrito, depois de receber informações sobre riscos, efeitos colaterais, dificuldades de reversão e alternativas contraceptivas.
O Ministério da Saúde também estabelece que a pessoa deve passar por orientação sobre os métodos disponíveis e, caso escolha a cirurgia, assinar termo de consentimento. Portanto, a expressão “sem ela saber” não é um detalhe semântico. Atinge justamente o elemento que transforma uma intervenção médica em uma escolha legítima: o consentimento da mulher.
E existe uma segunda camada, talvez ainda mais incômoda. A conversa não trata de uma mulher abstrata. Trata de uma paciente da rede pública, apresentada naquele ambiente pelo número de filhos que já teria. A informação de que ela estaria grávida novamente, depois de sete filhos, aparece na conversa como justificativa para se pensar em esterilização.
É aí que a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a ser também social. Quantos filhos uma mulher tem não determina quanto direito ela possui sobre o próprio corpo. Ser pobre, morar no interior, depender do SUS ou já ter sete filhos não transforma ninguém em objeto de decisão de médicos, gestores, autoridades ou familiares.
Planejamento familiar é oferecer informação e condições para que a mulher escolha. Não é escolher por ela.
SEM SABER – A diferença parece elementar, mas é justamente ela que separa uma política pública de saúde de uma política de controle sobre corpos. A própria atualização da legislação brasileira reforçou a autonomia individual. Desde a Lei 14.443/2022, a esterilização voluntária pode ser realizada a partir dos 21 anos ou por quem tenha pelo menos dois filhos vivos, sem necessidade de autorização do cônjuge. A decisão pertence à pessoa que será submetida ao procedimento. Por isso, o episódio produz uma pergunta inevitável: o que significa, para uma autoridade pública, imaginar que uma mulher pode ser esterilizada sem sequer saber que isso acontecerá?

Mais grave do que se supõe – Não é necessário afirmar que o procedimento tenha ocorrido para reconhecer a gravidade da fala. Até o momento, não há informação de que a paciente mencionada no vídeo tenha sido efetivamente submetida a uma laqueadura sem consentimento. O que está documentado é a fala da governadora e a posterior admissão de que ela fez o comentário. O debate responsável não deve transformar uma declaração em uma acusação de que um procedimento efetivamente aconteceu sem autorização. Mas também não deve reduzir uma declaração dessa natureza a uma simples “fala equivocada”, porque existe uma questão de princípio que permanece mesmo depois do pedido de desculpas.
Reconhecimento não encerra o caso – Raquel reconheceu a declaração, classificou-a como equivocada e pediu desculpas, afirmando que ela não representa o respeito que tem pelas mulheres. Também disse defender o planejamento familiar baseado em informação e escolha.
O pedido de desculpas é um elemento da resposta política ao episódio. Não encerra, porém, as perguntas objetivas que o caso produz. A orientação foi apenas uma manifestação informal, sem qualquer consequência prática? Houve alguma comunicação à equipe? A paciente foi identificada? Recebeu orientação sobre planejamento familiar? Manifestou alguma vez interesse em realizar uma laqueadura? Algum procedimento foi realizado? São perguntas que podem e devem ser respondidas sem transformar o episódio em espetáculo político, porque existe uma questão maior em jogo: quem decide sobre o corpo das mulheres quando elas estão em situação de vulnerabilidade?
Expostas e sem proteção – A história brasileira e a própria discussão contemporânea sobre direitos reprodutivos mostram que mulheres pobres estão particularmente expostas a decisões tomadas por terceiros. Quando uma mulher rica decide não ter filhos, a sociedade tende a falar em escolha. Quando uma mulher pobre tem muitos filhos, surge com frequência a tentação de transformar sua reprodução em problema social a ser administrado. Pode oferecer contraceptivos. Pode garantir acesso à laqueadura. Pode ampliar atendimento. Pode orientar. Pode informar. Pode assegurar que uma mulher que deseja interromper sua capacidade reprodutiva consiga fazê-lo dentro das regras legais.

Além da disputa eleitoral – O que o Estado não pode fazer é substituir a vontade da mulher pela sua própria vontade. E talvez seja esse o aspecto mais grave da fala de Raquel Lyra: não apenas a referência à laqueadura, mas a ideia expressa de que a decisão poderia ser tomada sem que a própria mulher soubesse. Uma democracia não se mede apenas pela existência de eleições. Também se mede pelos limites impostos ao poder de uma autoridade sobre aqueles que estão em posição mais vulnerável. O corpo de uma mulher não é patrimônio do Estado. Não pertence ao médico. Não pertence ao marido. Não pertence ao governador. Não pertence à família. E muito menos pode ser tratado como uma variável de uma política de controle populacional. É por isso que o episódio merece ser discutido para além da disputa eleitoral de 2026. A questão central não é simplesmente se Raquel Lyra “se expressou mal”. A questão é compreender por que uma autoridade pública chegou a verbalizar a possibilidade de uma intervenção irreversível no corpo de uma paciente sem o conhecimento dela — e assegurar que nenhuma mulher atendida pelo poder público seja tratada dessa maneira.
CURTAS
POR OUTRA, NÃO – Se houve apenas uma frase infeliz, que se esclareça. Se houve alguma consequência prática, que se apure. E, em qualquer hipótese, que fique reafirmado o princípio básico que deveria ser óbvio em qualquer serviço de saúde: informar é obrigação. Orientar é obrigação. Oferecer acesso é obrigação. Decidir pelo corpo de outra mulher, não.
QUE HORROR! – No material bruto extraído dos celulares de Daniel Vorcaro pela PF, e que agora está nas mãos de vários ministros do STF, aparecem cerca de cinco mil itens classificados como “Score nudez”. Vão de nudes a cenas de sexo muito explícito.
PÉ NO CHÃO – Autor do bordão mais conhecido das últimas décadas em campanhas presidenciais — “Nunca antes na História deste país” —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a reconhecer as dificuldades de sua gestão e a adotar um discurso mais “pé no chão”. Após debater com aliados os obstáculos da corrida eleitoral, o petista tenta modular o tom ufanista e afirma até mesmo que poderia ter feito “muito mais”.
Perguntar não ofende: Muitas parturientes podem ter sido laqueadas nas maternidades estaduais sem saberem?
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A deputada federal Maria Arraes (PSB) classificou como “repugnante” a fala da governadora Raquel Lyra (PSD), que sugeriu realizar uma laqueadura sem o conhecimento da paciente. “De nada adianta a gente ter uma governadora se ela não colocar a luta das mulheres como prioridade e, quando a gente chega lá, a responsabilidade é ainda maior. Usar a caneta para abrir caminhos, garantir direitos e proteger outras mulheres, nunca para tirar delas o direito de decidir sobre o próprio corpo”, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais.
A declaração da governadora Raquel Lyra (PSD) sugerindo a realização de uma laqueadura em uma paciente “sem ela saber” também remete a um episódio envolvendo o então presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Em reportagem publicada em 2018, a Folha de S.Paulo recuperou declarações e propostas de Bolsonaro em defesa da esterilização de pessoas pobres como forma de, segundo ele, “combater a miséria e a criminalidade”. Em 2014, o então vereador Carlos Bolsonaro chegou a defender nas redes sociais que o Bolsa Família fosse concedido apenas a pessoas submetidas a vasectomia ou laqueadura.

Veja na íntegra:
Leia maisBolsonaro defendeu esterilização de pobres para combater miséria e crime
Por Ranier Bragon
Da Folha de S.Paulo
O presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) apresentou projetos e defendeu em discursos nas últimas décadas a esterilização dos pobres como meio de combater a criminalidade e a miséria.
No último dia 23, ele afirmou na marcha dos prefeitos a Brasília que estuda colocar no seu plano de governo uma proposta de planejamento familiar, mas não a detalhou.
“Não estou autorizado a falar isso, que botei na mesa, mas eu gostaria que o Brasil tivesse um programa de planejamento familiar. Um homem e uma mulher com educação dificilmente vão querer ter um filho a mais para engordar um programa social.”
Nas dezenas de discursos que ele proferiu sobre o assunto, na Câmara, nos últimos 25 anos, defendeu a adoção pelo Estado de um rígido programa de controle de natalidade, com foco nos pobres.
Segundo o pensamento que manifestou nesse período, seria o caminho para a redução da criminalidade e da miséria.
No passado, Bolsonaro manifestou que programas como Bolsa Escola e Bolsa Família serviriam apenas para incentivar os pobres a ter mais filhos e, com isso, aumentar a fatia que recebem de benefícios.
“Só tem uma utilidade o pobre no nosso país: votar. Título de eleitor na mão e diploma de burro no bolso, para votar no governo que está aí. Só para isso e mais nada serve, então, essa nefasta política de bolsas do governo”, afirmou em novembro de 2013 no plenário da Câmara.
Em 1992, seu terceiro ano como deputado, ele já falava sobre o tema. “Devemos adotar uma rígida política de controle da natalidade. Não podemos mais fazer discursos demagógicos, apenas cobrando recursos e meios do governo para atender a esses miseráveis que proliferam cada vez mais por toda esta nação.”
No ano seguinte, voltou à carga, também na Câmara: “Defendo a pena de morte e o rígido controle de natalidade, porque vejo a violência e a miséria cada vez mais se espalhando neste país. Quem não tem condições de ter filhos não deve tê-los. É o que defendo, e não estou preocupado com votos para o futuro”.
Bolsonaro afirmava em seus discursos não acreditar que a educação pudesse solucionar os problemas do país.
“Não adianta nem falar em educação porque a maioria do povo não está preparada para receber educação e não vai se educar. Só o controle da natalidade pode nos salvar do caos”, disse em julho de 2008.
Segundo ele, a discussão sobre o auxílio governamental à população mais pobre entulharia o Congresso de projetos. “Já está mais do que na hora de discutirmos uma política que venha a conter essa explosão demográfica, caso contrário ficaremos apenas votando nesta Casa matérias do tipo Bolsa Família, empréstimos para pobres, vale-gás etc”, disse em 2003.
Em algumas das vezes que abordou o assunto, opinou que os pobres, por ignorância ou na expectativa de receber ajuda do governo, não controlam o número de filhos como os mais ricos.
“Tem que dar meios para quem, lamentavelmente, é ignorante e não tem meios controlar a sua prole. Porque nós aqui controlamos a nossa. O pessoal pobre não controla [a dele]”, afirmou em 2011.
A lei 9.263/96, que trata do planejamento familiar, proíbe qualquer ação com o objetivo de controle demográfico ou a indução individual ou coletiva à prática de esterilização. Ela estabelece como diretrizes ações preventivas e educativas para o livre exercício do planejamento familiar.
A esterilização cirúrgica voluntária — vasectomia ou laqueadura — é permitida apenas aos maiores de 25 anos ou, pelo menos, com dois filhos vivos, observados critérios como prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e a cirurgia, informação sobre a irreversibilidade do ato e não realização de laqueadura no período de parto.
Bolsonaro apresentou três projetos retirando praticamente todas essas restrições e reduzindo a idade mínima de esterilização para 21 anos. Dois foram arquivados e um está parado desde 2009.
Um de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro, manifestou em rede social, em 2014, proposta de dar Bolsa Família só a quem se submetesse a vasectomia ou laqueadura.
A Folha enviou perguntas sobre o tema à assessoria do presidenciável, mas não houve resposta. O vereador Carlos Bolsonaro também não se manifestou.
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A declaração da governadora de Pernambuco e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), sugerindo a realização de uma laqueadura em uma paciente do Hospital Dom Moura, em Garanhuns, “sem ela saber”, ganhou repercussão nacional após ser revelada pela coluna de Andreza Matais, do Metrópoles.
O caso passou a ser destaque nos noticiários de todo o país neste domingo (20) e, na Folha de S.Paulo, tornou-se a notícia mais lida da editoria de Política.
O candidato a governador João Campos (PSB) se pronunciou nas redes sociais, na noite deste domingo (20), sobre a divulgação de um vídeo em que Raquel Lyra (PSD) aparece recomendando a realização de um procedimento de laqueadura sem o consentimento de uma paciente. Segundo o líder da Frente Popular de Pernambuco, a postura da governadora, sintetizada na frase “Faz sem ela saber”, causa “indignação” e representa uma “violação da integridade física de uma mulher”.
“‘Faz sem ela saber’. Assisti com indignação ao vídeo em que a candidata usa essa frase pra sugerir a laqueadura de uma gestante, sem ela saber. A lei é clara: esterilização exige manifestação expressa da vontade da mulher. Autoridades e gestores públicos têm o dever legal e ético de garantir direitos e proteger a população, jamais de sugerir práticas ilícitas ou violações da integridade física. Fazer “sem ela saber” não é cuidado. É violência. É crime previsto em lei”, escreveu.
As imagens que viralizaram foram gravadas em 2025, no Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, no Agreste. Na gravação, a governadora aparece ouvindo o relato feito por uma servidora sobre uma mulher que já tinha filhos e estava novamente grávida. Raquel sugere a realização de uma laqueadura, ouve da funcionária uma frase que não é possível entender no vídeo e, então, diz: “Mas faz sem ela saber, vai!”. O caso vem gerando indignação de diversas autoridades, influenciadoras e outras personalidades em todo o país.
Depois das declarações da governadora Raquel Lyra sobre a realização de laqueaduras, inclusive diante da possibilidade de procedimentos sem o consentimento adequado das mulheres, a reação foi imediata. O assunto revoltou mulheres em todas as regiões de Pernambuco.
E agora é preciso ir além da declaração. É preciso saber o que aconteceu na prática: quantos procedimentos foram realizados, em quais unidades, sob quais protocolos e com qual autorização?
Leia maisNão adianta ser mulher, falar sobre mulheres e usar essa condição como discurso. Trabalhar pelas mulheres exige sensibilidade, responsabilidade e, principalmente, respeito aos seus direitos.
E essa discussão não termina nas laqueaduras. Ela também passa pelo fechamento ou redução do funcionamento de delegacias especializadas em atendimento às mulheres e pelas creches que foram prometidas e não foram entregues.
Ser mulher não é suficiente para demonstrar compromisso com as mulheres. É preciso governar pensando nelas, protegendo seus direitos e respeitando suas escolhas.
No caso das laqueaduras, a pergunta é simples e precisa de uma resposta objetiva: quantas foram feitas sem autorização ou sem o devido consentimento das pacientes?
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Pegou mal. Mais uma vez. A declaração da governadora Raquel Lyra (PSD) que sugere a uma paciente do Hospital Dom Moura, em Garanhuns, ser submetida a uma laqueadura, nas palavras de Raquel, “sem ela saber”, acabou por ganhar uma dimensão que ultrapassa, e muito, os limites de uma fala infeliz.
Trata-se de um episódio que envolve consentimento, autonomia individual, ética médica e valores defendidos por setores que, sim, integram o campo político da ex-prefeita de Caruaru.
Leia maisMas antes de analisar o teor do que foi sugerido pela governadora, é necessário se debruçar sobre a Constituição Federal. A legislação brasileira exige manifestação expressa da vontade para a esterilização voluntária.
Ou seja, fora das quatro linhas do que preconiza a lei tudo seria ilegal. Bacharel em Direito, a procuradora licenciada teria por obrigação de ofício saber disso, justamente para evitar que a incumbisse em erro grave, ilegal e inconstitucional.
Com um palanque abarrotado de bolsonaristas e conservadores, é justamente junto ao eleitor católico que a declaração de Raquel esbarra em um dogma: o catecismo considera moralmente ilícita a esterilização direta e estabelece que a regulação dos nascimentos deve ocorrer sem imposições externas.
A encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, também rejeita a esterilização direta e adverte contra a interferência coercitiva do poder público nas decisões relacionadas à geração da vida. Portanto, a frase da governadora colide não apenas com a legislação brasileira, mas também com princípios centrais da doutrina católica.
Politicamente, o episódio cria mais uma situação delicada para uma governadora que busca manter em seu entorno setores de centro, direita e conservadores. Mais uma porque, recentemente, a base de apoio a Raquel Lyra expurgou de perto de si a figura de Mendonça Filho, candidato do PL ao Senado, tendo chegado a acionar a Justiça Eleitoral para evitar que o ex-governador fizesse uso da imagem da governadora em peças publicitárias.
Acontece que, oportunamente ou não, hoje, Mendonça carrega consigo parte de um eleitorado que atribui peso relevante a valores ligados à família, à religião e à liberdade individual.
Em resumo: como uma candidata que precisa dialogar com diferentes segmentos conservadores explicará uma declaração que sugere uma intervenção definitiva no corpo de uma mulher sem seu conhecimento? Entre a legislação, a doutrina católica e a própria necessidade de preservar alianças eleitorais, a frase transformou um comentário de poucos segundos em um problema político de proporções bem maiores.
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Por Mariana Sanches
Do UOL
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja neste domingo (20) a Nova York, onde fará o discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU. No decorrer de sua fala, devem aparecer ao menos três recados aos Estados Unidos, sem citações nominais ao presidente Donald Trump, que o sucederá no púlpito: cooperação internacional no combate ao crime organizado, sem invasões territoriais, críticas à aplicação de tarifas comerciais e respeito da comunidade internacional às eleições brasileiras.
A menos de 12 dias das eleições presidenciais, e em meio a um cenário difícil pintado pelas pesquisas de intenção de voto, Lula deve deixar de lado qualquer menção ao Judiciário brasileiro, que enfrenta uma grave crise exposta na sessão do STF (Supremo Tribunal Federal) da última terça-feira (15), quando o julgamento da abertura de inquérito contra Alexandre de Moraes por suposta ligação com Daniel Vorcaro virou uma sucessão de trocas de acusações e ataques entre os magistrados. A sessão foi suspensa por um pedido de vista de Flávio Dino.
Leia maisNo mesmo fórum, no ano passado, o presidente brasileiro defendeu nominalmente o “Judiciário” do país, um dia depois de os Estados Unidos imporem sanções contra a mulher de Moraes, Viviane Barci, e a um escritório do casal com base na Lei Magnitsky. A Assembleia Geral ocorria dias após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, altos funcionários do seu governo e militares por tentativa de golpe de Estado, cujo relator foi o mesmo Alexandre de Moraes. Auxiliares do petista avaliam que, desta vez, a crise enfrentada pelos ministros do Supremo é de ordem interna.
As páginas nas quais foi escrito o discurso que Lula fará na terça-feira (22) contêm, ainda, velhas demandas do Brasil no organismo internacional – muitas já apareceram em outras das nove participações do presidente brasileiro na ONU. Estarão lá a reforma do Conselho de Segurança, a defesa do multilateralismo, o apelo à democracia, a importância da conservação ambiental e a necessidade de se adotarem soluções de governança global que encerrem conflitos, como o de Gaza, da Ucrânia e do Sudão. Os pleitos devem ganhar em intensidade, já que a ONU enfrenta crises política e financeira, além de um impasse na eleição de um secretário-geral que substitua o português Antônio Guterrez, que encerrará seu mandato após dez anos.
A equipe do presidente brasileiro vê possibilidade de repetir o esbarrão coreografado de bastidor com Trump, embora nenhuma agenda tenha sido confirmada. Um encontro rápido é possível, apesar dos esforços do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro e do comentarista político Paulo Figueiredo, que estiveram em Washington nos últimos dias para pedir a interlocutores no Departamento de Estado e na Casa Branca que o presidente americano evitasse qualquer interação com o líder brasileiro. A dupla aproveitou a viagem para fazer pressão por novas sanções aos ministros Moraes, Flavio Dino e Gilmar Mendes.
Fora da ONU, Lula tem uma reunião prevista com o prefeito de Nova York, o socialista Zohran Mamdani. Mais de 30 autoridades pediram reuniões bilaterais, segundo os assessores do presidente brasileiro. Nenhuma foi confirmada, por ora. O petista enfrentará uma viagem de mais de 12 horas para passar menos de dois dias completos na cidade americana. Embora o tom da participação dele na ONU esteja sendo preparado para atender ao público internacional, o discurso não deixa de ser uma peça publicitária luxuosa para a campanha.
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Amanhã (21), Raquel Lyra (PSD), João Campos (PSB) e Ivan Moraes (Psol) participam de um debate promovido pela TV Guararapes. O encontro será realizado das 18h às 19h45, com mediação da apresentadora Meiry Lanuce. A emissora optou por um formato que os candidatos farão perguntas entre si.
O debate será dividido em quatro blocos. No primeiro e no terceiro, os candidatos poderão abordar temas livres nas perguntas feitas uns aos outros. A ordem de quem pergunta e quem responde será definida por sorteio, com direito a réplica e tréplica. No segundo bloco, o formato será semelhante, mas os temas das perguntas também serão sorteados.
O quarto e último bloco será destinado às considerações finais dos candidatos. O encontro ocorre a 14 dias do primeiro turno das eleições para o Governo de Pernambuco.
Após a repercussão de um vídeo divulgado neste domingo (20) pela coluna da jornalista Andreza Matais, do Metrópoles, em que a governadora de Pernambuco e candidata à reeleição, Raquel Lyra (PSD), sugere a realização de uma laqueadura em uma mulher sem o seu conhecimento, a governadora veio a público pedir desculpas pela declaração.
O registro foi feito durante a inauguração da ala pediátrica do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns. Na gravação, a funcionária relata o caso de uma gestante que já teria sete filhos — a mulher mencionada na conversa não aparece nas imagens. Raquel sugere, então, que a mulher seja submetida a uma laqueadura sem que tenha conhecimento do procedimento.
Raquel classificou a declaração como “uma fala equivocada” e pediu desculpas. “Essa fala minha em nada traduz o respeito que eu tenho às mulheres. Por isso, eu peço desculpas, foi uma fala equivocada, eu não tenho compromisso com o erro”, afirmou, em vídeo publicado nas redes sociais. A governadora também disse defender que mulheres tenham acesso à informação e ao planejamento familiar pela rede pública de saúde.
Na sequência, Raquel afirmou que a divulgação do vídeo seria “mais uma tentativa de desviar o verdadeiro foco do debate” no contexto eleitoral. “Não é sobre ataques, deve ser sobre propostas”, declarou.
Por Larissa Rodrigues
Do Blog Efeito Político
Este é daqueles textos que nenhuma jornalista gostaria de escrever. Sendo mulher, é ainda mais pesado analisar a fala mais indefensável de todos os tempos vinda justamente da primeira mulher a comandar Pernambuco, um Estado libertário e rebelde por natureza, a terra das Heroínas de Tejucupapo.
Mas, quando se pensava que já tinha se visto todo tipo de absurdo na campanha para o Governo de Pernambuco em 2026, como gabinete do ódio liderado por servidor estadual, pix para comentários favoráveis à governadora Raquel Lyra (PSD) e panfletos apócrifos que até hoje não tiveram suas origens bem explicadas, eis que, neste domingo (20), faltando 15 dias para o primeiro turno das eleições, o eleitorado pernambucano se depara com o horror de ver uma mulher defendendo laqueadura em outra mulher “sem ela saber”.
Leia maisA mulher que defende a laqueadura em outra mulher sem consentimento, pasmem, é a própria governadora Raquel Lyra, em um vídeo de 2025, quando houve a inauguração da ala pediátrica do Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns (Agreste). “Mas faz sem ela saber! Vai!”, diz Raquel, após ouvir de uma pessoa que aparenta ser funcionária da unidade o relato sobre uma paciente que estaria novamente grávida e já teria sete filhos.
São tantas camadas aqui de absurdo que é inevitável sentir repulsa com a fala, uma indignação que todos podem e devem sentir, mas sendo mulher é ainda mais doído. Como pode ser aceitável defender que uma mulher seja esterilizada sem saber, sem consentir, simplesmente acordar de uma cirurgia e ter seu corpo modificado sem sua expressa autorização? Como? Sob qual justificativa essa violência teria amparo? Ninguém, absolutamente ninguém tem direito de modificar o corpo de outra pessoa sem consentimento, nem familiares, nem médicos, e muito menos o Estado.
Quando a governadora do Estado diz algo do tipo ela está chancelando que o Estado possa se apropriar de uma decisão que só pertence à própria mulher, independentemente das condições em que essa mulher se encontre. A fala de Raquel Lyra produz o que há de pior na política: a desumanização das pessoas economicamente vulneráveis, ou você, leitor/leitora, acredita que a governadora seria capaz de sugerir a laqueadura de uma mulher “sem ela saber” que estivesse internada em hospitais particulares? Mulheres de classe média, classe média alta ou ricas jamais veriam a governadora sugerindo esterilização compulsória, porque essas são “consideradas humanas” e têm direito de tomarem as próprias decisões.
No entanto, na cabeça de uma governadora repleta de privilégios de todos os tipos e que claramente não enxerga a mulher periférica como igual em direitos é aceitável desumanizá-la ao ponto de fazer nela uma laqueadura “sem ela saber”. É estarrecedor e por mais que Raquel Lyra evite associação com a extrema direita, mesmo tendo representantes em seu palanque, sua fala é semelhante aos piores absurdos já proferidos pelos fascistas. Que diferença Raquel Lyra acha que tem das mulheres periféricas?
Como se sentiria a governadora ao acordar de uma cirurgia e tomar ciência de que nela fora feita uma laqueadura “sem ela saber”? Essa é a pergunta que a governadora e também sua vice, Priscila Krause (PSD), devem se fazer. Além disso, devem se questionar por qual razão uma laqueadura sem consentimento seria inaceitável nelas, mas é aceitável na paciente da rede pública. Raquel e Priscila devem uma explicação às mulheres de Pernambuco. Mais, devem desculpas.
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A jornalista Sônia Carneiro, mais conhecida como Soninha, morreu neste domingo (20). Segundo familiares, ela foi encontrada pelo filho pela manhã, em casa, onde morava sozinha. De acordo com o relato, Sônia havia apresentado um quadro de arritmia cardíaca há cerca de três ou quatro dias, chegou a ser atendida em um hospital e recebeu alta. Ontem (19), ela almoçou na casa do filho e, segundo os familiares, estava bem. A família informou que ela morreu durante o sono. A causa da morte ainda não foi divulgada oficialmente.
Sônia Carneiro teve uma longa trajetória no jornalismo político. Foi repórter da Rádio Jornal do Brasil em Brasília entre 1972 e 1992 e acompanhou momentos importantes da história política brasileira, como o processo de redemocratização a campanha das Diretas Já, a eleição presidencial de 1989 e o impeachment de Fernando Collor. Em texto publicado em 2012, no jornal O Globo, o jornalista Jorge Bastos Moreno a descreveu como uma repórter “intrépida” e destacou sua atuação na cobertura da transição democrática. “Com o seu destemor e irreverência, Soninha arrancou coisas dos políticos, que acabaram influenciando decisões importantes. (…) Tancredo Neves só a chamava de ‘minha sobrinha’ e tinha por ela um grande afeto”, descreveu Moreno em seu texto.
Entre os episódios que marcaram sua carreira está uma pergunta feita a Collor durante uma entrevista coletiva, no fim de 1991, quando o então presidente havia emagrecido significativamente. Sônia perguntou diretamente se ele estava com Aids, em meio aos rumores que circulavam na época sobre sua saúde. O episódio foi relembrado pela Folha de S.Paulo em 2014 e pelo Observatório da Imprensa em 2016.
Em 2003, trabalhou com Jaques Wagner na equipe da Secretaria Especial do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. Anos depois, em 2015, foi assessora especial de comunicação social de Wagner no Ministério da Defesa, quando ele comandava a pasta.
Mais informações em instantes.
